Fiagro: apoiar a porteira abre portas

Fiagro: apoiar a porteira abre portas

Luiz Augusto Ferreira Magalhães e Mathias Schneid Tessmann*

30 de janeiro de 2021 | 11h30

Luiz Augusto Ferreira Magalhães e Mathias Schneid Tessmann. FOTOS: DIVULGAÇÃO

Olhe ao seu redor, olhe pela janela de sua casa, pelo vidro de seu carro. Cada rosto, cada par de pernas inquietas e as demais particularidades de cada indivíduo. Logo, em uma ou duas gerações, no lugar hoje ocupado por apenas uma pessoa, haverão dez. Dez pessoas necessitando vestimentas, moradia, muita água, e alimentos. As tão sonhadas e desejadas melhorias tecnológicas não apenas trarão bonança, mas também estimularão o aumento no número de pessoas que ocuparão as terras hoje produtivas. Então logo, muitos sucumbirão à pobreza e à fome.

Essa é a famosa hipótese malthusiana, nomeada a partir do economista e filósofo britânico Thomas Malthus que viveu durante os séculos XVIII e XIX. Segundo ele, posto de forma resumida e simplificada, a produção mundial de alimentos cresceria de forma aritmética, enquanto que a população cresceria em proporções geométricas, ocasionando uma grave crise de abastecimento que forçaria a utilização de métodos de controle populacional em todo o mundo. Cenário não muito animador nem para o maior dos entusiastas.

Olhando pelo retrovisor, sabemos que o então futuro catastrófico previsto por Malthus não se concretizou. Lógicamente reconhecemos que ainda existe uma quantidade não negligenciável da população mundial em situações extremas, mas – definitivamente – são decorrentes de outros fatores não relacionados à produtividade agrícola. Pelo contrário, a capacidade de abastecimento alimentar se ampliou de forma a atender parte cada vez mais crescente das pessoas, isto é, cada vez menos pessoas estão sofrendo com a fome.

No Brasil, a produção agrícola cresceu de forma virtuosa ao longo das últimas décadas. Se voltarmos no tempo para a década de 1970, o país importava comida e dependíamos do êxito de países além das fronteiras para que pudéssmos nos abastecer. A partir de 1973, foi criada a Embrapa, que se dedicou a pesquisas de novas tecnologias que (entre muitas outras) viabilizassem a ocupação produtiva do cerrado. Sua criação aliada à liberalização dos mercados, abolição das licenças para exportação e importação de certos produtos agrícolas, além de outros importantes fatores organizacionais dos produtores, contribuiu para que hoje a região fosse responsável por cerca de 50% da produção de grãos do país.

O agronegócio, juntamente com outros poucos (como o de intermediações financeiras, por exemplo), foi o único setor do país que cresceu de forma expressiva e sustentada. Para continuar esse vigoroso e importante crescimento do setor, cada vez mais aqueles que se dedicam a essas atividades precisam de dinheiro para financiar a aquisição de maquinário novo que amplie seus estoques e para reposição, de sementes modernas, de defensivos e demais insumos de produção. No Brasil, os meios tradicionais de financiamento do setor estão majoritariamente concentrados em grandes bancos e cooperativas de crédito através de instrumentos financeiros mais tradicionais e engessados (como Letras de Crédito do Agronegócio e ações de empresas do setor listadas em bolsa de valores) que limitam o acesso dos investidores aos rendimentos advindos do mundo agro e, portanto, limitam também a quantidade de dinheiro à disposição do setor.

Ainda, dados os níveis baixos da taxa de juros referencial da economia brasileira para padrões históricos, as pessoas – sobretudo de baixa e média renda – precisam de alternativas que possam oferecer-lhes maiores rendimentos às suas poupanças, e nada melhor do que um setor com vigorosas taxas de crescimento anteriores e esperadas para propiciar isso.

Para atacar essa questão está sendo proposta a criação do Fundo de Investimento para o Setor Agropecuário, o apelidado de Fiagro, que foi aprovado na Câmara dos deputados em dezembro do ano passado e aguarda análise pelo Senado Federal. Com ele será possível que pessoas invistam em imóveis rurais, empresas rurais não listadas em bolsas de valores, participação em sociedades que explorem atividades integrantes da cadeia produtiva agroindustrial e outras aplicações hoje indisponíveis aos investidores. Assim, o Fiagro é uma via de mão dupla, em que investidores e produtores colaboram para o crescimento do setor e, por conseguinte, do país.

*Luiz Augusto Ferreira Magalhães, doutorando em Economia de Empresas pela Universidade Católica de Brasília e pesquisador visitante no Instituto de Pesquisa Economia Aplicada

*Mathias Schneid Tessmann, coordenador executivo da graduação em Economia e do MBE em mercados agrícolas, pesquisador e professor no IDP. Doutorando em Economia de Empresas com ênfase em Finanças pela Universidade Católica de Brasília

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