Filosofar: aprender a viver

Filosofar: aprender a viver

José Renato Nalini*

21 de novembro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

A tradição platônica, retomada por Montaigne, afirma que filosofar é aprender a morrer. Para Pierre Hadot (1922-1984), cujo centenário de nascimento será celebrado em 22 de fevereiro próximo, filosofar é aprender a viver.

Isso se faz mediante a superação do eu tendencioso e fragmentário, para tentar observar o mundo do alto, numa perspectiva universal. Quem se propõe a estudar algo, a conhecer um assunto, deve se despojar de sua subjetividade. Isso é válido para a prática da democracia, que pouquíssimas pessoas sabem exercitar no Brasil. Alguém interessado em gerir a coisa pública deveria se desfazer da parcialidade do eu individual e apaixonado para chegar à universalidade do eu racional. E de racionalidade, pouco ou nada existe na política rasteira praticada pela imensa maioria dos profissionais dessa arte.

Hadot ensina que a maneira filosófica de viver é simplesmente o comportamento do filósofo na vida cotidiana. Menciona o exemplo de Quinto Múcio Cévola, um estoico romano da época republicana, que governou a província da Ásia. Considerava ponto de honra pagar sua estada na Ásia com seus próprios recursos e obrigar as pessoas de seu círculo a fazer o mesmo. Pôs fim aos excessos dos coletores de impostos romanos.

Os estoicos dessa família dos Cévolas foram os únicos a aplicar a si mesmos as leis decretadas contra o luxo. Eram austeros na vida cotidiana e se impunham rigor moral inexistente nas outras famílias.

Como se alteraram os costumes e como faz falta uma família Cévola na política tupiniquim. Quem se poderia considerar estoico em nossos dias?

Não há o menor interesse por filosofia, nem estoica, nem epicurista, menos ainda platônica ou aristotélica. A atitude platônica, enquanto Platão vivia, admitia uma tríplice vertente: a preocupação em exercer influência política, mas orientada conforme o ideal platônico. Segundo, a tradição socrática, ou seja, a intenção de discutir, de apresentar o ensino conforme o método das perguntas e respostas. E terceiro, havia o intelectualismo, pois o essencial do platonismo era o movimento de separação entre alma e corpo. Os neoplatônicos prosseguiram nessa linha: a vida era alicerçada sobre o pensamento, uma vida para o espírito, não para os interesses materiais.

A tradição aristotélica reclamava uma vida de pesquisas, dedicada aos estudos, além das ciências naturais, da matemática, história e geografia. Um modo de vida teorético, de forma a contemplar tudo o que existe, mas à luz do Primeiro Motor do universo: Deus. Os aristotélicos nos legaram a ideia importante de uma ciência que deve ser conhecida sem qualquer interesse imediato. Os objetivos materiais não estão em jogo. É o prazer do estudo pelo estudo, da pesquisa pela pesquisa.

Os epicuristas viviam algo que é inimaginável em nossos dias: a ascese. Desvinculação de tudo o que é sensual, para obter a tranquilidade da alma. Limitação dos próprios desejos para alcançar a felicidade.

Reconheciam a existência de desejos naturais e necessários, como beber, comer e dormir, dos desejos naturais e não necessários – segundo eles – o desejo sexual. Mas também havia desejos não naturais e não necessários, que foram exatamente aqueles que permaneceram na maior parte dos políticos profissionais brasileiros: a obtenção de glória, fama e riqueza.

Os epicuristas, em princípio, abominavam a política. Eram frugais na alimentação. Gostavam de refeições singelas, mas entre amigos. A amizade é muito importante no epicurismo. Na verdade, eles se propunham a usufruir da simples alegria de existir.

Os filósofos antigos, em regra, não cultuavam o lucro, que, segundo eles, é a ambição que pouco a pouco – agora mais rapidamente do que na antiguidade – destrói a humanidade. Pensar que o estoicismo exige de cada ser humano lealdade, transparência e desinteresse absolutos, é admitir que o estoicismo não tem vez neste Século 21, ao menos na modalidade político-partidária que se pratica nesta Ilha de Vera Cruz.

A leitura dos filósofos antigos é um exercício que só pode fazer bem às consciências atormentadas, aparentemente impotentes, diante das desgraças que afligem a humanidade. Por isso é que a filosofia, ensina Pierre Hadot, não é treino para a morte, no sentido que se possa extrair da literalidade de tal afirmação. É, na verdade, um exercício de vida espiritual ou intelectual, vida do pensamento. Encontrar algo que alimente nosso espírito, para além do conhecimento sensível. Algo que os afoitos em amealhar dinheiro e a conquistar poder e fama, não conseguem sequer conceber.

Faz falta filosofar, maneira singular e sedutora de realmente aprender a viver.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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