Fios do destino

Fios do destino

Como o jogo Minecraft e a mitologia grega levam à reflexão sobre empresa, protocolo familiar e sucessão

Nereu Domingues*

14 Setembro 2018 | 08h00

Nereu Domingues. FOTO: DIVULGAÇÃO

As Moiras, da mitologia grega, são três irmãs que decidiam o destino tanto dos deuses como dos humanos. As três fabricavam, teciam e cortavam a linha que representa a vida de cada pessoa ou deus. Tais quais Moiras, estavam meus filhos à mesa do restaurante, outro dia.

Em primeiro lugar, convém explicar que temos uma regra em casa que proíbe o uso de telefone celular ou tablet durante os encontros de família, especialmente em mesas de restaurante. Mas, embora os dispositivos eletrônicos tenham ficado no carro, o jogo estava ali, em discussão.

A conversa animada entre os quatro irmãos se tratava da estratégia para um jogo em ambiente virtual chamado Minecraft.

O Minecraft é um jogo aberto, onde você cria seu mundo em 3D a partir da construção e mineração de blocos. E lá estavam eles, tecendo o fio do destino virtual de cada um, quando a conversa foi interrompida pelo choro do caçula.

“O Paulinho está chorando porque dissemos que ele tem que dar o lugar de Fazendeiro para a Duda”.

Estava instalado o litígio familiar!

Matheus, o irmão mais velho, explicou que “o Paulinho quer ser o fazendeiro, mas a gente tem que arrumar um lugar para a Duda e achamos que seria melhor que ela ocupasse essa função. Eu já estou acumulando duas funções, construtor e caçador, a Ju é a dona da loja e a gente não consegue achar uma função para a Duda. Pai, você pode nos ajudar indicando alguma função para a Duda?”

Como pai, tenho a obrigação de arrumar uma função para a minha filha. Vamos ver, do que a Duda gosta? “Ela gosta de cachorros, podemos montar um pet shop? E se ela fosse a cantora do lugar? Ou médica? A Duda adora ajudar as pessoas!”

“Pai, não dá”, diz o Matheus. “Não existem essas funções no jogo. O Paulinho quer continuar a ser Fazendeiro, mas em vez de fornecer algodão, só cria porcos e mais porcos, a Ju é dona de loja, mas não consegue vender porque a Duda, como está sem função, dá coisas de graça para as pessoas. Pensamos que a Duda poderia ser uma ótima Fazendeira, mas o Paulinho não deixa. Acho que esse jogo não vai nem começar.”

Enquanto refletia em uma solução para as crianças, pensei comigo que o dilema delas em muito se assemelha ao do patriarca da empresa familiar.

Como inserir os membros da família na atividade da empresa? Como conciliar a necessária formação de sucessores para a perenidade do negócio, frente ao excesso ou ausência de pretendentes? Como conciliar os elementos racionais dessa decisão com os elementos emocionais, decorrentes do relacionamento familiar?

Estas são decisões delicadas, a respeito de pessoas com as quais temos um forte vínculo emocional. Como impedir que a emoção ofusque a razão? Ou será possível conciliar ambas em uma assertiva e fecunda decisão para a gestão da empresa?

Em primeiro lugar, é preciso saber compor o material para que o conjunto tenha um acabamento perfeito. Para tanto, é essencial verificar quais são as necessidades da Empresa Familiar. A fim de garantir o sucesso desta, deve-se avaliar o desempenho de sua equipe, recompensando e mantendo os melhores e desestimulando as insuficiências e mediocridades. Somente desta forma garante-se uma equipe de qualidade que proporcionará a continuidade da empresa a longo prazo.

Outro ponto importante é averiguar a real necessidade de novas contratações, antes de inserir os membros da família na empresa. E, da mesma forma, examinar cuidadosamente se estes familiares possuem as capacidades necessárias para bem exercerem seus papéis.

O membro que acumula funções deve ser reconhecido e recompensado por isto. Por mais que um pai veja e ame os filhos da mesma forma, se eles trabalham com diferentes responsabilidades, sua remuneração não pode ser equiparada.

Outras dúvidas ainda podem se somar a estas, tais como, se as normas criadas para atender os familiares diretos devem também servir para os familiares por afinidade (genro, cunhado, etc.). E, futuramente, se é necessária a criação de normas diferenciadas para duas ou mais gerações (pais, filhos, netos). É recomendável que as regras sejam diferentes. Mas como formalizar tudo isto?

Como as Moiras da mitologia grega, que fiavam o destino de deuses e humanos, a família deve se unir e tecer estas e muitas outras regras em um documento chamado Protocolo Familiar, o qual irá organizar e planejar aspectos que proporcionem boas soluções para o presente e futuro da empresa e, consequentemente, de toda a família.

As Moiras sempre foram respeitadas por todos os mortais e mesmo pelos deuses, pois se acreditava que caso um deus se atrevesse a transgredir suas leis, este perturbava a harmonia cósmica. Os estudiosos dizem que este mito justificava a necessidade de fortalecer o caráter e individualidade, porque quando as três irmãs (Moiras) determinavam o destino de um indivíduo, cabia a este enfrentar e aceitá-lo como meio de desenvolver o seu caráter. De outro modo, ele estaria a enfraquecer o seu espírito.

Da mesma forma, almeja-se que as linhas traçadas no Protocolo Familiar sejam regras que mantenham o equilíbrio da empresa Familiar e que fortaleçam o caráter e individualidade de seus membros.

*Nereu Domingues é advogado e contador, fundador do escritório Domingues Sociedade de Advogados, especializado na gestão jurídica do patrimônio familiar, com atuação nas áreas do direito Societário, Tributário, Fusões e Aquisições, Família e Sucessões. Mestrando em Soluções Alternativas de Controvérsias Empresariais

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