Férias e turismo acessível – quanto o Brasil perde quando não atende a todos?

Férias e turismo acessível – quanto o Brasil perde quando não atende a todos?

Mara Gabrilli*

22 de janeiro de 2020 | 10h00

FOTO: DIVULGAÇÃO

Quando pensamos em turismo, o Brasil é reconhecido não só pela riqueza da nossa biodiversidade, mas também pela diversidade do nosso povo, que abraça gente das mais variadas culturas e nações. Na teoria, somos um país disposto a acolher a todos, mas e na prática? Será que estamos de fato preparados para receber as diferenças? Em época de férias e verão essa reflexão é mais que oportuna.

Infelizmente, via de regra, nosso setor hoteleiro ainda despreza o público idoso e com deficiência. Tudo isso porque, além de não enxergarem o potencial turístico desse segmento, não associam o gasto com acessibilidade como um investimento, mas um prejuízo. Um erro crasso para quem gere qualquer negócio.

No Brasil, onde somamos mais de 45 milhões de pessoas com deficiência, uma pesquisa divulgada pela Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo, destacou a importância dos clientes com deficiência ao aquecerem o setor, inclusive em baixas temporadas. Trata-se de um público que viaja justamente quando os hotéis costumam ter ociosidade.

O público com deficiência também gera efeito multiplicador, pois raramente viajam sozinhos. Isso significa que o volume de negócio referente a esse público se duplica em relação aos outros segmentos. O mesmo vale para os idosos, que hoje representam cerca de 15% dos pacotes turísticos vendidos no Brasil para destinos nacionais e internacionais.

Vale dizer que este público pode e deve cobrar por acessibilidade, pois esta é uma garantia prevista na LBI, a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (13.146/2015), relatada por mim ainda na Câmara dos Deputados.

A construção da LBI contou com a ajuda de toda a sociedade civil por meio de uma consulta pública que durou seis meses. No texto, fizemos questão de trazer um artigo específico sobre acessibilidade em hotéis, reforçando o conceito do Desenho Universal nas áreas comuns, além da previsão de pelo menos 10% de dormitórios acessíveis nos hotéis e estabelecimentos similares. Essa é uma das obrigatoriedades da LBI – algumas, inclusive, já estão em vigor e devem ser respeitadas e cobradas pela população.

Um dos principais problemas apontados por turistas com deficiência é justamente a falta de disponibilidade de quartos adaptados. Em alta temporada, por exemplo, ou quando algum evento que envolve pessoas com deficiência está sendo realizado, os poucos quartos acessíveis disponibilizados por hotéis são insuficientes para atender a demanda. Outro ponto relevante são as críticas relacionadas às condições das calçadas, que precisam melhorar para que o turista possa usufruir melhor das suas viagens.

O quanto nossas cidades deixam de ganhar quando não se preparam para atender a essas pessoas, investindo, por exemplo, em passeio público de boa qualidade, transporte adaptado e comunicação acessível? Aliás, uma das maiores queixas do viajante cego é não conseguir comprar sua própria passagem aérea porque as plataformas dos sites não são acessíveis.

De acordo com dados do Ranking de Competitividade em Turismo do Fórum Econômico Mundial, o Brasil ocupa a primeira colocação no quesito recursos naturais, garantindo-nos a 27ª colocação entre 136 países avaliados. Por outro lado, ao ser avaliado quanto ao ambiente de negócios, a segurança oferecida ao turista, infraestrutura e priorização do setor, o Brasil fica entre os últimos da lista.

Quem visita o Brasil e quem viaja por ele o faz não só em busca de nossa beleza natural, mas também porque somos um destino onde as pessoas são bem recebidas. Fazer dessa característica brasileira uma ferramenta para alavancar nosso turismo é uma estratégia que nosso governo tem em mãos e não pode ser menosprezada. Afinal, emanamos diversidade e cordialidade em nosso povo. Está na hora de profissionalizar serviços e cuidar das nossas cidades.

Se você é do setor hoteleiro, pense nisso. Cumprir a Lei é sua obrigação, mas ampliar o seu público consumidor é uma oportunidade de crescer seu negócio e seu capital humano.

*Mara Gabrilli, senadora (PSDB-SP), publicitária, psicóloga, foi secretária da Pessoa com Deficiência da capital paulista, vereadora por São Paulo e deputada federal por dois mandatos

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