Faxina geral

Faxina geral

José Renato Nalini*

27 de junho de 2020 | 09h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Somos fanáticos por campeonatos. Daí o assanhamento para vencer mais um: o de número de mortos e infectados pela covid19. É o que se anuncia e não é improvável, se tudo continuar como está.

Para alegria daqueles que enxergam benéfico saneamento das contas deficitárias da Previdência Social. Os velhos partem e, com isso, a economia se fortalece. Aposentados e pensionistas constituem peso morto e nada produzem. Se um dia a pandemia vier a ser controlada, o mundo será outro: crianças e jovens reequilibrarão a demografia. Talvez se inverta a perigosa equação até havia pouco anunciada: o Brasil seria um país de idosos.

Ninguém se preocupa com a memória que também desaparece com a ancianidade. A mídia está mais interessada em divulgar o up to date! Só vale o que é super atual. Afinal, estamos na era hiper. Quanto espaço é voltado ao acompanhamento de figuras toscas surgidas do vácuo intelectual e propagadoras da ignorância e da imbecilidade? É isso o que se lê. A História do Brasil começou recentemente e os mortos não fazem parte dela. Deixemos que os mortos cuidem dos falecidos.

Já houve tempos em que se cuidou de manter viva a lembrança de pessoas que contribuíram com a cultura, em seus mais distintos setores. Acredite-se que havia espaço para efemérides nos grandes jornais, celebrando os centenários de nascimento e de morte.

Isso não tem maior importância. Basta divulgar o hoje. Como disse um dia Eduardo Galeano, aquele das “Veias abertas da América Latina”, o tempo é bastante amável conosco, “seus passageiros fugazes, e nos dá permissão para crer que hoje pode ser o primeiro dos dias, e para querer que seja alegre como as cores de uma quitanda”.

As Polianas insistem no fim da peste e, se ela chegou ao Brasil na primeira classe de rotas internacionais, agora atinge prioritariamente a periferia. Ajudará a reduzir a nefasta aglomeração de pessoas. Onde já se viu dormirem cinco ou seis no mesmo cubículo?

O que realmente vale a pena é planejar as eleições, com a sua onerosa logística, para a qual sobram polpudos recursos dos Fundos Partidários e Eleitorais. Importa é manter a ortodoxia da exitosa Democracia Representativa, da qual o país tem colhido inegáveis resultados, que o fazem mais do que respeitado na comunidade planetária. O Brasil é reverenciado como a terra do homem cordial, daquele que elaborou a sofisticada filosofia do “jeitinho”, conciliando-a com a longeva concepção do Primeiro Mundo: não existe pecado do lado debaixo do Equador.

As perspectivas são as mais promissoras: vamos entregar a Amazônia para os grileiros. A exportação da madeira nobre será uma injeção na combalida economia nacional. Removamos o entulho autoritário que pretendeu tutelar a natureza. Agora é o momento da baciada na desregulamentação e de soltar a boiada no pasto. Se isso vier a alterar o clima do planeta, problema de quem vier. O momento é de faturar, na onda de viver intensamente cada dia, pois o amanhã trará as soluções.

Desprezemos os catastrofistas, que acenam com horrores indescritíveis. A ciência não é absoluta. Quantas vezes já errou? O essencial é manter a crença naquilo que nos comove e leva a um sentido de pertencimento. O Brasil é muito maior do que a OMS. Por que dar ouvidos a estrangeiros que não conhecem nossa realidade?

Com a limpeza da velharia, não vão embora apenas os que oneram nossas contas e impedem o Brasil de deslanchar rumo ao brilhante futuro que o aguarda. Vão também concepções antiquadas, ideias superadas, saudosistas e melancólicas. Os velhos têm a mania de achar que já fomos melhores. Não é verdade. Este o momento glorioso em que o País descortina um horizonte infinito de perspectivas favoráveis ao predomínio de sua política nacionalista.

Varramos deste abençoado território os que pensam o contrário e aqueles renitentes que teimam em proclamar dissidência. Para estes, o repúdio altissonante de nossas redes sociais atuará para mantê-los reféns de suas ideias equivocadas.

Também tapemos os ouvidos a quem queira se intrometer nas questões internas do Brasil. Ninguém tem o direito de se imiscuir em nossas políticas públicas ou de criticar aquilo que fazemos. Afinal, Deus não é brasileiro? Não tem dado seguidas provas de que nos protege?

Não tem jeito de fracassar. Nenhum país tem nossas riquezas minerais, nossa extensão territorial, um povo tão ordeiro, trabalhador e bem humorado. Por que temer o insucesso?

A faxina geral propiciada pela pandemia deixa vislumbrar um período de abastança e de bem-estar geral para todos os brasileiros que realmente amam o Brasil e querem o melhor para ele. E o melhor, para a nossa economia que se viu estrangulada por força de tantos ociosos que se agarram à Previdência, é a providência saneadora que chegou com o coronavírus. Sem ele, seria muito difícil adotar uma política pública suficientemente forte para colocar ordem naquilo que veio aumentando com o tempo, até porque a medicina garantiu que os brasileiros vivessem muito mais do que o necessário.

*José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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