Feminismo nosso de cada dia

Feminismo nosso de cada dia

Emanuela Carvalho*

08 de março de 2019 | 14h52

Emanuela Carvalho. FOTO: MARCELO ROSAS

É tão necessário quanto repetitivo falar sobre a importância do feminismo. A sensação, inclusive, é de que quanto mais as pessoas tomam consciência da necessidade desse movimento, mais ainda ele se torna fundamental. Ou você nunca se perguntou ao ver diariamente nos jornais, na internet, em todos os veículos de comunicação, as notícias diárias sobre violência contra a mulher se esse tipo de situação não está aumentando?

A pergunta é pertinente. E podemos pensar rapidamente que sim, a violência contra a mulher está aumentando. Mas também podemos avaliar mais friamente, associando o crescimento das notícias à coragem das mulheres de denunciar, de expor o que sofrem. Dessa forma, compreendemos que a mulher sempre foi vítima, mas decidiu agora não mais se calar.

Numa forma “humana” de pensar, acharíamos óbvio que todas as pessoas fossem feministas. Assim, nem haveria motivo para o movimento existir. Sabemos, diante do já dito caráter repetitivo do tema, que a luta feminista não se opõe ao machismo – onde o homem se vê como superior à mulher – mas trata da igualdade de direitos. É incessante a tentativa de fazer compreender que a mulher não quer ser igual ao homem. A luta é pela igualdade de direitos! Aliás, lutar para que sejam todos iguais seria um tanto absurdo, tanto quanto impossível!

Mas se todos deveriam compreender que os direitos são iguais, por que a luta feminista é tão necessária?

Vale lembrar que nada disso começou agora. Houve um tempo em que mulheres precisam lutar, por exemplo, pelo direito de se divorciar.

No Brasil, a Lei do Divorcio só foi aprovada em 1977. Tão recente!

Em Portugal, o divórcio foi aprovado em 1910. Há países em que a dissolução do casamento continua dificultosa.

Na Inglaterra, há poucos anos, uma senhora teve o seu direito de se separar negado, porque a justificativa era de que ela estava infeliz no casamento. Se não há adultério, abandono, a separação só pode acontecer com o consentimento do marido, e mesmo assim, depois de um período vivendo separados.

Mas se no Brasil, juridicamente falando, o divórcio já é uma conquista, por outro lado, ele se tornou uma sentença de morte para muitas mulheres.

Seja um pedido judicial de separação, ou a verbalização do fim de um namoro, a saída da mulher de um relacionamento, por vezes abusivo, pode colocá-la em sério risco de vida.

O que mais se noticia é ‘mulher foi morta pelo companheiro que não aceitava o fim do relacionamento’.

Foi o caso da manicure Iolanda Crisóstomo, de 42 anos, assassinada a facadas após uma briga com o ex-marido, no Rio de Janeiro.

Ou de Rosineide Bernardes, de 55 anos, morta a facadas pelo marido no norte de Alagoas.

Ou de Milena Optimara, de 13 anos, que foi baleada e morta pelo namorado, de 17 anos.

Ou o de Elizangela Pereira assassinada com 23 facadas, em Itupeva.

E ficaríamos aqui numa lista interminável, só no ano de 2019.

E não basta querer o fim da relação, para alguns homens, somente a negativa de um pedido de namoro já é pretexto para o feminicídio.

No final de dezembro de 2018, a garota de 14 anos Natasha Rodrigues foi baleada por recusar o pedido de namoro de um homem de 20 anos. O crime aconteceu em Bebedouro, interior de São Paulo. Ela chegou a ficar internada durante alguns dias, mas morreu no dia 3 de janeiro.

Diante desses fatos, como achar que o feminismo não é necessário e urgente?

Durante muitos anos, a mulher foi objeto, propriedade do homem. Não tinha independência financeira e, com isso, o direito a ser dona da própria vida. As mudanças sociais são imensas!

As mulheres foram ao longo de décadas ganhando cada vez mais espaço. Seja pelo direito de votar, de se divorciar e casar novamente, de usar a pílula anticoncepcional, e em alguns países de abortar, direito a ser legitimamente dona do próprio corpo.

Mas muitos homens não acompanharam essas mudanças. A mulher ainda é vista por eles como uma extensão masculina, como a cuidadora exclusiva do lar e dos filhos, a que deve ser obediente.

E como equilibrar o pensamento retrógrado com as mudanças que não param? Trazendo as pessoas à consciência. Mostrando a importância do respeito à liberdade e às diferenças. Se esse respeito existisse, uma mulher jamais seria morta porque optou sair de uma relação. Ou porque não quis ceder às vontades do homem. Ou porque apenas deseja ser livre.

O convite é à reflexão: se a violência contra mulher é cada dia mais assombrosa e frequente, por que não compreender a importância da luta diária feminista e partir para a conscientização do respeito à liberdade?

Por que não compreender a necessária igualdade de direitos?

Até quando os olhos de tantos estarão vendados às mudanças e ao novo papel da mulher na sociedade, que inclui ser ela mesma?

Até quando irão negar a importância do feminismo?

Até quando irão, calados, assistir a tantas mulheres perderem o direito à voz e à vida de maneira brutal?

Até quando?

*Emanuela Carvalho, professora e autora dos livros A Terceira Pessoa Depois de Ninguém e Antes Feliz do que Mal Acompanhada

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