Faroeste caboclo

Faroeste caboclo

Marco Antonio Barbosa de Freitas*

18 de maio de 2020 | 08h30

Marco Antonio Barbosa de Freitas. FOTO: DIVULGAÇÃO

Dentre tantas pesquisas de opinião, das muitas que transbordam na Imprensa em épocas de eleição, impregnadas ou não de caráter científico, seria interessante que uma delas – talvez uma apenas fosse suficiente –, tratasse de tentar pôr abaixo o mito da popularidade e do apoio que o candidato eleito a cargo em voto majoritário diz que tem – ou ao menos pensa que tem, ou ao menos fazem com que acredite que tem.

Mais do que satisfazer a mera curiosidade do mortal que a cada dois anos é convidado a comparecer em outubro a colaborar com a democracia, seria pedagógico ao mandatário de cargo majoritário que obtivesse valiosíssima informação que lhe pusesse sob os olhos – costumeiramente atacados pela miopia –, qual o percentual de eleitores que votaram nele também no primeiro turno.

Numa quadra triste que temos vivido no ambiente político do país desde 2.014, porque beligerante e por vezes melancólica, experimentando um clima de tiroteio quase diário, com homens-bomba transitando incólumes pelas calçadas da esquerda e da direita – que tem feito mais vítimas entre os eleitores do que entre os eleitos –, seria de fundamental relevo que o cidadão que nos quatro anos seguintes dirigirá municípios, estados ou até mesmo o país, tivesse ao menos uma remota ideia de quem, desde sempre, o apoiou.

Arrisco a ir um pouco mais além para afirmar que o efeito colateral dessa prévia ciência poderia converter-se em consciência que nos beneficiaria a todos, já que se esperaria que o alcaide de plantão se desse conta de que a claque que o macaqueia em carne e osso ou em teclado e tela, é infinitamente menor do que supõe a sua vã – e por vezes inexistente – filosofia.

Ao tomar conhecimento disso, o que se esperaria do político eleito que talvez não seja inteligente, mas ao menos esperto, seria agir com instinto elementar de sobrevivência que exige capacidade mínima sensorial para perceber o que vai à sua volta, e aí então, ao invés de governar só para os seus fiéis, ousaria ir um pouco mais adiante, enxergando aqueles outros tantos, muitas vezes até a maioria, que votaram nele por pura falta de opção de ter coisa melhor a fazer diante de uma urna eletrônica.

Tais considerações são postas para desafiar o respeitável público a responder a seguinte pergunta: por quantas vezes seu candidato de primeiro turno teve votos suficientes para chegar ao segundo turno? Já tendo idade para participar das eleições desde 1.986, sempre na condição de eleitor, posso lhes oferecer meu testemunho pessoal: eu, apenas numa isolada oportunidade, e desconfio que de todos os outros quatro ou cinco que lerão estas linhas, a maioria terá tido a mesma experiência.

A mais completa e aperfeiçoada ausência de percepção do candidato eleito acerca desse volumoso eleitorado, que involuntariamente é ignorado e instalado desconfortavelmente em meio à sua horda de discípulos, não deseja assistir a estripulias, soluções mágicas, bravatas, troca pirotécnica de ofensas de mentirinha, porque essas performances são o que são: uma mera distração, um ilusionismo que nos põe fora da realidade por alguns minutos – é verdade que alguns ficam fora dela por meses ou anos a fio –, e não mais do que isso.

O miserável resultado que esse espetáculo de curta duração propicia à grande maioria que não raro votou “no que sobrou”, é a sensação de abandono, de que a mensagem não foi recebida – e quase nunca é –, e de que a realidade tupiniquim nos tem imposto o destino ingrato de vermos sentados nas cadeiras de cargos de eleição majoritária – mas não só nelas – pessoas que tem de dar um pulinho esforçado para alcançar a elevada altura de seu assento.

Num momento em que a Saúde enfrenta desafio grave e insidioso por qual todo o mundo passa e do qual não nos livramos porque simplesmente insistimos em fazer parte dele, não seria demasiado dispensar um tanto mais de seriedade e cuidado às necessidades e desejos não somente dos asseclas do eleito, não apenas da outra vultosa massa que digitou os números do menos pior, mas ainda daqueles outros, daqueles tantos outros que escolheram o candidato derrotado.

Talvez a benção e a maldição infelizmente convirjam para o mesmo ponto, que ora representa avanço, ora representa atraso civilizatório: ao governarem tão só para os barulhentos eleitores internéticos, para os eleitores das pesquisas de opinião, ou para os patrocinadores de seus próprios interesses, o candidato eleito se torna menos eleito e mais candidato, fadado a essa limitada e obtusa função até que nova eleição se avizinhe.

Enquanto por aqui – e assim tem sido desde priscas eras neste lado do hemisfério – os votos forem direcionados mais às personas e menos a valores testados e aprovados pela biografia dos candidatos, não poderemos reclamar de termos mirado o estadista e acertado o falastrão, porque desgraçadamente tem sido neste esporte que temos sido campeões mundiais; pena que sempre na segunda divisão.

*Marco Antonio Barbosa de Freitas, juiz de Direito, mestre em Direito, professor titular de Direito Processual Civil na Faculdade de Direito da Universidade Santa Cecília (Unisanta)

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