Falar sobre suicídio é proporcionar vida

Falar sobre suicídio é proporcionar vida

Raul Spitz*

10 de setembro de 2019 | 15h35

Raul Spitz. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nos últimos anos, o Brasil observa um aumento significativo no índice de suicídios. Segundo o Ministério da Saúde, foram registradas, em 2016, 11.433 mortes desse tipo, o que dá uma média de 31 casos por dia – sem contar com os casos não registrados. Muitas questões atravessam esse tema, fazendo com que o tópico ainda seja deixado de lado em discussões importantes, principalmente no meio escolar, visto que crianças e adolescentes também são impactadas.

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O assunto passa pela cabeça de dez entre dez jovens na idade escolar. Alguns têm a oportunidade de falar entre si, outros apenas pensam sobre. Dados do Ministério da Saúde apontam que cerca de 20% das tentativas de suicídio registradas entre 2011 e 2016 foram de crianças e jovens entre 10 e 19 anos. Isso aponta para uma dura realidade: não são estimulados espaços oficiais na escola que trocas sobre os estranhamentos vividos pelos alunos.

A adolescência se inicia com o movimento pubertário de distanciamento, isolamento e crítica dos padrões do comportamento familiar, trata-se de um rito de passagem. Aquela criança que até então era protegida e dirigida pelo outro agora se encaminha para um adulto que precisará se cuidar e realizar e se responsabilizar por escolhas próprias. Um dos maiores desafios desse período é conquistar laços sociais com outras pessoas que façam o adolescente creia em sua existência presente e futura no mundo. É nesse momento de vida que o jovem desloca sua intimidade da família para os amigos reais ou idealizados, o que pode causar tristeza, nostalgia e saudade.

A exigência social é de que se atravesse essa etapa da forma mais bem-sucedida possível. Isso faz com que temores, dificuldades e estranhamentos, que também é comum nesse momento, sejam represados. O que fazer então com tais sentimentos? A recomendação social é guardá-los para manter a imagem de que todos são sempre fortes, decididos e capazes de lidar com os problemas. Dessa forma, o jovem precisa encontrar maneiras de processar o acúmulo desse conteúdo emocional. No entanto, tudo o que precisa ser reprimido pelo sujeito tende a virar angústia ou dor psíquica, logo sofrimento.

Outra característica do período da adolescência é uma mudança importante no registro da linguagem. A criança aprende com os outros ao redor todo o mecanismo da linguagem e seu protagonismo no ato de se comunicar com o mundo. Porém, ainda nessa fase, há a presença de interlocutores que se responsabilizam pela comunicação direta com o mundo e são responsáveis, como pais, irmãos, avós e até professores. Com a chegada da adolescência, a voz do indivíduo ganha, naturalmente, mais representatividade, dando à ferramenta da linguagem um lugar relevante na relação com os outros. Essa alteração de paradigma também pode causar desconfortos, como inibição, vergonha e isolamento, o que acarreta na eventual diminuição do uso da função linguagem.

Como resposta, o jovem pode recorrer a artifícios que acredita serem capazes de ajudá-lo com tais desafios. Um exemplo é a base das atuações, quando são utilizados atos e formas muitas vezes estranhas para emitir uma mensagem ao outro. Em muitos casos, é a forma encontrada para pedir socorro sem usar a fala. Outro padrão é o jovem achar-se sem recursos e habilidades de enunciar suas demandas. Nesse caso, ele se “apaga” enquanto sujeito em detrimento da dor insuportável, atrelando a dor psíquica ao corpo – o que gera, quase sempre, risco. O suicídio e a autoagressão podem resultar dessas duas saídas, sendo vistos como único ato capaz de aliviar o sofrimento. Poder falar sobre o suicídio é dar a oportunidade de se escutar uma dor profunda que habita o sujeito – em todos os sujeitos.

Em suma, todo jovem necessita de um ambiente que possa reconhecer as fragilidades causadas pelo amadurecimento. É importante que a família, a comunidade e a escola desenvolvam a capacidade tanto de perceber os sinais quanto de convidar ao debate sem exigir retorno imediato. Criar espaços abertos à fala daqueles que se encontram com possíveis sofrimentos psíquicos aumenta o repertório do sujeito para que ele possa tomar decisões de forma mais saudáveis.

*Raul Spitz é psicólogo e consultor pedagógico do LIV – Laboratório Inteligência de Vida

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