Filas do auxílio emergencial retratam abolição inconclusa

Filas do auxílio emergencial retratam abolição inconclusa

Mônica Francisco*

13 de maio de 2020 | 07h30

Mônica Francisco. Imagens: Ascom / Mônica Francisco

Tereza contava para as filhas como era a infância dela, em Campos. Nunca soube a idade certa que tinha. A certidão foi arranjada quando casou, com uma data que a mãe de Tereza dizia, mas a mãe de Tereza ora falava uma coisa, ora outra, confusa com a própria história, confusão natural de quem nasceu escrava. Tereza nasceu livre, mas não totalmente livre: sem perspectiva, trabalhava nos canaviais.

Lembra que, menina, a comida era pouca. Os livros nenhum. Quase não tinha comida, imagina ter livros, estes eram para privilegiados como a maioria das coisas. Morava nas terras dos patrões, que tinham sido os donos da mãe. Tereza saiu de lá. Teve as filhas, que foram domésticas. Uma chegou a trabalhar para um bisneto dos donos da terra, senhores de engenho.

Não há o que comemorar. Há o que lembrar, toda vez que se fala em abolição da escravidão e da princesa que a história registrou com redentora dos negros.

É necessário lembrar como se construiu esse país chamado Brasil. Como se formaram as riquezas fundamentadas no trabalho forçado, escravizado, não remunerado, com torturas, abuso e violências. Lembramos do Brasil, mas assim é a história de grande parte do mundo.

Mas, por aqui, nesse Brasil de dimensões continentais, foram mais de 400 anos de crimes sucessivos contra povos sequestrados, contra africanos retirados de suas terras.

Não há como, numa data como a de hoje (13 de maio), esquecer que a riqueza acumulada e desigual, riquezas que fazem a manutenção de famílias e pessoas nas estruturas racistas e iníquas do poder econômico e político onde o Brasil está fundamentado. Não há nenhum lugar nesse país que não tenha sangue e lágrimas no chão. E esse sangue clama do chão.

Felizberto vive entre as duas maiores cidades do país. É o herdeiro de um negócio milionário com cana de açúcar, no interior do Rio. Filho de família tradicional, daqueles que a cidade toda sabe quem é. Foi alfabetizado em dois idiomas, passa uma parte do ano na Europa. É contra políticas de reparação para negros. Diz que todas as pessoas são iguais, e que para ter basta se esforçar.

Ele só fala dos esforços que os demais precisam fazer. No entanto, Felizberto não sabe o significado real da palavra que usa tão amplamente, “esforço”, porque ele nunca precisou fazer nenhum. Nasceu com a vida sedimentada sobre o sangue de muitas pessoas que foram arrancadas da sua gente, da sua pátria e escravizadas para garantir a fama e fortuna de muitas gerações de famílias como a sua.

Felizberto é de uma geração de privilegiados capaz de zombar das milhares de pessoas que estão nas filas da Caixa e defender que essas mesmas pessoas voltem à suas atividades precarizadas, especialmente para manter famílias como a sua mais ricas ainda, não importando se os trabalhadores vão ficar doentes e morrer. Para Felizberto, não há relação entre aquelas filas e como a história do Brasil foi construída.

Contundo, Felizberto, há uma relação intrínseca entre a abolição inconclusa quando pessoas foram jogadas na rua à própria sorte, sem qualquer reparação, e aquelas que estão abandonadas nas longas filas da Caixa para receber um direito. Preste atenção, repare que são na maioria negras e negros. Faça uma pesquisa rápida para ter certeza que são os mesmos que vivem nas periferias e favelas sem qualquer política pública, a não ser a de violência do estado.

A data de hoje não é para ser comemorada. É somente mais um dia para não esquecer a exploração do trabalho escravo.

*Mônica Francisco é presidente da Comissão do Trabalho da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, cientista social e deputada estadual pelo PSOL

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