Família de Aécio e ex-diretor de Furnas usaram ‘mesma sistemática’ para abertura de contas no exterior, diz Procuradoria

Família de Aécio e ex-diretor de Furnas usaram ‘mesma sistemática’ para abertura de contas no exterior, diz Procuradoria

Documento foi anexado aos autos de um inquérito em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF) que apura a suspeita de envolvimento do tucano em esquema de corrupção e lavagem de dinheiro na estatal

Rafael Moraes Moura e Teo Cury/BRASÍLIA

24 de janeiro de 2019 | 18h32

Aécio Neves. Foto: Dida Sampaio/Estadão

BRASÍLIA – A família do senador Aécio Neves (PSDB-MG) e o ex-diretor de Furnas Dimas Toledo “utilizaram-se da mesma sistemática na abertura de contas no exterior”, mediante a utilização de um mesmo escritório em Liechtenstein, afirma relatório técnico do Ministério Público Federal (MPF). O documento foi anexado aos autos de um inquérito em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF) que apura a suspeita de envolvimento do tucano em esquema de corrupção e lavagem de dinheiro em Furnas, estatal do setor energético.

Para o vice-procurador-geral da República, Luciano Mariz Maia, há no caso “indícios de práticas criminosas que necessitam de esclarecimento”. A Procuradoria-Geral da República (PGR) pede que a investigação seja prorrogada por mais 60 dias.

Em junho do ano passado, o ministro Gilmar Mendes, do STF, determinou o arquivamento do caso, mas a Segunda Turma do STF, no entanto, acabou decidindo em novembro que a apuração deveria ser prosseguida e concluída dentro de um prazo de 60 dias.

LINHA. Uma nova linha de investigação foi aberta no inquérito com o envio de informações bancárias obtidas por meio de acordo de cooperação internacional firmado com Liechtenstein. No relatório do MPF, foi feita uma análise preliminar dos extratos bancários de contas no exterior vinculadas à família de Aécio Neves e a Dimas Toledo.

De acordo com o relatório, a documentação bancária enviada pelas autoridades estrangeiras revelou a existência de contas bancárias mantidas no exterior por Inês Maria Neves Faria, mãe do senador, pelo ex-diretor de Furnas Dimas Fabiano Toledo e pelo casal de doleiros Norbert Muller e Christine Puschmann.

A Fundação Bogart & Taylor – cuja beneficiária principal é a mãe do senador – foi constituída em Liechtenstein em abril de 2001, tendo Aécio Neves como segundo beneficiário em caso de falecimento da mãe, diz o relatório.

Tanto na criação da fundação quanto na abertura de uma conta vinculada a ela foram usados os serviços do casal de doleiros e de um escritório de administração, aponta o relatório. O mesmo escritório prestou serviços ao ex-diretor de Furnas na abertura de uma outra conta.

O relatório também informa que, ao abrir a conta da Fundação Bogart & Taylor, da mãe de Aécio Neves, foi informado o endereço do doleiro Norbert Muller no Rio de Janeiro para receber as comunicações da fundação – e que as comunicações só deveriam ser feitas em “casos de extrema necessidade”.

ATENÇÃO. O relatório do MPF ainda ressalta que “chama atenção” nos extratos bancários da conta da Fundação Bogart & Taylor que não consta o registro de US$ 21,8 mil dólares em junho de 2001 que teriam sido recebidos de uma empresa sediada no Panamá chamada Hornbeam Corporation.

“O curioso é que na ordem de pagamento houve instrução especial para que não fosse informado o nome do cliente na transação, o que foi prontamente atendido pelo LGT Bank Liechtenstein”, destaca o relatório. “A offshore Hornbeam Corporation (…) aparece na relação do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos no caso conhecido como Panamá Papers, investigação sobre a indústria de empresas offshores utilizadas para ocultar dinheiro e dificultar o rastreamento de seus verdadeiros donos”, ressalta o documento.

Segundo o relatório, a mãe de Aécio Neves possui outras duas contas bancárias mantidas no LGT Bank Liechtenstein, “cujos extratos bancários com as movimentações financeiras não constam no material disponibilizado” pelas autoridades estrangeiras.

Já a conta da fundação Boca da Serra – de Dimas Toledo – alcançou a cifra de US$ 10,1 milhões no dia 31 de dezembro de 2012, de acordo com o documento.

O relatório ressalta que há “diversas contas bancárias vinculadas” ao casal de doleiros que possuem “quantidade significativa de movimentações financeiras”, “que poderão ser analisadas oportunamente”.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE AÉCIO NEVES

Em nota, o advogado Alberto Zacharias Toron disse que a mãe do senador Aécio Neves “foi casada durante quase trinta anos com um grande empresário e banqueiro e criou uma fundação no exterior, cancelada após o agravamento de saúde do seu marido”.

“A fundação movimentou 32 mil dólares ao longo de 6 anos, uma média anual de cinco mil dólares, valores consumidos em honorários, taxas bancárias e de administração. Registre-se que a fundação foi declarada no imposto de renda da titular não havendo portanto qualquer irregularidade”, informou o advogado.

“Após quase 3 anos de investigação e 5 prorrogações, não foi encontrado qualquer indício que vinculasse o senador Aécio às falsas acusações feitas o que atesta de forma cabal a correção dos atos do senador e a nossa confiança no arquivamento do presente inquérito”, disse Toron.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE DIMAS TOLEDO

O advogado Rogério Marcolini disse em nota que a defesa de Dimas Toledo “desconhece o teor de perícia que teria apurado pretensa movimentação de valores no exterior, não teve acesso aos documentos alegadamente examinados e nem tampouco à forma como teriam sido obtidos, adiantando que, tão logo lhe seja franqueado pleno acesso à documentação, pretende questionar tanto a veracidade quanto a legalidade da suposta prova”.

O casal de doleiros Norbert Muller e Christine Puschmann não foi localizado.

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