Filosofia e liderança na Sociedade 4.0

É preciso entender que a Filosofia, como mãe de todas as ciências, se faz no diálogo inter e transdisciplinar, na conversa com outras áreas do saber

Antonio Djalma Braga Junior*

13 de novembro de 2019 | 08h00

O que um filósofo pode ensinar sobre liderança na atualidade? Em tempos obscuros, quando a Filosofia tem perdido espaço nos mais variados ambientes escolares, podemos nos surpreender com a importância e o destaque que ela vem ganhando no mundo dos negócios.

Vivemos um cenário no qual a Inteligência Artificial, a Internet das Coisas, a robotização e a automatização provocarão a extinção de muitas profissões, ao mesmo tempo que abrirá um leque imenso de novas oportunidades no mercado de trabalho. Ser um líder/gestor a partir dessas mudanças de paradigmas exigirá uma série de competências e habilidades específicas que serão fundamentais para se obter sucesso na Sociedade 4.0.

É por isso que a Filosofia vai desempenhar um papel central na reconfiguração dessa nova sociedade, pois ela é a ciência humana que melhor poderá auxiliar no processo de desenvolvimento de competências que são essenciais para as relações sociais e profissionais do futuro. Ao menos é isso que o relatório do Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum – WEF) propõe em seu “The Future of Jobs Report” (Relatório Futuro das Profissões), de 2018, que destaca as competências necessárias que as pessoas deverão possuir para se manter no topo da excelência em seus empreendimentos. São elas: pensamento crítico; capacidade de resolver problemas complexos; inteligência socioemocional; capacidade de entender, ensinar, liderar e influenciar pessoas; dentre outras.

Sabemos que o ato de filosofar é uma prerrogativa para o desenvolvimento dessas competências, mas, como fazer isso com líderes que não são filósofos – ao contrário, são administradores, diretores, coordenadores, pais de família, influenciadores em seus círculos sociais, condomínios, empresas, etc.? É preciso entender que a Filosofia, como mãe de todas as ciências, se faz no diálogo inter e transdisciplinar, na conversa com outras áreas do saber, como as engenharias, as ciências de tecnologias da informação, as áreas biológicas, médicas, jurídicas, ambientais.

O desenvolvimento dessas competências é possível não apenas pela aquisição cognitiva de conhecimentos meramente teóricos (leitura de textos de filosofia), mas sim a partir da criação de oportunidades de experiências e vivências reais que levem os líderes em formação a se conectar com o seu próprio eu; com os que convivem na empresa, na família, nos círculos sociais); com o meio; e com uma dimensão que está além dessas experiências do mundo físico, que leva-nos à uma conexão com o Cosmos, com a Natureza, ou um Arché, algo que se possa chamar de Outro, porque está fora de nós, não se confunde conosco mesmos, mas do qual fazemos parte. Para utilizarmos uma linguagem estoica: um “Todo” organizado do qual o “eu” faz parte.

Com questionamentos e experiências filosóficas desse tipo é possível estabelecer um processo formativo de competências fundamentais para a atuação desse líder do futuro, competências essas que deve dar conta não apenas de um sucesso do ponto de vista financeiro e produtivo, mas um sucesso perfeitamente possível do ponto de vista de alcançar uma felicidade real e duradoura por meio de uma mudança de paradigma em nosso modelo de gestão/liderança.

*Antonio Djalma Braga Junior, filósofo e historiador. Doutor em Filosofia pela UFPR. Professor, palestrante, escritor, consultor e coordenador do curso de pós-graduação Lato Sensu Leadership and Self-knowledge Program da Universidade Positivo.

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