‘Faz sua parte aí deputado’, diz investigado da Carne Fraca que caiu em grampo

ÁUDIO registra pedido de um dos presos pela PF, por suspeita de corrupção em fiscalizações do Ministério da Agricultura em frigoríficos e granjas, para suposto parlamentar; PGR analisa material

Julia Affonso, Ricardo Brandt, Mateus Coutinho e Luiz Vassallo

23 Março 2017 | 13h47

Foto: Dida Sampaio/Estadão

Foto: Dida Sampaio/Estadão

“Faz sua parte aí deputado, que aqui, deixa comigo.”

A frase acima é de um dos alvos da Operação Carne Fraca, que estava com o telefone grampeado pela Polícia Federal, sob suspeita de integrar o esquema de corrupção envolvendo fiscais federais do Ministério da Agricultura, em conluio com executivos de dois grandes grupos do setor alimentício, BRF e JBS.

 

A Carne Fraca monitorou os telefones dos investigados durante quase um ano, com autorização do juiz federal Marcos Josegrei da Silva, da 14ª Vara Federal, em Curitiba. A PF local não investiga alvos com foro privilegiado, por isso encaminhou à Justiça, com sugestão para envio à Procuradoria-Geral da República, os grampos que citam deputados. Entre eles o atual ministro da Justiça, Osmar Serraglio, que em 2016 era deputado federal pelo PMDB do Paraná, João Arruda (PMDB-PR) e Rogério Peninha Mendonça (PMDB-SC).

Como deputados federais, os citados detém prerrogativa de foro perante o Supremo Tribunal Federal. Não há evidências claras de crimes nas conversas. Nem há identificação de quem é o parlamentar que conversa nessa conversa com o alvo da Carne Fraca.

“E aí, companheiro”, atende o suposto parlamentar.

“Alô, deputado, tudo bem?”, responde o investigado.

“Liguei.. ele tava fora… vai lá na secretaria, vai me ligar assim que chegar””, responde o “deputado”, indicando conhecer o pedido e o tema tratado pelo alvo da Carne Fraca.

“Mas ele não mandou nada, nem um ofício, nada?”, questiona o suposto parlamentar.

“Nada, nada nada.”

E então responde que ia acionar uma pessoa de nome Ronaldo. “Dá uma ligadinha para o Ronaldo para ele dar um pulo lá também.”

O investigado que estava com o grampo disse que tenta “falar com ele, e ele não atende”. É complicado aí, né? Secretário nacional, que a gente tá ajudando aqui…”

“O que ele não pode fazer, não prometa, né?”, responde o “deputado”.

“Só falar que não dá. Não pode ficar escondendo da gente. Eu estou mandando mensagem para ele para apurar ele lá, tá?.”

O deputado responde afirmativamente e diz que vai tentar também conversar com a pessoa, não identificado. E então recebe a cobrança do interlocutor: “Faz sua parte aí deputado, que aqui, deixa comigo”.

A Operação Carne Fraca mira corrupção na Superintendência Federal de Agricultura no Estado do Paraná (SFA/PR) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. No rol de empresas investigadas pela Polícia Federal estão a JBS, dona da Seara e da Big Frango, a BRF, controladora da Sadia e da Perdigão, e os frigoríficos Larissa, Peccin e Souza Ramos. Os alvos são suspeitos por adulteração ou alteração de substância ou produtos alimentícios, peculato, concussão, corrupção passiva, prevaricação, advocacia administrativa, falsificação,  lavagem de dinheiro e organização criminosa.

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