Família em mutação

Família em mutação

José Renato Nalini*

23 de dezembro de 2020 | 13h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

A família é considerada a “célula mater”, a base da sociedade. Mas já se pensou em aboli-la, como a mais radical proposta igualitária. Seria a maneira mais simples e direta de se chegar à igualdade.

Quem se abebera do pensamento de Platão, descobre que uma sociedade como a dos guardiões, não se enquadra no nosso conceito de família. Todos os membros ali são parentes, irmãos e irmãs que desconhecem os próprios laços de sangue e que produzem, por uma espécie de incesto cívico, nova geração de crianças. Todos são parentes universais, nunca particulares.

Isso era defensável, à luz do pensamento platônico, porque ausente uma noção objetiva de “meu” e “teu”, sem as exclusividades de pessoas e de coisas, seria menos provável o surgimento de um surto de paixão que viesse a se transformar em violência.

Com isso, inexistiria o indivíduo que arrasta tudo o que pode para dentro de sua própria casa, onde mora sua família particular, o seu centro  de alegrias e tristezas exclusivas. A ideia é a de que todos experimentariam o prazer e o sofrimento como paixões em comum. Todos os sentimentos personalíssimos seriam substituídos por um igualitarismo emocional. E o mesmo ocorreria com os bens materiais. Seria o regime do companheirismo e triunfaria o equilíbrio sobre a intensidade passional.

O propósito de Platão é eliminar as consequências do amor na política da cidade. Com isso, estariam os Guardiões livres da tentação de preferir interesses familiares aos de toda a comunidade.

Idêntica postura adota Georges Orwell em 1984, obra em que a Liga Anti-Sexual tem a missão de eliminar todos os laços de parentesco entre os membros do partido, para que permaneçam inequivocamente vinculados ao Grande Irmão.

Essa fraternidade universal seria fictícia. Seria uma perda do afeto, cuja maior expressão é aquele suficientemente capaz de “mover o sol e outras estrelas”.

Sob outra vertente, a da filosofia moral, a forma ideal de vida ética é aquela em que vigora a lei do altruísmo normativo. Regra universal, que não se subordina a obrigações especiais em relação a parentes ou amigos. Entre salvar meu próprio filho ou o filho de outrem de um perigo iminente, o método a se adotar seria uma decisão aleatória. Isso não seria difícil se eu tivesse eliminado a família e os laços de parentesco. Mas não é real essa forma elevada de vivência ética.

Para nós, os que acreditam na família e na amizade, o possível é traçar o melhor limite possível entre a família e a comunidade e constatar que há distintas intensidades de amor. Há famílias mais carinhosas do que outras. Há filhos mais amados do que seus irmãos.

Chega a ser tocante o amor de alguns pais por seus filhos, a ponto de legitimar atitudes equivocadas e até crimes, o que não seria o melhor exemplo que o genitor poderia ofertar à sua prole.

A vida em família é um laboratório de experiências muito interessantes. Quem não se lembra de Caim que, por ciúmes de Abel, matou-o, no primeiro homicídio na história, segundo a versão judaico-cristã? Nessa mesma tradição, José foi vendido por seus irmãos porque o pai o tratava com evidente favoritismo.

Prepondera na cultura ocidental a concepção de que família é um pequeno Estado, sociedade dentro da qual os filhos aprendem as virtudes da obediência e são treinados para exercer a cidadania.

Só que essa ideia foi aos poucos sofrendo transformações. A chamada “família tipo”, que era composta por um pai a trabalhar para o sustento do núcleo, a mãe responsável por atividades domésticas e pela educação de berço e um casal de filhos, já não é o padrão que se encontra na realidade.

Há inúmeras outras configurações, pois existem filhos produzidos fora do casamento, crianças que não conhecem seus pais, parelhas homossexuais, órfãos criados pelas avós, pois os pais foram ceifados pela droga, pelo crime e pela chacina diuturnamente perpetrada sobre os despossuídos.

Todas as formatações merecem a proteção estatal, porque o que interessa é o reconhecimento da dignidade do ser humano, sobreposta a qualquer formalismo ou modelo puro. E é importante enfatizar que esses núcleos análogos à família continuam a ser os espaços em que vigora o amor, sentimento único a propiciar a esperança de uma sociedade mais humana.

Luc Ferry, em sua vasta obra, reitera a sobrevivência do amor apenas no convívio doméstico, já que desapareceu o “amor à Pátria”, antes tão detectável entre as pessoas. É esse “amor” entre familiares próximos que reacende a perspectiva de um planeta menos irado, violento, cruel e ressentido, como às vezes parece prevalecer. Se existe o sentimento de afeição pura, incondicional e gratuito entre as pessoas, não é impossível que ele também possa extravasar o núcleo íntimo e abranger outros seres humanos, até à edificação de uma sociedade coesa, solidária e fraterna.

Em tempos de pandemia, não custa sonhar com esse futuro, cuja concretização não vai depender de governo algum, nem do Estado, mas é algo que germina em corações sensíveis e providos de vontade de oferecer às novas gerações um mundo melhor.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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