Falta de contêineres e frete marítimo subindo: o que está acontecendo?

Falta de contêineres e frete marítimo subindo: o que está acontecendo?

Larry Carvalho*

08 de janeiro de 2021 | 06h30

Larry Carvalho. FOTO: DIVULGAÇÃO

Quem trabalha com comex ou shipping tem reparado que nos últimos meses o mercado tem sofrido com impactos de falta de contêineres e aumento drástico dos fretes marítimos, aliado a uma grande redução do período de free time.

Para se ter noção, o frete marítimo de um contêiner de 40ft da Ásia para o Estados Unidos da América bateu máxima histórica recentemente.

Você deve estar se questionando: qual o motivo disso tudo estar acontecendo ?

Nas últimas semanas tenho visto muitos absurdos sendo divulgados. Diariamente, vejo pessoas culpando transportadores marítimos e os acusando de serem exploradores.

A premissa basicamente é sempre a mesma: armadores subiram frete para compensar o que deixaram de faturar no primeiro semestre.

Calma! Muita calma nessa hora! Compartilho com vocês que a realidade é outra e bem mais complexa.

O shipping enfrenta uma verdadeira “tempestade perfeita”, como os especialistas têm chamado. Uma tempestade gerada pela pandemia!

Durante o lockdown (março-junho) as atividades econômicas globais foram drasticamente reduzidas. Consequentemente, os portos se viram com mão de obra reduzida para movimentação de contêineres.

Como se isso não bastasse, muitas empresas simplesmente deixaram contêineres parados nos portos, seja porque estavam fechadas e não tinham como receber, ou porque simplesmente não possuíam recursos financeiros para pagar impostos e nacionalizar.

Por outro lado, tivemos uma grande redução na quantidade de contêineres sendo transportados.

Portanto, assim como foi feito no setor aéreo, os transportadores marítimos suspenderam linhas deficitárias e aproveitaram para antecipar docagens obrigatórias das embarcações. Consequentemente, reduzindo a quantidade de navios contêineres em atividade.

Entretanto, desde julho as atividades econômicas vêm aumentando progressivamente. Principalmente na China, que, como foi a primeira afetada, conseguiu controlar e retornar à recuperação econômica antes dos outros países. Resultando em uma retomada assimétrica das atividades econômicas globais.

Resultando, assim, em um rápido crescimento das exportações de produtos fabricados na China. Principalmente após setembro, quando historicamente a China começa a enviar para os Estados Unidos e a Europa produtos para as vendas de Natal.

Ocorre que com uma mão de obra reduzida no setor portuário e no setor de transporte rodoviário os contêineres têm demorado para sair do porto, bem como para retornar ao porto vazio. Em alguns países, o tempo para devolução dos contêineres aumentou entre 4/6 dias. Diversos portos têm sofrido com congestionamento devido à lentidão na movimentação de contêineres. Várias nações estão com suas logísticas afetadas e com capacidade reduzida.

Por outro lado, com o número restringido de navios em navegação, os armadores não conseguiram coletar contêineres vazios para fazer reposicionamento de forma a acompanhar a crescente demanda.

A situação tem piorado dia após dia!

Portanto, como forma de tentar resolver o problema de shortage de contêiner, alguns transportadores marítimos vêm reduzindo período free time de contêineres. Enquanto que o mercado, por si só, tem se regulado, com o consequente aumento de fretes em virtude da falta de contêineres disponíveis, principalmente no mercado asiático.

Especialistas preveem que a situação deve melhorar em fevereiro ou março de 2021. A verdade é que só o tempo dirá. Estamos diante de nova onda e novos lockdowns podem postergar a normalidade no setor de transporte marítimo, exercendo maior pressão nos fretes marítimos.

Diversas empresas estão tendo seu supply chain interrompido por falta de navios e de contêineres no mercado, desestabilizando o comércio global. Afinal de contas, o transporte marítimo representa mais de 90% do comércio internacional.

Infelizmente, enquanto os impactos da pandemia persistirem, a “tempestade perfeita” não deve passar!

*Larry Carvalho é advogado e árbitro com experiência em litígios e ênfase em transporte marítimo

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