Filho de ex-presidente da Transpetro deu caminho da propina do PMDB

Filho de ex-presidente da Transpetro deu caminho da propina do PMDB

Expedito Machado, que cuidava de contas secretas no exterior do pai, Sérgio Machado, apontou à força-tarefa da Lava Jato nomes de offshores e trusts abastecidos por empreiteiras; dados devem levar investigadores a pagamentos de corrupção para políticos da cúpula do partido

Julia Affonso, Ricardo Brandt, Gustavo Aguiar e Isadora Peron

16 de junho de 2016 | 13h09

DELAÇÃO EXPEDITO CABEÇAExpedido Machado da Ponte Neto, filho do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, entregou aos investigadores da Operação Lava Jato os detalhes de contas no exterior que foram abastecidas com a propina paga por empresas para o esquema do PMDB – que teria rendido entre 2003 e 2013 mais de R$ 100 milhões.

Did, como é conhecido Expedito, controlou as contas da propina do pai de 2007 a 2013. Nelas, afirmou ter atingido os R$ 73 milhões guardados com os repasses de empresas contratadas pela Transpetro, entre elas a Camargo Corrêa, UTC e a Queiroz Galvão. O acordo de delação do filho foi parte do acordo para que o homem-bomba do PMDB falasse.

Sérgio Machado, que teve sua delação homologada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), começou a ser investigado pela Lava Jato, em Curitiba, em 2014. Sob risco de ser preso junto com o filho, Machado decidiu entregar o que sabia e documentos para ajudar a Lava Jato a rastrear a propina do PMDB que foi desviada da Transpetro.

Investigadores da Lava Jato acreditam que os registros de depósitos que abasteceram essas contas e também os registros de saídas, com ajuda de cooperação internacional com a Suíça, levarão a dados sobre representantes e offshores ligadas aos políticos do PMDB e de outros partidos citados na corrupção da Transpetro –  como o ex-presidente do PSDB Sérgio Guerra (morto em 2014).

Trust. O filho do delator-bomba do PMDB afirmou ter usado em duas ocasiões contas de trusts – mesmo tipo de conta usada pelo presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e que ele nega ser dono – para guardar e movimentar a propina desviada da Transpetro. Uma delas é a Tartufo, primeira a ser integralmente controlada por ele, aberta no HSBC, em Zurique, na Suíça.

DELAÇÃO EXPEDIDO TRECHO SOBRE TRUST TARTUFO

Did narra ainda que em 2012, criou uma nova trust, a Mattherhorn, no banco Julius Baer. “O valot total de propina recebido no HSBC equivalia à época ao montante de R$ 72,9 milhões”, declarou o filho de Machado, ouvido no dia 10 de maio, pela Procuradoria-Geral da República. “Referida quantia representava pagamentos recebidos das empresas Queiróz Galvão, Camargo Corrêa, NM Engenharia, Galvão Engenharia, Devaran Internacional, Irodotos Navigation a títulos de vantagens ilícitas que somaram R$ 44,7 milhões.” Did afirmou que nessa conta também estava incluso “pagamentos recebidos da HR Financial Services refentes a acordos que totalizaram R$ 28 milhões”, uma empresa ligada ao grupo dono da Avianca, German Eframovich.

DELAÇÃO EXPEDITO TRUST MATTHERHORN

Mais de 20 nomes de políticos foram entregues por Machado em sua delação premiada com a PGR, em busca de uma redução de pena. Nos 11 anos que comandou a Transpetro, ele diz que repassou mais de R$ 100 milhões para membros do partido, principalmente para o presidente do Senado, Renan Calheiros (R$ 32 milhões), o presidente do partido Romero Jucá (R$ 21 milhões), o ex-presidente da República José Sarney (R$ 18 milhões), entre outros. Repasses em dinheiro em espécie, transferências a interpostos e doações eleitorais.

DELAÇÃO EXPEDITO SOBRE REGISTRO DEPOSITOS

Did indicou quem eram os funcionários das empreiteiras indicados pelo pai para tratar das transferências das propinas para o exterior. No caso da Camargo Corrêa, por exemplo, ele indicou o nome de Pietro Bianchi como responsável pelas tratativas e a empresa Desarrollo Lanzarote SA, como caminho do dinheiro.

