Felicidade no trabalho, bem-estar e saúde mental: qual é a diferença?

Felicidade no trabalho, bem-estar e saúde mental: qual é a diferença?

Carla Furtado*

12 de setembro de 2021 | 06h00

Carla Furtado. FOTO: DIVULGAÇÃO

É inquestionável o aquecimento das conversas sobre felicidade dentro das organizações desde o início da pandemia do SARS-CoV-2, temática essa que se desdobrou em iniciativas de bem-estar e saúde mental. Embora afins, felicidade, bem-estar e saúde mental são distintos e precisam ter suas especificidades compreendidas. A felicidade no trabalho, apesar de inúmeros e diferentes construtos, foi definida pela Universidade de Berkeley como percepção de que o tempo no trabalho é bem vivido, com motivação, e de que o que se faz tem valor.

Na linha dessa reflexão, cabe trazer o conceito de saúde estabelecido pela Organização Mundial da Saúde, como estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de enfermidade. Saúde contém saúde mental, compreendida como o estado no qual o indivíduo desenvolve suas habilidades pessoais, consegue lidar com os estresses da vida, trabalha de forma produtiva e encontra-se apto a dar sua contribuição para sua comunidade.

Silvana Galderisi, psiquiatra e pesquisadora italiana, propôs um elegante conceito para saúde mental: estado dinâmico de equilíbrio interno que permite ao indivíduo usar suas habilidades em harmonia com os valores universais da sociedade. Por habilidades, das ordens cognitiva e social, entendam-se: capacidade de reconhecer, expressar e modular as próprias emoções, bem como ter empatia pelos outros; flexibilidade e capacidade de lidar com eventos adversos da vida; e relação harmoniosa entre corpo e mente. O que Galderisi fez foi ressaltar o caráter coletivo da saúde mental, ou seja, se meu comportamento é benéfico para mim, mas deletério para os outros não pode ser reconhecido como saudável.

Quanto a bem-estar, traz diferentes dimensões de acordo com o referencial teórico empregado. Além disso, não deve ser considerado um estado estático, mas sim um estado dinâmico. Rachel Dodge, doutora em Psicologia pela Universidade de Cardiff (País de Gales), propôs a seguinte definição: ponto de equilíbrio entre o conjunto de recursos psicológicos, sociais e físicos de um indivíduo e os desafios enfrentados. Se os desafios forem superiores aos recursos disponíveis, o bem-estar se reduz. Lembremos que nos estudos da psicologia positiva, a felicidade é construída sobre duas dimensões de bem-estar: o subjetivo (afetivo) e o psicológico (cognitivo).

Apresentadas diferenças, mesmo que brevemente, fica claro que a escolha do escopo de uma iniciativa organizacional não é apenas uma questão de gosto. Embora tenham interseção, felicidade, bem-estar e saúde mental demandam planejamentos específicos e composição de times com as qualificações necessárias para implementação de cada um deles. Para atuar em saúde mental devem-se cumprir pré-requisitos, sendo que somente psiquiatras e psicólogos estão habilitados para realizar anamnese, diagnóstico e assistência. Essa é uma área mais complexa que felicidade e bem-estar e requer profundo conhecimento dos transtornos mentais e comportamentais. Atuar sem a devida qualificação oferece riscos, pois quando se trata de saúde mental parte-se do princípio de que nenhuma intervenção é inofensiva ou livre de efeitos colaterais.

A saúde integral de quem trabalha é elemento inegociável para a sustentabilidade das organizações. Mas, é necessário estabelecer um caminho responsável, partindo da definição do escopo de atuação e da designação de um time habilitado – sem jamais esquecer da equipe de segurança e medicina do trabalho. E não custa lembrar que o setembro é amarelo, mas o cuidado precisa durar o ano inteiro.

*Carla Furtado é pesquisadora do projeto Trabalho e Mobilização Subjetiva da Universidade Católica de Brasília, docente em Psicologia e fundadora do Instituto Feliciência

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