Filhos ou trabalho – uma dessas falácias da falsa dicotomia

Filhos ou trabalho – uma dessas falácias da falsa dicotomia

Tânia Savaget*

23 de agosto de 2020 | 08h00

Ah, essas ambiguidades de mentirinha. Andam saindo muito nos últimos tempos. Saúde ou Economia é uma das mais quentes. Por trás dessa falácia – de todas, na verdade – existe a intenção de fazer a gente acreditar que as duas alternativas apresentadas são as únicas possíveis em relação a uma questão. A ideia é fazer as pessoas escolherem a alternativa que achamos favorável e descartar a outra.

Crescer ou desenvolver. Essa dupla está em alta nas conversas sobre o modelo econômico que estamos praticando e que nos trouxe até aqui. O planeta parece que não vai dar conta dessa nossa escolha pelo crescimento. Digamos que não há desenvolvimento sem algum tipo de crescimento, mas é bom lembrar que o crescimento, em si, não traz a certeza de desenvolvimento. Países que crescem nem sempre se desenvolvem. Empresas que crescem nem sempre se desenvolvem.

Mas a falsa dicotomia aqui é outra: filhos ou trabalho. Como mãe de três filhas entendo o peso que é pensar nisso como uma escolha. Não é, ou não deveria ser. Recebi de uma amiga uma frase de autor desconhecido: “Filhos não são uma distração que nos impede de fazer um trabalho importante. Eles são o trabalho importante”. Para mim são o trabalho mais importante, mas não o único. Escolhi trabalhar e ter filhos.

Tânia Savaget. Foto: Acervo pessoal

Por que pensei nisso tudo para escrever um artigo sobre a relação entre pais e filhos nesse momento que, para alguns, casa e trabalho se aproximaram tanto? Explico.

Tenho muitos amigos que acreditam que empresas precisam crescer para se desenvolver e se dedicaram a fazer muitas empresas crescerem. Alguns deles abriram mão de ver seus filhos crescerem por conta dessa dedicação. Ouvi de muitos deles que era preciso fazer umas coisas primeiro e outras depois. Primeiro o trabalho, primeiro a carreira, primeiro acumular patrimônio. Depois as férias, depois os hobbies, depois os outros interesses para além do trabalho. O problema é que, diferente das empresas, filhos crescem mesmo que a gente não dê atenção para eles. Mas se desenvolvem de um jeito muito mais saudável quando damos atenção, apoio, amor para eles.

De alguma forma muitos pais ficaram aprisionados nesse lugar de provedor. O psicanalista e escritor Christian Dunker, em um artigo, diz que “Fazer com que pais sejam mais do que provedores estoicos é um desafio cultural, religioso e psíquico — mas está na ordem do dia e precisa acontecer”. Apesar de entender que mudar essa visão é um processo lento e gradual ele vê sinais de mudança de papel já acontecendo. Ele se diz otimista. Eu também.

O momento de isolamento social – para os privilegiados que conseguiram trabalhar no modelo de home office – acabou aproximando os universos da casa e do trabalho, algo que poucos pais e filhos vivenciavam no dia-a-dia daquele antigo (a)normal que a gente seguia automaticamente. Nessa aproximação refeições voltaram a ser compartilhadas, tarefas domésticas passaram a ser divididas, rotinas passaram a ser percebidas. Filhos puderam entender mais sobre o que os pais fazem, pais puderam acompanhar mais de perto os desafios escolares e universitários. E entre algumas brigas, tensões, lavagens intermináveis de louça surgiram alguns rituais perdidos e muito preciosos. Assistir um filme juntos, jogar jogos de tabuleiro, ver fotos antigas, caçar Pokemons.

Filhos ou trabalho. Filhos e trabalho. Não são excludentes. É junto e misturado porque não tem depois. Tipo crescer e desenvolver. Os grandes – raros – estadistas acreditaram e investiram em projetos que juntam crescimento econômico com desenvolvimento humano. Eles sabiam que para dar certo precisavam fazer movimentos simultâneos.

Com filhos e trabalho, por mais que seja desafiador em muitos momentos, é melhor quando é assim também: sincrônico. Filhos crescem rapidamente, mas precisam de amor para se desenvolver. Aliás, amor também é bom para empresas. Desenvolver as pessoas que fazem parte do nosso trabalho transforma empresas em lugares mais saudáveis e felizes. Parece que temos uma oportunidade de nos reinventar como pais, filhos, executivos, empreendedores. E temos essa capacidade infinita de experimentar, fazer, desenhar coisas novas. Por que não sonhar com novos e muitos caminhos para a paternidade?

*Tânia Savaget é sócia da Wsinet Consulting

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