Faltam semeadores

Faltam semeadores

José Renato Nalini*

08 de junho de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO

Enquanto isso, abundantes são os dendroclastas. Aqueles que, com crueldade e predeterminação, destroem o que não sabem construir: árvores, a cobertura vegetal nativa de um Brasil que já foi verde.

Inacreditável a passividade dos brasileiros, diante dos crimes perpetrados, com evidente estímulo do Estado. O desmanche das estruturas fiscalizatórias anda a par com a eliminação dos agentes que insistem no cumprimento do dever.

Incentiva-se a invasão de terras públicas, seja para destruir a mata e introduzir a pecuária, seja para explorar minérios em terras indígenas.

O extermínio da natureza prossegue crescente e aceleradamente. Ninguém mais acredita nas promessas de ajustamento da conduta governamental aos compromissos celebrados pelo Brasil e insuscetíveis de alteração por qualquer governo transitório.

Faltam mentes lúcidas que freiem a barbárie. Lamente-se o desaparecimento dos semeadores, aqueles que multiplicam as florestas, sem preocupação com a improvável circunstância de sua presença física no momento em que elas estiverem formadas. Alguém, no futuro, se beneficiará da semeadura no presente. Essa é a verdadeira solidariedade intergeracional: plantar enormes espécies, que servirão às gerações do porvir, e não aos semeadores.

Saudades de protagonismos como o de Joseph Beuys (1921-1986), um alemão que completaria 100 anos neste junho de 2021. Na juventude, aderiu ao conceito antroposófico, militando na ciência criada por Rudolf Steiner (1861-1925), o filósofo criador da antroposofia, da pedagogia Waldorf, da agricultura biodinâmica, da medicina antroposófica e da euritimia, esta última criada com a colaboração de sua esposa, Marie Steiner-von Sivers.

Uma concepção antroposófica considera o homem o responsável por tudo aquilo que acontece na natureza. O ser humano dispõe de liberdade para ser um projetista social do futuro e um modelador da realidade em que vive.

O artista alemão escreveu “a revolução somos nós” e elaborou o conceito de escultura social. Pensar é esculpir e qualquer ação que interfira em questões sociais e ambientais constitui arte.

A transformação social é algo que depende da iniciativa individual. Uma boa ação praticada por uma pessoa pode sensibilizar inúmeras outras e, com isso, ganhar escala. Esse é o verdadeiro conceito do lema “a revolução somos nós”. Uma revolução começa na consciência de um indivíduo, antes de inflamar multidões. É disso que o Brasil está precisando com urgência, tanto para a questão ecológica, como para encarar a iníqua desigualdade social e a turbulenta e obscura situação política.

Joseph Heinrich Beuys foi um artista alemão que não permaneceu na pregação de ideias novas. Produziu de forma exuberante, em vários meios e técnicas, incluindo pintura, escultura, fluxus, happening, performance, vídeo e instalação. Ele é considerado um dos mais influentes artistas alemães da segunda metade do século XX e notável disseminador da ideia de que arte, beleza e ecologia são realidades convergentes e convivem na permanente relação existente entre vasos comunicantes. Foi assim que, em 1982, na Documenta realizada em Kassel na Alemanha, Joseph plantou sete mil árvores com a participação daqueles que se convenceram da responsabilidade ambiental que recai sobre todo ser racional. A Documenta é um dos mais importantes eventos artísticos do planeta e tem lugar na Alemanha a cada quinquênio. Daí a repercussão da iniciativa artístico ecológica pioneira, mas que deveria ter sequência em tempos tão sombrios para o ambiente.

Isso faz lembrar o compromisso assumido pelo jovem e saudoso prefeito Bruno Covas, de plantar uma árvore em memória de cada vítima da COVID-19. Para concretizar essa tarefa, imprescindível o envolvimento do poder público, mas também, e principalmente, daquelas pessoas que reconhecem que exterminar a natureza é abreviar o ato final da aventura humana sobre este planeta.

É insuficiente, no atual estágio de depauperação do ambiente, pleitear a cessação do desmatamento. O empenho vigoroso deve-se voltar para o replantio. Semear, plantar, cuidar. Sem preocupação com a quantidade. O que vale é o gesto.

Cabe invocar o velho lema ecológico: “pensar globalmente, agir localmente”. Qualquer pequeno espaço de solo que comporte vegetação é igualmente merecedor do carinhoso gesto de um plantador, com idêntica valia ontológica da recuperação de vastas áreas da Amazônia e dos demais biomas. Para nós, paulistas, é mais do que urgente – e diz com a nossa honorável vocação de cultuar o berço natal -, tentar reverter a tendência de extinção dos resíduos de mata Atlântica que sobreviveram à ignorante insensatez dos que se dizem racionais.

Não há tempo a perder!

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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