Fernando Baiano diz que repassava propina na Petrobrás para ‘operador’ do PMDB

Fernando Baiano diz que repassava propina na Petrobrás para ‘operador’ do PMDB

Lobista preso na Operação Lava Jato nega papel de operador do partido e afirma que entregou no Brasil cerca de R$ 25 milhões em espécie para ex-diretor de Abastecimento da estatal

Ricardo Brandt, Julia Affonso, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

11 Novembro 2015 | 20h47

Fernando Baiano prestou depoimento à Lava Jato. Foto: Reprodução

Fernando Baiano prestou depoimento à Lava Jato. Foto: Reprodução

O operador de propinas Fernando Antonio Falcão Soares, o Fernando Baiano, afirmou nesta quarta-feira, 10, à Justiça Federal que nunca foi operador de propinas do PMDB e que atuava em nome dos diretores das áreas de Internacional e Abastecimento da Petrobrás. Apesar de não citar o nome no começo, em um trecho do depoimento ele entrega que seria “Jorge”, uma referência a Jorge Luz, lobista que está na mira dos investigadores da Lava Jato.

“Na verdade eu nunca fui operador do PMDB, nunca operei para o partido nem para nenhum parlamentar do PMDB isoladamente”, afirmou Fernando Baiano ouvido na ação penal contra o presidente da empreiteira Andrade Gutierrez, Otávio Marques Azevedo, e outros executivos do grupo. Posteriormente, ele admitiu durante o depoimento que buscou apoio do suposto operador do PMDB para manter Paulo Roberto Costa na diretoria de Abastecimento quando este estava doente, em 2006, e indicou que seria “Jorge”.

O juiz Sérgio Moro deu ampla publicidade aos processos da Lava, inclusive com audiências filmadas. A defesa do lobista, porém, pediu a Moro que não deixasse mostrar o rosto do delator, alegando proteção à integridade de Baiano. O juiz consentiu e a câmera ficou fixa em um ponto do teto da sala de audiências.

VEJA O PRIMEIRO TRECHO DO DEPOIMENTO FERNANDO BAIANO AO JUIZ SÉRGIO MORO

“Nessa situação toda que envolve a Andrade Gutierrez, especificamente se eu operei para alguém, eu operei para Paulo Roberto Costa (ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás), que foi a pessoa que me pedia para receber dinheiro e me dizia que esse dinheiro vinha da Andrade Gutierrez.”

Baiano está preso de novembro de 2014, em Curitiba, pela Lava Jato. Em setembro, ele fechou acordo de delação com a Procuradoria Geral da República, no âmbito dos processos envolvendo pessoas com foro privilegiado, entre eles políticos com mandato. Ouvido pelo juiz Sérgio Moro, que conduz os processos em primeira instância, em Curitiba, ele confirmou o recebimento de propinas em contas secretas em nome de offshores, mas disse ser um intermediário do partido.

VEJA O SEGUNDO TRECHO DO DEPOIMENTO:

Baiano negou ter feito pagamentos diretos a políticos do PMDB – com exceção de um caso específico em apuração nos processos no Supremo Tribunal Federal (STF). “Os pagamentos que eu fiz sempre foram relativos a negócios na área de Internacional e nunca me relacionei com eles diretamente. Eram pedidos que vinham até mim através do diretor da área Internacional e eu sempre falei ‘não vou fazer pagamentos diretos’.”

Operador do PMDB. Fernando Baiano apontou que o PMDB elegeu um operador de propinas específico, que era o responsável pelos repasses a pessoas ligadas ao partido, para quem ele fazia repasses.

“Eles (agentes ligados ao PMDB) elegeram um operador que eu repassava o dinheiro para esse operador que repassava para eles. Têm declarações de políticos do PMDB que não me conhecem e nunca estiveram comigo e é verdade. Se eu estivesse estado com esses políticos eu não tinha nenhum problema em falar”, afirmou Fernando Baiano.

O TERCEIRO TRECHO DO DEPOIMENTO

Dinheiro em espécie. Um advogado perguntou a Baiano quanto Paulo Roberto Costa recebeu dele em espécie no Brasil. “Eu acredito que alguma coisa em torno de 20 a 25 milhões de reais nesse período, eu deva ter repassado isso para o Paulo.”

O advogado insistiu. “Não procede a afirmação dele (Paulo Roberto) de poucos milhões, abaixo de uma dezena.”
“Não é possível, não é possível”, respondeu Baiano.

Ao ser indagado sobre a formação do cartel de empreiteiras na Petrobrás, Fernando Baiano disse. “Sinceramente, esse termo cartelização que foi usado eu vim a conhecer a partir da Operação Lava Jato. Eu sei que as grandes empresas conversavam principalmente na formação de consórcios entre elas para participar das licitações da Petrobrás, inclusive eu sei que havia muita briga entre elas, brigas sérias por desentendimento. Cada uma querendo mais contratos do que a outra. Eu acho que talvez as que mais brigavam aí nessa confusão toda era a Andrade Gutierrez e a Odebrecht.. A Andrade Gutierrez, pelo que eu sei, eles achavam que para o tamanho da empresa tinham poucos contratos na Petrobrás. Na Odebrecht porque todo mundo dizia que era gulosa, queria tudo, eram arrogantes, passava por cima de todo mundo . Então, cartelização vim a conhecer mais a partir da Lava Jato.”
O juiz Sérgio Moro perguntou a Baiano. “O sr. intermediou propinas para o sr. Nestor Cerveró (ex-diretor de Internacional da Petrobrás)?”

“Sim”, respondeu o lobista.

“E para Renato Duque e Pedro Barusco?”, prosseguiu o juiz.

“Não , nunca. Não tinha relação com eles. O Barusco conheci numa festa. O Duque conjheci em um restaurante, depois da Operação Lava Jato.”