Falso moralismo

Falso moralismo

Carlos Fernando dos Santos Lima*

14 de junho de 2019 | 17h18

Carlos Fernando do Santos Lima. Foto: Rodolfo Buhrer/Estadão

Quem conhece Melissa de Almeida Araújo? Ultimamente começo minhas palestras com essa pergunta. Invariavelmente não há manifestação na plateia, mesmo que essa psicóloga do presídio federal de Catanduvas, mãe de uma criança de 10 meses, morta pelo PCC na cidade de Cascavel, Paraná, merecesse ser conhecida por todos.

O crime determinado pelo organização criminosa ocorreu após dias de levantamento da rotina de Melissa pelos executores, financiados pelos quase ilimitados fundos dessa facção.

Eles aproveitaram a entrada de Melissa no condomínio, seguiram-na até a garagem de sua casa, trocaram tiros com o seu marido, perseguiram-na residência adentro e a assassinaram com tiros no rosto.

E qual foi o motivo da barbárie? Nenhum, a não ser o fato de que Melissa era servidora pública e o crime organizado, beirando práticas terroristas, desejava incutir o medo dentro do sistema penitenciário federal, considerado por eles ‘opressor’.
E isso não foi um fato isolado, pois antes de Melissa outros dois servidores de presídios federais haviam sido mortos pelos mesmos motivos.

E qual é o ponto?

Simples, nós brasileiros estamos perdendo a guerra contra o crime organizado. E isso vem de muito tempo.

Nos acostumamos com tiroteios na linha vermelha, cenas televisivas de criminosos se revezando para descarregar fuzis em policiais, ‘salve gerais’ fechando comércio, da perda de território nacional para o narcotráfico e milícias, de ônibus incendiados.

Prendemo-nos em casa na esperança de que a violência não nos alcance, enquanto criminosos se vangloriando no Instagram.
Mas, mesmo fechados em casa, outras organizações criminosas violentam nossos direitos. E elas são ainda mais perniciosas que o PCC, que o CV ou milícias.

Estou a falar das organizações criminosas que matam os brasileiros por subtraírem deles a saúde, a educação, a segurança e o próprio emprego.

Essas organizações criminosas são ainda mais nefastas porque você não vê a bala ou ouve o estampido, mas ouve deles que a política é assim mesmo.

Falam isso com a voz melíflua de um Mefistófeles caboclo, crentes em seu direito de roubar só porque foram eleitos em um sistema político-eleitoral criminógeno.
Quando falo isso muitos na imprensa não compreendem.

Como – dizem – você pode misturar esses dois tipos?

É que eu não esteriotipo o criminoso pela cor da pele ou estrato social, não vejo criminosos por serem pretos, pardos ou pobres, mas sim e objetivamente por suas condutas.

E pela nocividade de sua conduta, pois dela resulta, dentre outras coisas, a nossa incapacidade de lidar com a criminalidade violenta. Não e a toa que o estado brasileiro com o problema mais grave de corrupção, o Rio de Janeiro, seja também território do crime organizado.

Em suma, o que estou afirmando é que, em uma longa relação causal, foi a falência do Estado brasileiro que matou Melissa.
E porque digo isso?

Porque assistimos hoje essa farsesca revelação das supostas conversas entre Deltan Dallagnol e Sérgio Moro.

Farsesca não só por estas conversas terem sido obtidas por meio criminoso, mas especialmente porque toda essa divulgação é dirigida a enfraquecer ainda mais aqueles que lutam contra esse estado de coisas.

Farsesca por evidentemente ter sua divulgação objetivo claro de soltar condenados por corrupção, sem que o veículo jornalístico tenha condições de atestar a veracidade dos diálogos ou explique como eles vieram convenientemente cair em suas mãos.

Mas farsesca também porque ninguém discute as evidências de que foram gastos milhões, certamente de origem criminosa, para atacar dezenas de autoridades que ainda se dispunham a lutar, preferindo os espertos (não expertos) ver nas conversas suposta parcialidade de Moro, quando ali só há tatibitate de velhos conhecidos e questionamentos comuns entre operadores do direito, inclusive defesas – afinal, não era a conversa de um ministro com um investigado, não eram mensagens de ministro com réu, ou um advogado andando de bermuda em tribunais superiores.

O crime organizado está reagindo, aproveitando-se do falso moralismo daqueles que só querem impulsionar suas carreiras, da mentira daqueles que tiveram seus interesses contrariados, do oportunismo de aproveitadores, e da ingenuidade dos felizes enclausurados em suas próprias residências, mesmerizados pela falsa sensação de que estão livres de tudo isso.

A Lava Jato errou, mas seu erro foi ter acuado os ratos até eles se obrigarem a se unir e reagir.

Agora o que resta é aceitarmos que o nosso país seja dominado pelo crime organizado, fingindo que vivemos no mundo da fantasia, sempre na esperança de que nossos filhos não sejam novas Melissas, ou então, como a Lava Jato tentou, enfrentarmos tudo isso e botarmos todos os ratos para correr.

*Carlos Fernando dos Santos Lima, Procurador da República aposentado, ex-decano da Operação Lava Jato

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