Finanças verdes e sustentáveis não são modismo, são oportunidades que o Brasil deve aproveitar

Ana Maria Borro, Marcio Gama, Jorge Gildi, Morgan Doyle e Maria Netto*

09 de abril de 2021 | 03h00

Na contramão (ou talvez como efeito) do momento desafiador que caracteriza as economias globais, crescem o interesse e o espaço para um filão particular no mercado financeiro mundial: os títulos de dívida temáticos, sobretudo os sustentáveis – ou sustainaible bonds.

Segundo cálculos da consultoria BloombergNEF, o volume de emissões de títulos de dívida ligados a princípios sustentáveis cresceu 29% em 2020, pleno ano de pandemia, somando US$ 732 bilhões. Por aqui, embora o mercado brasileiro ainda seja uma pequena fração do global, o salto foi ainda mais expressivo: passamos de US$ 2,2 bilhões para US$ 5,3 bilhões nas emissões acumuladas, um salto de 140%, segundo a consultoria Sitawi Finanças do Bem.

Trata-se de um segmento que, mesmo com a persistência da pandemia neste ano, deve manter trajetória de rápida expansão, de acordo com os principais atores dos mercados globais.

Para o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), envolvido em 30% das emissões de títulos temáticos na América Latina e Caribe, e para o Banco do Brasil, que concluiu recentemente os preparativos para estreia no mercado de dívidas com viés sustentável, não se trata de modismo, mas de uma tendência sólida que traz oportunidades valiosas que o Brasil não pode deixar escapar.

Um exemplo concreto se dá no agronegócio, pivô da balança comercial brasileira e um dos focos definidos pelo BB como ativos elegíveis para lastrear suas futuras emissões de títulos temáticos. Se por um lado o setor é alvo de pressões internacionais por conta de questões ambientais, é verdade também que cada vez maiores parcelas da agricultura brasileira aderem às boas práticas de preservação e promovem o reflorestamento e a biodiversidade.

Por meio da avaliação estruturada de práticas de sustentabilidade e do rigor trazido pela metodologia que embasa os títulos sustentáveis, é possível justamente identificar quem são esses bons atores e, assim, atrair recursos de investidores ambiental e socialmente comprometidos – que representam, felizmente, uma parcela cada vez maior no mercado financeiro.

Falamos de recursos amplamente disponíveis nas gestoras globais – ou traduzindo para o jargão do mercado, “liquidez”, mas cujo acesso não depende apenas da oferta de retornos financeiros positivos. De modo acertado, cada vez mais, os investidores olham também para o histórico da instituição para onde vão seus recursos, seu compromisso com a sustentabilidade, sua gestão corporativa e sua responsabilidade socioambiental – princípios de ESG, na sigla em inglês, ou ASG, no mercado local.

Além dos títulos sustentáveis, o leque de opções das finanças sustentáveis inclui ainda nomenclaturas como títulos verdes (um pouco mais conhecidos no mercado nacional) e títulos sociais. Há ainda os Sustainability Linked Bonds e Sustainability Linked Loans (títulos e empréstimos ligados à sustentabilidade), nos quais os papéis não estão vinculados a ativos específicos, mas financiam, por exemplo, projetos de uma instituição que se comprometa a reduzir o consumo de energia não-renovável e performance de carteira sustentável.

Toda essa diversificação de rótulos em um mercado ainda em desenvolvimento pode confundir os investidores. Por isso, tornar públicos os preparativos e as operações desse tipo não é apenas jogada de marketing, mas representa um esforço didático e de estímulo a um mercado que, apesar dos benefícios claros e do potencial represado, não se desenvolverá sozinho – ou ao menos não com a velocidade que precisamos.

Segundo a Organização das Nações Unidas, serão necessários entre US$ 5 e 7 trilhões por ano até 2030 – dos quais 2,5 trilhões em economias em desenvolvimento – para que o mundo alcance as metas estipuladas nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e no Acordo do Clima de Paris.

São recursos que, no Brasil por exemplo, poderão auxiliar a suprir lacunas em áreas como saneamento básico, energia renovável, transporte público ou agricultura sustentável. E, mais do que isso, é capital disponível entre investidores comprometidos a contribuir cada vez mais para um mundo mais justo, resiliente e sustentável e que fará a diferença na vida dos brasileiros.

*Ana Maria, Marcio e Jorge lideram os esforços de sustentabilidade no Banco do Brasil; Maria Netto e Morgan Doyle, representante do Grupo BID no Brasil, conduzem essa agenda no BID

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