‘Fatos e Fitas’

‘Fatos e Fitas’

José Renato Nalini*

01 de agosto de 2022 | 07h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO

O criminalista Antonio Cláudio Mariz de Oliveira não é apenas o advogado combativo, devotado às causas que abraça e formador de consciência política das novas gerações, com a parceria eficiente e terna de sua Angela. Ele é também um prosador que transmite em seus escritos a devoção aos autênticos valores democráticos, dentre os quais a Justiça e seus tradicionais bastiões.

Depois de “Crônicas Absolvidas”, publicado em 2013, agora publica “Fatos e Fitas”, crônicas sobre o Largo de São Francisco. Livro dedicado a seu pai, o desembargador e processualista Waldemar Mariz de Oliveira Júnior, “eterno acadêmico da São Francisco”.

Formado pela PUC São Paulo, Antonio Cláudio confessa: “a Faculdade de Direito Largo de São Francisco sempre despertou a minha afeição e o meu interesse pela sua gloriosa história. Aliás, na verdade, a Academia simboliza os atributos e características de todos os bacharéis em Direito, que vocacionados para as lidas com o Direito, estão impregnados do espírito acadêmico das Arcadas, pouco importando a sua origem escolar”.

Começa pelas origens. A intenção de prover o nascente Império de uma elite jurídica desvinculada de Coimbra. “Como se vê, os bacharéis brasileiros nasceram com uma missão que extrapola os limites da atuação jurídica, qual seja a de servir a pátria na condução de seu destino, em todos os seus níveis. Cargos nos escalões inferiores, até a presidência da República, foram ocupados por bacharéis formados na Academia do Largo de São Francisco. Na velha República tivemos Prudente de Moraes, Campos Salles, Rodrigues Alves, Afonso Pena, Wenceslau Braz, Delfim Moreira, Arthur Bernardes, Washington Luiz, posteriormente José Linhares, Nereu Ramos, Jânio Quadros e Michel Temer”.

Passa a relatar a resistência a que São Paulo sediasse o Curso Jurídico, seja porque não era litorânea, sem estrutura para abrigar estudantes de todo o país, e “chegou-se até a afirmar que a pronúncia dos paulistas era estranha e poderia influenciar negativamente a fala dos estudantes”.

Paulo Bomfim dizia que o determinante na escolha da pauliceia foi a firmeza de Domitila de Castro, a Marquesa de Santos. Em seguida, o lugar da instalação. Pensou-se em três conventos: o de São Francisco, o do Carmo e o de São Bento. Prevaleceu o primeiro, seja porque haveria facilidade na adaptação das dependências para salas de aula, os frades poderiam continuar a ocupar parte do prédio e a biblioteca já dispunha de seis mil volumes.

São Paulo mudou completamente com a chegada dos acadêmicos. Deliciosa a crônica “Um lar para os estudantes”, em que Mariz narra os primeiros tempos fogosos que incluíam folguedos e até rapinagens. Era o começo do “pendura”. Mas de maneira mais afoita.

Interessante a contenda entre o primeiro diretor, José Arouche de Toledo Rendon e o primeiro professor, José Maria de Avelar Brotero. “Viviam eles às turras e as suas diferenças foram levadas ao conhecimento do Governo Imperial, por meio de ofícios em que cada um dos protagonistas fazia severas acusações contra o outro. Certa ocasião, o Diretor Rendon invocando os seus vários anos de serviços prestados ao Império e antes a D. João VI, solicitou a sua demissão do cargo de Diretor, “em prêmio pelos meus serviços”, pois não mais conseguia aturar um homem “decerto um louco, capaz de atacar moinhos”. Já naqueles tempos havia conflitos pessoais, que perduram, embora mais sofisticados.

A São Francisco esteve sempre à testa de movimentos pioneiros, como a tentativa precoce de proclamação da República, mesmo nos primeiros anos do Império. “A Academia foi palco e núcleo propulsor de ideias e ideais de liberdade desde a sua instalação. Aliás, os articuladores de sua criação preocuparam-se com a formação cidadã dos jovens estudantes, e com a sua preparação para serem gestores da coisa pública e homens de Estado”. Assim também na Abolição, na qual o não bacharel Luiz Gama “pode ser considerado um legítimo representante das Arcadas, pois encarnou todos os valores secularmente defendidos pela Academia”.

Antonio Cláudio Mariz de Oliveira ainda fala sobre as sociedades secretas e solidariedade, os movimentos liberais e acadêmicos, desenvolve páginas candentes sobre refregas e conflitos e discorre sobre o significado de uma Escola de Direito numa cidade então pacata e provinciana, cujos estudantes “deram à então tristonha cidade de São Paulo um vigor extraordinário. As peculiaridades da vida social, cultural e política que a marcaram no século XIX tiveram como gênese o Largo e seus acadêmicos”.

Uma das mais belas crônicas é a que relaciona a Academia de Direito e a Academia de Letras. A São Francisco foi um ninho produtor de poesia da mais alta qualidade e de prosa insuperável. Assim como seus integrantes também enveredaram pela música e demais manifestações artísticas.

As estripulias de alunos e professores mereceu abordagem, assim como as tragédias que tiveram por palco a Academia ou personagens a ela intimamente ligados. Enfim, o livro “Fatos e Fitas”, de Antonio Cláudio Mariz de Oliveira é imperdível. Daqueles que a gente lê e não quer que acabe. Notável contribuição à história da nossa velha e sempre nova Academia do Largo de São Francisco.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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