Feliz Dia das Mães?

Feliz Dia das Mães?

Lidice Leão*

07 de maio de 2021 | 09h00

Lidice Leão. FOTO: DIVULGAÇÃO

Peço desculpas à minha mãe, aos meus filhos, às minhas amigas que são mães e às mães que são minhas amigas. Este ano não vou conseguir desejar um feliz dia das mães – a ser comemorado no próximo domingo. E não conseguirei estar feliz na data, por mais que me desejem feliz dia das mães. Não julgo quem fizer os votos e quem comemorar com felicidade. Cada um dá a felicidade que tem. Eu, neste momento, não tenho.

Mórbido. Não há outra palavra que batize este último ano. O governo. O presidente. Mórbido: referente a doença, patológico; prejudicial à saúde, que causa doenças; que tem caráter de doença, doentio; que é atraído pela morbidez, por coisas terríveis ou pela morte – verbete atualizado da palavra “mórbido” no dicionário Aulete Digital. Será que a imagem, a fisionomia que vem à sua cabeça é a mesma que vem à minha? A expressão rançosa, cheia de ódio e desprezo pela vida? Pois é, estamos no mesmo barco à deriva em uma tempestade que já levou mais de 410 mil vidas.

E em meio a tudo isso se aproxima o dia das mães. Mães de luto que tiveram os filhos arrancados pelo vírus. Mães viúvas. Mães que perderam pais. Mães que perderam mães. Mães como dona Déa Lúcia, que chora a morte precoce do filho, Paulo Gustavo. Um ano depois que a mãe de quatro filhas Mary Blanc ficou sem o marido, Aldir Blanc.

“Rir é um ato de resistência”, disse o ator e humorista Paulo Gustavo em uma de suas últimas participações na tv. “A esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar”, escreveu Aldir Blanc na década de 70, junto aos outros versos da música que se tornaria o hino da anistia no Brasil que vivia às sombras da ditadura militar. Sim, querido Paulo Gustavo, vamos seguir tentando rir para resistir. Ídolo Aldir, vamos aplaudir cada artista que continua com o show – afinal, nos momentos de obscurantismo e ignorância, a cultura também é um ato de resistência. Mas, vocês vão entender, vamos devagar, no dia a dia. No cuidado com o outro que está ao nosso lado. No aroma afetuoso do café a cada manhã. No carinho de cada olhar. Na saudade cheia de esperança que sentimos de quem está longe, e vivo. Mas ser feliz, mesmo, no dia das mães de 2021 não dá.

Impossível, ainda, dissociar deste momento mortes por outras doenças. Mães que perderam filhos, maridos, companheiros, companheiras para o câncer, infartos fulminantes, derrames, acidentes sofridos em momentos desesperados. Doenças antes controladas explodiram em corpos tensos, preocupados, tristes.

Portanto, no dia das mães de 2021 vamos celebrar a nossa vida, dos nossos filhos, mães, familiares, amigas mães e mães amigas. Vamos cuidar. Mas, queridas leitoras e queridos leitores, desejar “feliz dia das mães” em um tempo em que quase meio milhão de pessoas foram empurradas para a morte pelo presidente de um país é inviável. Vamos rir para resistir sim. E vamos aplaudir o show de todo artista sim. Mas com a tristeza de quem vive tempos mórbidos. E com a coragem de denunciar os agentes da morbidez para que sejam punidos em todos os termos da lei.

*Lidice Leão é jornalista e mestranda em Psicologia Social pela USP, onde pesquisa o sofrimento psíquico da mulher. É pesquisadora do Laboratório de Estudos em Psicanálise e Psicologia Social (LAPSO) da Universidade de São Paulo

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