‘Fatos estão ocorrendo até a presente data’

‘Fatos estão ocorrendo até a presente data’

Em carta, o tenente-coronel da Polícia Militar do Estado de São Paulo José Afonso Adriano Filho, que tenta delação premiada, levanta suspeitas contra 18 coroneis

Marcelo Godoy e Marco Antônio Carvalho

06 de outubro de 2017 | 13h00

Preso desde março e tentando fechar um acordo de delação premiada com o Ministério Público, o tenente-coronel José Afonso Adriano Filho elenca em carta de 16 páginas suspeitas contra 18 coroneis e um major. Assinada em 20 de maio, a carta foi anexada a todos os 23 inquéritos em andamento na Corregedoria. Na maior parte do texto, dá a entender que os oficiais superiores receberam a verba de obras fantasmas desviada do Departamento de Suporte Administrativo (DSA) do Comando-geral da corporação.

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O teor do texto se concentra inicialmente em reclamações contra uma suposta parcialidade da Corregedoria ao não investigar suspeitas contra coroneis que ocuparam carga de chefia no período de 2005 a 2012 no Comando-geral e na DSA. “Verifica-se que esta corregedoria apura com rigor os fatos ocorridos no DSA, porém com total parcialidade tendo em vista que muito embora tenha conhecimento da participação e conhecimento de outros oficiais superiores, (eles) sequer foram ouvidos”, escreve Adriano no documento ao qual o Estado teve acesso.

Ele diz ser de “suma importância” a imparcialidade do órgão. Ainda na primeira página requer que sejam instaurados inquéritos policiais militares para investigação de condutas relacionadas aos fatos apurados, a partir de uma lista de indicados dada por ele. Ao fim desses depoimentos, diz ele, seriam fornecidos elementos comprobatórios das suspeitas levantadas. “Fatos estão ocorrendo até a presente data gerando enorme prejuízos ao erário por virtude da ineficiência de fiscalização dos oficiais, bem como desvios em larga escala.”

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O primeiro da lista é o coronel João Cláudio Valério, que ocupou o Grupo de Planejamento Setorial (GPS), da Secretaria da Segurança Pública, entre os anos de 2001 e 2006, tendo sido depois chefe de gabinete da secretaria de abril de 2008 a abril de 2009. A ele são dirigidas três perguntas: a) recebeu do DSA-CG recursos em cheque ou espécie para custear despesas diversas? b) determinou pagamentos de obrigações não inerentes à PM? c) determinou reformas na sede da SSP, custeadas pela DSA-CG?

Logo abaixo, mira no coronel Álvaro Batista Camilo, hoje deputado estadual pelo PSD, com perguntas similares quanto aos recursos do DSA. Pergunta ainda se o ex-comandante-geral teria determinado o emprego de policiais militares e recursos do erário para reparar um apartamento e se verbas públicas teriam pago a internação do seu filho em uma clínica de reabilitação.

Com teor similar, as perguntas se repetem aos demais oficias superiores. A lista inclui ainda o coronel Orlando Eduardo Geraldi com questões sobre supostos uso de verba do DSA. Diz o tenente-coronel Adriano que “outros nomes e fatos poderão ser indicados futuramente”. O sigilo do caso foi derrubado pelo juiz Marcos Fernando Teodoro Pinheiro, da 4ª Auditoria Militar. O MP, no entanto, quer o restabelecimento do segredo, “para que não haja prejuízo às investigações, que prosseguem”. Nesta sexta-feira, ocorre audiência com uma testemunha do processo na sede do TJM, na Rua Dr. Vila Nova.

COM A PALAVRA, SECRETARIA DE SEGURANÇA

A SSP reitera que não compactua com qualquer desvio de conduta. Todos as denúncias contra policiais, civis ou militares, são rigorosamente investigadas pelas respectivas Corregedorias.

A Secretaria de Segurança Pública esclarece que não realizou nenhuma reforma em sua sede entre 2005 e 2012.

COM A PALAVRA, O TRIBUNAL DE JUSTIÇA MILITAR

O Tribunal de Justiça Militar aguarda o trabalho do Ministério Público a quem compete tal investigação

COM A PALAVRA, O MINISTÉRIO PÚBLICO DE SÃO PAULO

O Ministério Público de São Paulo informa que o senhor José Afonso Adriano Filho manifestou o interesse de fazer um acordo de delação premiada. No momento, as informações estão sob análise, em fase preliminar, não cabendo ao MPSP tecer qualquer tipo de consideração sobre tais tratativas.

COM A PALAVRA, O CORONEL CAMILO

O Ministério Público de São Paulo informa que o senhor José Afonso Adriano Filho manifestou o interesse de fazer um acordo de delação premiada. No momento, as informações estão sob análise, em fase preliminar, não cabendo ao MPSP tecer qualquer tipo de consideração sobre tais tratativas.