Filosofia Contemporânea e a epidemia da loucura

Filosofia Contemporânea e a epidemia da loucura

Antoine Abed*

18 de outubro de 2020 | 06h00

Antoine Abed. FOTO: DIVULGAÇÃO

Não é somente por meio dos filósofos antigos que se pode dar a devida importância para o entendimento da realidade que nos envolve. Os filósofos contemporâneos também têm contribuído para o esclarecimento de situações que não temos a necessária atenção e preparo para compreensão – o que é vital para não ficarmos alheios aos acontecimentos.

Bernard-Henri Lévy é um desses grandes nomes da Filosofia Contemporânea que, atualmente, se dedica a nos alertar sobre o medo excessivo que desenvolvemos perante o novo vírus. Para ele, a pandemia provocou um “super medo” que está sendo excessivo em um mundo em que existem doenças terríveis e incuráveis como o cancro, que provocam mais mortes. Um pânico que coloca em xeque a própria democracia.

Mas o que a democracia tem a ver com o medo excessivo das pessoas?

A palavra democracia não pode ser considerada de fácil definição, porém, a mais usada, é quando se limita a dizer que é um sistema político em que todos os cidadãos elegíveis participam igualmente, diretamente ou por meio de representantes eleitos no desenvolvimento e na criação de leis, exercendo o poder da governabilidade através do sufrágio universal. A palavra democracia constantemente aparece em discursos políticos: as pessoas gostam de ouvir “atitude democrática” ou medidas para “defender” a democracia. Sendo assim, podemos compreender, também, como uma forma de comportamento em que a convivência democrática ajuda uma sociedade a respeitar todos que dela participam.

Voltando para a pandemia, Bernard-Henri constata que a maneira equivocada que tratamos o novo vírus dissemina ainda mais o pânico por toda a sociedade. Sobre o distanciamento social, diz que isso não é bom, pois, em suas palavras: “Um dos principais objetivos da democracia é reduzir o distanciamento social, o distanciamento entre as classes, o distanciamento entre os poderosos e os humildes, entre os governantes e os governados’’.

Ainda sobre o distanciamento social, afirmou que: “Havia qualquer coisa nova nessa maneira de o defender ou de o aceitar sem crítica”, relatou ele que teve um “pressentimento” sobre o tema quando ouviu o médico americano Anthony Fauci, responsável pela estratégia americana durante a pandemia, que nunca mais iríamos apertar a mão um dos outros.

Já escrevi sobre esse assunto e continuo alertando para o perigo das medidas autoritárias que são justificadas como necessárias para nos defender de um suposto inimigo. Parece que as liberdades individuais ficaram em segundo plano e a vontade impositiva de terceiros dominam nossas vidas. A tarefa de se indignar contra a diminuição das liberdades deveria ser de todos, porém não é o que vemos, principalmente na grande mídia. Nesse sentido, Bernard-Henri salienta a “tendência perigosa” que nos leva a habituarmo-nos a “ausência de liberdade” e também “a ideia de que o outro é um potencial inimigo” e, que por isso, “devemos nos afastar dos outros”.

Em suas palavras: “Ser humano não é confinar-se para olhar para dentro de si, mas sair de si próprio e aproximar-se dos outros”.

A ideia de separar, dividir ou isolar uma sociedade nunca pode ser encarada como benéfica se não a usarmos como um subterfúgio para o aumento da própria liberdade. Explico melhor: se precisarmos de tempo para construir hospitais e infraestrutura em determinada cidade, podemos sim, abrir mão de nossas liberdades por um curto período de tempo, pois isso nos dará maior liberdade e segurança. Porém, o lockdown por puro e simples isolamento, sem nenhuma medida que contribua com a liberdade, é muito perigosa e inaceitável em uma democracia.

Um exemplo claro de como uma sociedade pode sofrer com a escassez de um comportamento democrático foi o apartheid ocorrido na África do Sul, onde a convivência democrática foi reduzida e, mesmo depois de décadas do seu fim, sequelas de uma sociedade fragmentada ainda estão evidentes.

De maneira geral, o respeito ao novo vírus deve ser contínuo, porém, não podemos tratar essa doença como algo mais mortal do que ele realmente é, pois existem outras dezenas de doenças sem cura que causam mais dano do que o novo vírus. Esse medo irracional que estamos observando não contribui para uma sociedade livre e dinâmica que sempre almejamos. A democracia em todos os seus sentidos está sob ataque e devemos ficar atentos para que nossas liberdades não sejam diminuídas, ou corremos o perigo de nos tornarmos uma sociedade egoísta e segregada.

*Antoine Abed é presidente-fundador do Instituto Dignidade e autor da obra Ensaio Sobre a Crise da Felicidade

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