Falanges da democracia

Falanges da democracia

João Linhares*

31 de maio de 2021 | 08h00

João Linhares. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

O céu estava em dissenso.

A diáspora era patente.

Deus, desconfiado de um contragolpe –

e isso porquanto Ele adora uma possibilidade de autogolpe

e flerta amiúde com ela –

e querendo aumentar ainda mais o seu poder,

substituiu os 3 comandantes das forças dos serafins.

Fato inédito na caserna angelical,

cuja calmaria e discrição eram o símbolo magno.

Ele, o Senhor de todos,

almejava uma investida contra o inferno,

epíteto que impingira a quaisquer de seus críticos e oponentes…

Afinal, o dono da luz era Ele e apenas Ele…

Não poderia haver brilho em algo mais,

salvo se sob a sua palavra e com a sua condescendência.

O resto eram trevas

tomadas de chamas vermelhas

que aumentavam as labaredas à esquerda do paraíso…

Porém o comandante dos serafins

e o marechal dos arcanjos

ponderaram que a paz era imprescindível.

Argumentaram que Deus poderia tudo,

exceto acabar com o todo.

Era um paradoxo!

Havia limites intrínsecos,

cláusulas pétreas inalienáveis…

Acima das discrepâncias,

haveriam de pairar a concórdia e a sobrevivência!

E a trindade tinha de ser preservada,

até porque a Constituição do Céu previa

Três Poderes: Pai, Filho e Espírito Santo.

Logo, um deles não poderia governar sozinho.

E esta baliza precisava ser assegurada,

sob pena de sucumbir a ordem maior,

a regência universal que mantinha os antagonistas coexistindo…

Mas Deus (pai), na sua infinita ira,

colocando-se acima de tudo e de todos,

resolveu exonerar sumariamente os comandantes:

afinal, a caneta era dele.

Ele mandava e os outros deveriam obedecer-lhe.

E fê-lo. Quem ousava questioná-lo era traidor.

Todavia não esperava que a tinta se esgotasse tão de chofre.

E que os demônios tomassem as ruas

e se aglomerassem,

gritassem, fizessem carnaval mascarados

e transformassem o inferno

num bálsamo,

cuja casa pertencia aos desordeiros.

Quanto mais democracia,

menor era o poder de Deus,

menor a sua onipotência e

maior a pluripotência das ruas…

E todos dançaram o carnaval do amor,

abraçados e sem medo da morte,

já que o bafo da imortalidade

sobejava em cada um daqueles

humildes titãs que simplesmente aspiravam à

vida, dignidade,

igualdade, ao respeito e à solidariedade.

Enfim, na democracia, não há locais para deuses.

As ruas tremeram…

E Deus caiu dos céus entre os mortais.

Fez-se conhecer como errante e frágil.

Só ELE NÃO sabe disso ainda…

*João Linhares, promotor de Justiça do Ministério Público de MS. Mestre em Garantismo e Processo Penal pela Universidade de Girona – Espanha. Especialista em Controle de Constitucionalidade e Direitos Fundamentais pela PUC – RJ. Integrante da Academia Maçônica de Letras de MS

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