Fake news e velhas mentiras

Fake news e velhas mentiras

Ericson Savio Falabretti*

06 de outubro de 2020 | 09h05

Ericson Savio Falabretti. Foto: Divulgação

Sustentar que o aquecimento global é uma invenção, que a terra é plana, que a Covid-19 não passa de uma gripezinha que mata somente velhos e doentes, que o holocausto não existiu, que não há racismo no Brasil são falas que deixaram, há muito tempo, de serem espécies de fake news. São argumentos ultrapassados. Diria ainda que são old lies.

Todos os argumentos, todos os alertas e todos os dados sobre a necessidade urgente de repensarmos o nosso modelo de vida, de produção e consumo para revertemos a degradação ambiental e todos os seus efeitos, como o aquecimento global, já foram ditos, ensinados, debatidos e repetidos em alto e bom som. Todo mundo sabe, principalmente os líderes dos mais diferentes segmentos da sociedade, que o planeta Terra é um sistema vivo e complexo no qual uma determinada ação afeta o conjunto inteiro. Assim, para manter o elevado consumo de carne temos que criar mais animais em cativeiro, ter mais áreas de pastagem ou, ainda, produzir mais grãos. Isso implica em mais desmatamentos, mais queimadas, mais produção de gases e, por extensão, mais degradação ambiental.

Quem ainda não ouviu falar sobre essa receita do caos ambiental que estamos praticando? Estamos cansados de ouvir isso. Quem acha que esse sistema de causalidade destrutiva não é verdadeiro? Ninguém, pois sentimos os efeitos na pele. Mas quem se importa de fato com o caos ambiental? Poucos. Portanto, nosso problema maior não está na produção massiva de mentiras e fake news, mas na nossa capacidade de sermos ou não sensibilizados pelos fatos e pela situação. O aquecimento global chegou, as geleiras estão derretendo, as florestas estão queimando, o clima já é outro, sabemos e vivemos com esses fatos.

Quem vive no Brasil, seja branco ou negro, sabe que o resultado de anos de escravidão foi uma sociedade desigual e de oportunidades amplamente favoráveis aos brancos. Não temos apenas mais brancos em cargos de liderança, ganhando maiores salários e estudando nas melhores universidades. Todos sabemos que temos praticamente só brancos nas melhores posições de trabalho, nas melhores escolas, ocupando os melhores leitos de hospital e vivendo em casas-grandes modernas.

O problema das fake news não está sua imprecisão lógico-causal, na sua falta de clareza e distinção, mas no valor e uso que fazemos delas. O que confere validade às fake news, entre outras coisas, é o seu uso prático e sua função moral. Essas velhas mentiras são sustentadas pelo nosso sistema de consumo e riqueza, pela força capitalista que regula a ordem normalizando a morte pandêmica, a desigualdade e a degradação ambiental pela mentira e a negação. Com as fake news, apesar dos fatos, continuamos a consumir mais, a destruir mais e, o mais importante, a suportar viver com a tranquilidade dos justos apesar do presente, do passado e do futuro que deixaremos como legado.

*Ericson Savio Falabretti é Doutor em Filosofia e Decano da Escola de Educação e Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e palestrante do II Congresso Humanitas promovido pela PUCPR.

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