FaceApp x Cambridge Analytica

FaceApp x Cambridge Analytica

Simone Stoffel*

24 de julho de 2019 | 05h00

Simone Stoffel. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nada de novo no episódio do FaceApp e sua coleta inadequada de dados.

Explico.

Em 2014, um pesquisador da Universidade de Cambridge desenvolveu um aplicativo chamado thisisyourdigitallife. Por meio deste aplicativo as pessoas faziam um teste de personalidade sobre sua vida digital.

Este aplicativo estava vinculado ao Facebook e sua finalidade era, até então, a coleta de dados para fins acadêmicos.

Entretanto, além dos dados das pessoas que fizeram o teste, o aplicativo coletou, também, todos os dados dos amigos do perfil de quem realizou o teste, o que resultou na coleta de dados de mais de 50 milhões de usuários do Facebook, a maioria deles, eleitores norte-americanos.

Como isso foi possível? Em razão de uma brecha na política de privacidade do Facebook que permitia que aplicativos externos pudessem coletar estes dados, desde que utilizados para “melhorar a experiência do usuário no aplicativo”.

Ainda em 2014, a empresa inglesa de análise de dados, Cambridge Analytica, que trabalhou para a campanha de Donald Trump à presidência dos EUA em 2016, comprou este banco de dados. Segundo a investigação dos jornais The Guardian e The New York Times, esses dados teriam sido usados para catalogar o perfil das pessoas e, então,
direcionar, de forma mais personalizada, materiais pró-Trump e mensagens contrárias à adversária dele, a democrata Hillary Clinton.

A Cambridge Analytica, que não guarda relação com a Universidade de Cambridge, também trabalhou para o grupo que promovia o Brexit e que culminou com a saída do Reino Unido da União Europeia em 2017, utilizando-se do mesmo banco de dados e mesma sistemática, investiga-se.

Os fatos acima descritos e que seguem sendo investigados pelos EUA e União Europeia, ficaram conhecidos como o escândalo do Cambridge Analytica.

Este escândalo trouxe ao conhecimento de toda a sociedade o elevado grau de organização e inteligência atualmente empregados por empresas e governos sobre nossos dados, não nos sendo mais permitido ignorar o assunto.

Talvez daqui alguns anos saberemos, afinal, para quais fins estes dados coletados pelo FaceApp, empresa sediada na Rússia, foram utilizados. O Senado americano, noticia-se, já requereu ao FBI a abertura de uma investigação.

Sim, seus dados importam! Importam tanto que, dependendo de como e por quem forem processados, podem interferir na geopolítica do planeta.

*Simone Stoffel, advogada, especialista em Direito Digital e Proteção de Dados

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