‘Fiquei três horas no escuro com água no pescoço, perdi tudo’

‘Fiquei três horas no escuro com água no pescoço, perdi tudo’

Leia o relato de uma sobrevivente da enxurrada no Rio, a doméstica Maria do Carmo Nascimento Santos, de 59 anos, salva por um vizinho após um mar de lama invadir sua casa no Vidigal, zona sul da capital, destruir tudo e matar a cachorrinha Lupita

Julia Affonso

20 de março de 2019 | 12h57

Maria morava no segundo andar. Foto: Arquivo Pessoal

Pouco mais de um mês após o temporal que deixou sete mortos, no Rio, a doméstica Maria do Carmo Nascimento Santos, de 59 anos – uma sobrevivente da enxurrada -, ainda acorda no meio da madrugada, assustada, nervosa. Na noite de 6 de fevereiro, ela estava em casa, no Vidigal, zona sul da cidade, quando um mar de lama arrebentou a janela da sala e invadiu o imóvel.

Maria perdeu tudo o que estava na casa em que morava havia mais de 20 anos na região da Jaqueira, no pé do Morro Dois Irmãos. A mobília, as roupas, os documentos, seu dinheiro e até sua cachorrinha Lupita, de nove meses. Só ela se salvou.

“A água já veio me carregando para a cozinha. Eu fiquei com a água até o pescoço”, relata. “Não deu tempo de salvar a Lupita. Eu fiquei lá mais de 3 horas no escuro. Eu fiquei com a cabeça no teto para não engolir aquela sujeira.”

Desde que a lama quase tirou sua vida, Maria está morando na casa onde trabalha. Amigos estão fazendo uma vaquinha para ajudá-la a reconstruir a vida.

“Quando eu vim para o Rio, eu estava com 28 anos. Hoje eu estou com 59, vou fazer 60 este ano”, conta Maria, que nasceu em Belmonte, cidade de 23 mil habitantes no sul da Bahia. “Sempre trabalhei para ter minha casa. Eu arrumava tudo direitinho, recebia meus amigos. A gente está correndo atrás para ver o que vai conseguir.”

Leia o depoimento de Maria sobre a tragédia de 6 de fevereiro

“Às vezes, eu já estou deitada e acordo lembrando. Quero abrir a porta e sair correndo. É um trauma. Ainda estou me acalmando aos poucos, fico muito nervosa. Eu acho que tinha uns 22 anos nessa casa. Sempre (morei) sozinha.”

“Há nove meses tinha a Lupita. Achei esse nome bonito e botei nela. Eu sempre quis ter cachorro, mas não tinha condições de criar. Ela era bebê, cor bege e tinha uns 8 quilos. Dormia comigo no quarto. Quando estava calor, eu botava ela na frente do ventilador. Ela gostava de comer pão, botava as patinhas no meu pé e comia.”

Foto: Arquivo Pessoal

Foto: Arquivo Pessoal

“Aquele dia eu estava em casa, tinha trabalhado na terça e estava de folga. Acordei 8h30, 9h. Tomei banho, café, fiquei em casa de bobeira, vendo televisão. A Lupita estava tão nervosa, passou o dia todo com aquela agonia, como se estivesse me explicando alguma coisa, mas eu não entendia. Pulava em cima de mim, ficava mordendo. Eu não entendi, não entendi.”

“Estava sol. O pessoal disse que ia chover, que ia ter uma chuva forte. Minha casa ficava na Jaqueira, mais para cima (do Vidigal), perto da pedra. Descia a pé e subia de moto. Quando foi umas oito e meia da noite começou a chover. Chuva forte, relâmpago.”

“Só deu tempo de eu virar. Quando eu virei, vento pra caramba, a janela quebrou. Eu fui pegar a Lupita, não deu tempo. A água já veio me carregando para a cozinha. Eu fiquei com a água até o pescoço. Não deu tempo de salvar a Lupita, foi coisa de minutos. Já era a lama com tudo. Eu fiquei lá mais de 3 horas no escuro. Já tinha passado por chuva, trovada, vento, mas não assim. Aquele dia foi demais.”

“A lama entrou pela janela da sala foi derrubando tudo em cima de mim, sofá, foi tudo virando, armário da cozinha, geladeira. Só fui salva porque eu segurei na grade de trás da geladeira. Ela estava boiando perto do teto, eu segurei. Eu fiquei com a cabeça no teto para não engolir aquela sujeira.”

“O pessoal gritando, gritando. Eu respondia, mas ninguém estava ouvindo eu responder. Estava muito barulho com a água, aquela enxurrada. Minha vizinha sabia que eu estava em casa, ela gritava pra ver se eu estava viva. Ela achou que eu não estava viva, porque foi muita água. A vizinha do lado morreu, não deu tempo. A outra vizinha pulou pela janela com o filho de 5 anos. A vizinha chamou os vizinhos para me salvar, ela sabia que eu estava em casa.”

“Um rapaz alto conseguiu entrar pela janela. Ele se apoiou no sofá, me amarrou em uma corda e me botou no colo, porque a água estava no pescoço. Ficaram uns quatro rapazes na escada para me segurar.”

“Minha casa era arrumada igual uma casa de boneca. Tinha uma sala, um quarto, um banheiro e uma cozinha, fogão, sofá, tinha tudo. Era arrumadinha, tinha minhas plantinhas. Sempre trabalhei para ter minha casa. Eu arrumava tudo direitinho, recebia meus amigos.”

“A gente está correndo atrás para ver o que vai conseguir na Prefeitura, ver documentos, porque eu perdi tudo. (Reconstruir) a minha casa, eu acho que não. Eu tenho medo de morar lá de novo. Vou ver se eu vendo por uma besteirinha. Está interditado lá. (Ter outro cachorro) agora, não. Com dois dias acharam ela no meu quarto, morreu no meu quarto. Eu ainda estou muito… quando eu lembro, eu choro.”

Foto: Arquivo Pessoal

Foto: Arquivo Pessoal

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