Falar é fácil: os ditados sob uma nova perspectiva

Falar é fácil: os ditados sob uma nova perspectiva

Ágatha Cristian Heap*

27 de maio de 2021 | 04h00

Ágatha Cristian Heap. FOTO: DIVULGAÇÃO

Os ditados populares têm a capacidade de transmitir sabedoria, aprendizados e valores de maneira que todos conseguem compreender. Não são leis.  Nem regras de conduta. Muito menos julgamentos. São entendimentos que expressam, de forma figurada, comparativa, às vezes até irônica, alguma prática comum de uma determinada sociedade ou grupo social.

Há muito valor em dar ouvidos aos ditados populares. Todos nós vivemos a nossa cultura, através dela, normalmente, reflete-se nosso modo de aprender e como nos moldamos perante o meio social. Nossos comportamentos são aprendidos, a princípio, por imitação e não é natural um olhar crítico sobre nossos costumes cotidianos.

Por isso, é muito relevante a reflexão dos provérbios, pois eles podem nos ajudar a desvendar áreas não percebidas no nosso comportamento e fazer repensar como queremos viver. Com certeza o contexto cultural exerce grande força sobre o indivíduo, mas as pessoas também podem ser agentes de transformação da cultura, tanto para o bem, quanto para o mal.

É interessante analisar onde e como os provérbios se aplicam. Há um que diz: “gato do que usa, acusa”, que nos faz imaginar que existirá desconfiança. Alguns exemplos: o indivíduo acha que todos mentem, porque é mentiroso, ou acredita que todos podem roubá-lo, pois também tem essa prática. Entretanto, tem um outro provérbio que diz: “gato escaldado tem medo de água fria”.

Esse muda um pouco a perspectiva. Talvez a pessoa nunca tenha roubado, mas se já foi roubada por alguém, especialmente num núcleo onde deveria haver confiança (dentro da família, por exemplo) terá a tendência de desconfiar dos outros. Portanto, ao me deparar com uma pessoa desconfiada, me pergunto, será que ela acusa do que usa ou já foi escaldada alguma vez?

Outro ditado que podemos analisar é: “o que não tem remédio, remediado está”.  Seria essa uma postura de preguiça, conformismo e passividade ou uma sincera aceitação de uma realidade aparentemente imutável, onde essa atitude traria paz e descanso?

Considerando que muito da cultura é imitação, a Bíblia, livro sagrado do Cristianismo, apresenta Jesus como o modelo de vida ideal a ser seguido. Nessa biblioteca real que junta 66 livros de gêneros diferentes, escritos ao longo de séculos, com literatura poética, profética, de sabedoria, dentre outras, Jesus chega como ser humano num contexto histórico, temporal e cultural real para confrontar a sabedoria popular com a sabedoria bíblica, de inspiração divina.

Toda cultura tem elementos que devem ser aplaudidos, mas também características que necessitam ser criticadas e repensadas. Brasileiro gosta de falar, por isso, “falar é fácil”. Difícil é fazer, ouvir com atenção, ter um olhar crítico.

“Pimenta nos olhos dos outros” não deveria ser refresco, deveria sim ser limpa, tratada, num comportamento coletivo de verdadeiro interesse com o bem-estar e com respeito mútuo. Jesus é um exemplo de compaixão, de diálogo, de serviço. Com certeza, “quem não se comunica, se trumbica” e a sabedoria bíblica faz um convite à uma comunicação sincera, com escuta, reflexão, empatia e resposta gentil.

Vale a pena se ouvir e se confrontar, olhar ao redor e para dentro de si para se entender. A voz do povo tem muito valor, mas a reflexão vem nos mostrar que nem sempre ela é a voz de Deus.

*Ágatha Cristian Heap é mestra em religião e teologia pela Point Loma Nazarene University, na Califórnia (EUA), e autora da obra A voz do povo e a voz de Deus (Mundo Cristão)

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