Fake news e polarização política: como fazer melhores escolhas

Jayme Neto*

24 de julho de 2020 | 16h40

Jayme Neto. Foto: Divulgação

Estamos vivendo em uma era onde a comunicação vai além da necessidade humana.

A busca e o consumo de informação tem se tornado constante e, às vezes, caímos em uma das maiores chagas da sociedade atual: as “fake news”. Esse consumo involuntário e quase que acidental de uma fakenews muitas vezes acaba revelando o caráter e a educação de quem consumiu e/ou repassou a notícia falsa. O simples fato de não verificar a finte e sua veracidade da mensagem antes de repassa-la torna o seu emissor um disseminador intencional de notícias falsas e de confusão da opinião alheia.

Digo isso porque é comum, principalmente em grupos de Whatsapp, seja em grupos de família e trabalho, uma constrangedora retratação de quem enviou e/ou consumiu a fake news de forma involuntária.

Afinal, em quem e no que acreditar? Há quem diga que estamos diante do “Paradoxo da Escolha”, pois, ao ter variadas possibilidades sobre tudo, a sensação é de ter cada vez menos opções reais.

Há também aqueles que tentam empurrar uma fake news como verdade absoluta, adotando a máxima do Ministro da Propaganda nazista Goebbels: “uma mentira contada 1000 vezes se torna verdade”.

Quando a pessoa acredita na própria mentira e tenta convencer o outro, isso termina causando sérios danos. Não me refiro nem somente aos danos patológicos, como também aos danos sociais. Esses danos, quase sempre, são irreparáveis e custam vidas.

Recentemente, vimos uma tentativa de deturpação de um fato e a criação de uma fakenews pela conta pessoal do twitter do presidente da república. Me refiro à conta de forma genérica, pois nunca veio a público quem realmente opera ela: um assessor? O filho? O próprio Jair? Isso será uma daquelas verdades difíceis de desvendar.

Pois bem: após a votação do FUNDEB na Câmara dos Deputados – o projeto encaminhado pelo governo foi DERROTADO -, foi feito um post no Twitter na conta pessoal do presidente da república, como se ele, Jair, fosse o grande benfeitor daquela medida. O que não é verdade.

Assim como fez na votação do auxílio emergencial, Jair Bolsonaro tentou manipular a opinião pública para “sair bem na foto”. E assim ele fará, consecutivas vezes, sempre que a realidade não for a que ele sonha ou até aquelas que sejam contra ele.

O atual governo se utiliza dessa manipulação na comunicação de forma sistêmica e isso é nocivo, interferindo diretamente na vida das pessoas. Não só dos seus adoradores e fieis seguidores, mas também, na vida dos seus opositores e dos que, assim como eu, nem amam e nem odeiam.

Diante disso, surge um questionamento: a quem beneficia a polarização? Não sei responder. Eu sei a quem ela não beneficia: a sociedade.

Por causa da atual polarização política, não somente Bolsonaristas X PTistas, vemos rachas e brigas em diversas esferas sociais. Em casa, no trabalho, nos locais de lazer, na cultura, etc. Se você gosta do vermelho, automaticamente você não pode, ou não deve, gostar do azul, quiçá do amarelo. Se você curte rock, não pode curtir pagode e vice-versa.

Nossa sociedade precisa ser repensada e a pandemia está nos dando essa possibilidade. Há quem diga que são elementos sincrônicos, onde nada é por acaso.

Aqui na Bahia, até pouco tempo, as torcidas do Vitória e do Bahia entravam e saiam JUNTAS dos seus respectivos estádios. Cansei de ir a shows no Festival de Verão porque tinha um mistura bastante eclética de bandas nas suas grades de programação. Era possível, numa única noite, começar com rock, passar por reggae, sertanejo, axé e finalizar a noite com um pagode. Isso só acontecia porque o festival era realizado no famoso e turístico verão da Bahia, onde todas as tribos e classes se encontram e se relacionam de forma harmônica.

Inclusive, a pandemia mostrou que a tolerância baiana e o espirito de solidariedade do seu povo supera qualquer divergência ideológica. Em qual estado do país, se não a Bahia, poderia se imaginar um governador do PT tomando decisões em total sintonia com um prefeito (e presidente nacional) do DEM? Só aqui. Foi aqui que o Brasil nasceu, cresceu e se tornou independente de Portugal, mas, por algum infortúnio do destino, perdeu seu rumo.

Então, por que não dar chance às práticas que não agradem a polarização? Por que não criar caminhos intermediários para soluções que beneficiem o povo como principal foco na solução de problemas?

Estamos em um processo de retomada de confiança por partes de eleitores e cidadãos, que veem na ausência de polarização um caminho que beneficia a população, que só tem a ganhar com os múltiplos benefícios dessa irreverente parceria.

Um exemplo disso é que, boa parte das medidas emergenciais que o Ministro Paulo Guedes, acertadamente, adotou, veio de um deputado um partido declaradamente de oposição, através da figura de Alessandro Molon (PSB-RJ), sendo a nova face da esquerda.

Polarizar é, assim como disseminar e consumir as famosas fake news, um erro que nos custa caro, porque indica que poderíamos ser mais seletivos nas nossas escolhas, sendo paradoxais, ou não.

*Jayme Neto, publicitário e empresário

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.