Família, política e Estado

Família, política e Estado

Rodrigo Augusto Prando*

05 Dezembro 2018 | 09h00

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em obra consagrada – Raízes do Brasil – de Sérgio Buarque de Holanda há, em seu não menos famoso capítulo V, “O homem cordial”, considerações iniciais importantes acerca da família e do Estado. Vale a pena retomar esse clássico da cultura brasileira. Nas palavras de Holanda:

“O Estado não é ampliação do círculo familiar e, ainda menos, uma integração de certos agrupamentos, de certas vontades particulares, de que a família é o melhor exemplo. Não existe, entre o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição (…) Só pela transgressão da ordem doméstica e familiar é que nasce o Estado e que o simples indivíduo se faz cidadão, contribuinte, eleitor, elegível, recrutável e responsável, ante as leis da Cidade, Há neste fato um triunfo do geral sobre o particular, do intelectual sobre o material, do abstrato sobre o corpóreo, e não uma depuração sucessiva, uma espiritualização de formas mais naturais e rudimentares, uma procissão das hipóstases, para falar como na filosofia alexandrina. A ordem familiar, em sua forma pura, é abolida por uma transcendência”.

Trecho de invulgar contribuição ao conhecimento da sociedade brasileira. Sociedade escravocrata, de preponderância da família patriarcal, de cultura política assentada no mandonismo, patrimonialismo e rompantes de messianismo social. Tudo isso cimentado pelo catolicismo, para falarmos com Gilberto Freyre. Tanto em Holanda como em Freyre – a despeito de suas chaves metodológicas distintas – são, juntos com Caio Prado Júnior, intérpretes da chamada “Geração de 1930” e que se dedicaram à compreensão da sociedade brasileira num momento de mudança história fundamental: o fim da ordem escravocrata e rural e os primórdios da ordem social competitiva e industrial e da urbanização. É, portanto, nesse clima intelectual que Holanda fez, em seu capítulo sobre o “homem cordial” a consideração inicial de que a ordem familiar não pode invadir o espaço do Estado, da ordem política.

Na família, espaço da casa, há a vigência dos afetos, das relações pessoais; na ordem política, na rua, deve existir um relacionamento impessoal, abstrato, no qual todos são dotados de direitos e deveres. Não raro, nas sociedades modernas, racionalizadas, existe a contraposição da “casa & da rua”, como bem observou Roberto Da Matta em Carnavais, malandros e heróis. Em Holanda, seguindo a força da Sociologia Compreensiva de Max Weber, e em Da Matta, nas trilhas da Antropologia Cultural e de Tocqueville, temos a indicação da dificuldade, no Brasil, de uma sociabilidade que leve em conta a impessoalidade dos indivíduos em detrimento dos afetos e das relações pessoais. As empresas e o Estado devem alicerçar suas ações em condutas racionais, seja na busca do lucro ou no funcionamento das esferas do poder político (Executivo, Legislativo e Judiciário).

Jair Bolsonaro, presidente eleito, tem cinco filhos, dos quais três estão ativos na vida política. Eduardo Bolsonaro tornou-se o deputado federal mais bem votado na história, com cerca de 1,8 milhão de votos. Flávio Bolsonaro foi, também com expressiva votação, eleito senador pelo Rio de Janeiro. E, por fim, Carlos Bolsonaro é vereador no Rio de Janeiro e também foi o mais votado na última eleição municipal. Naquilo que se pode esperar da separação entre Estado e família, entre interesses públicos e privados, até aqui nada de grave ou de ilegal pode ser apontado nesta “família política”. Pai e os três filhos chegaram onde estão pela via do voto, foram, cada um, em momentos ou cargos distintos, sufragados pelas urnas, pelos eleitores, dentro das regras democráticas.

As relações nas famílias nunca são simples e não seria diferente na família Bolsonaro. Os pais, muitas vezes, esforçam-se para, na educação e no afeto dedicado aos filhos, serem equânimes. Bem sabemos que, quase sempre, isso é impossível, gerando, às vezes, mágoas, ressentimentos, competição. Imaginemos, então, os ânimos de um pai presidente da República e de filhos que, em suas disputas, foram os mais votados e que, certamente, estão vislumbrando, no futuro, assumir a dimensão do pai (é muito pouco Freud para tanto filho). Bolsonaro, o pai, deverá despender esforço hercúleo para não só fazer a gestão como chefe de governo e de Estado, mas como pai de três filhos com voos solos e desejos abundantes. Não será tarefa fácil.

Eduardo Bolsonaro, em viagem aos EUA, transita, já, como uma espécie de chanceler oficioso, dando entrevistas, comentando o governo em formação e temas internos e externos. Por enquanto, bem por enquanto, essa postura não gerou nada além de algum desgaste ou saia justa para seu pai, Jair Bolsonaro. Já Carlos Bolsonaro, que se licenciou da Câmara Municipal para cuidar da campanha do de Jair nas redes sociais, acabou se afastando da equipe de transição, segundo informações, por conta de atritos com Gustavo Bebbiano, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência. A pergunta, aqui, é se as redes sociais, doravante não mais coordenada por Carlos, terão a mesma força que tiveram e a importância estratégica para Jair Bolsonaro. Por fim, Flávio Bolsonaro já afirmou que não há condições de apoiar a candidatura de Renan Calheiros à presidência do Senado.

Os três, vale, novamente ressaltar, gozam de prestígio por serem os filhos do presidente eleito, mas, essencialmente, tiveram legítimas e avassaladoras votações e exercerão o poder político em suas dimensões municipal (vereador) e federal (deputado e senador). A questão, aqui, finalmente, será aquela proposta por Holanda nos idos da década de 1930 de que “O Estado não é ampliação do círculo familiar” e que o já chamado “Clã Bolsonaro” entenda que as esferas da vida familiar e do poder estatal não podem ser confundidas e nem mesmo permeadas. Poderão, todos, pai e filhos, dar sua contribuição à sociedade brasileira cumprindo, como gostam sempre de lembrar, alguns dos postulados dos valores liberais, já bem observados por John Locke em suas obras.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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