DELAÇÃO EXPEDIDO DADOS QUEIROZ PROPINA

No caso dos pagamentos da Queiroz Galvão, ele afirmou que eram feitos por diversas origens e que perdeu o registro de identificação exato de quais depósitos estão relacionados a ela. Mesmo assim, com base nos nomes de empresas que fizeram depósitos listou alguns que podem ser relacionadas à empreiteira.

DELAÇÃO EXPEDIDO DADOS QUEIROZ PROPINAS

Ocultação. Expedito Machado contou ainda que no final de 2014, quando a Lava Jato já investigava o pai por envolvimento no esquema de corrupção na Petrobrás, encerrou as contas e abriu uma terceira conta de trust, de nome Glacier. Esse fundo de investimento (trust) teve duas contas abertas em dezembro daquele ano, no banco PICTET, nas Ilhas Bahamas, e uma conta no banco UBS, na Alemanha.

Esses seriam valores da propina de Machado. O delator assumiu no acordo a devolução de R$ 74 milhões que ele teria recebido de propinas na Transpetro. Segundo seus termos, ele tirava, em média, R$ 2 milhões por ano em propinas.

DELAÇÃO EXPEDIDO TRUST GLACIER

Início. Segundo Sérgio Machado, a abertura das contas no exterior começou com o acerto de propinas com as empreiteiras Camargo Corrêa e Queiroz Galvão, que haviam formado o Estaleiro Atlântico Sul (EAS), contratado para construir dez navios. Os contratos era parte do pacote de nacionalização das construções de navios e embarcações para a Petrobrás, promessa de campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – batizado de Promef (Programa de Modernização e Expansão da Frota).

“A Queiróz Galvão e a Camargo Corrêa pediram que abrisse uma conta no exterior. Como nunca tinha tido conta no exterior nem offshore procurou seu filho Expedito”, declarou Machado. O filho Expedito confirma a história, em sua delação, e diz que seu irmão Sérgio Firmeza Machado foi incluído no negócio, sem conhecimento de que os valores eram fruto de corrupção.

Em um de seus depoimentos, o ex-Transpetro relatou que o pagamento de vantagens ilícitas não se dava em virtude de medições, mas era deduzido da margem de lucro das empresas, ‘sempre respeitando o orçamento técnico da Transpetro’. Sérgio Machado declarou que buscava os valores nas empresas selecionadas à medida que fazia os acertos com políticos em Brasília.

Para investigadores da Lava Jato, a versão contada por Machado e pelos filhos de que os pagamentos não estavam relacionados a sobrepreço e fraudes nos contratos, mas sim tirado da margem de lucro das contratadas, é questionável. Nos contratos da Petrobrás em obras de construção e reformas de refinarias, perícias da Polícia Federal apontam que os valores do chamado “custo político” eram embutidos nos orçamentos dos projetos apresentados em licitações, elevando os custos das contratações públicas.

DELAÇÃO EXPEDITO INICIO CONTAS

De pai para filho. Expedito e Sérgio Machado são muito próximos. O caçula é o único que se interessa por política. O planejamento de pai e filho era que em algum momento Expedito fosse candidato a deputado federal enquanto Sérgio Machado concorreria a governador.

Machado havia concorrido ao governo do Ceará em 2002. Expedito, então com 18 anos, participou intensamente da campanha. O governo do Ceará era o grande sonho do ex-presidente da Transpetro.

Em um de seus depoimentos à Procuradoria-Geral da República, Sérgio Machado contou que tinha ‘um trauma muito grande da última eleição de governador, porque não pôde competir por falta de recursos’. Viu, então, em uma licitação a ‘oportunidade de nesta primeira parcela criar uma reserva para garantir que pudesse posteriormente ter recursos pra voltar a disputar em 2010’.

O ex-presidente da Transpetro afirma que nunca teve ‘qualquer contato com instituição financeira no exterior’. Entre 2007 a 2013, Expedito ‘recebeu recursos no exterior’ relacionados as atividades do pai, contou também em sua delação premiada. Did era o encarregado de atualizar Sérgio Machado sobre os saldos de recebimentos do exterior. Ele também passou a cuidar das entregas em espécie para políticos, a partir de 2007. Parar isso, destacava “um amigo de faculdade” já apresentado para a Lava Jato. Era ele quem retirava os valores pagos pelas empresas e fazia as entregas para os interpostos de políticos.

 

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