Fabricando desertos

Fabricando desertos

José Renato Nalini*

20 de junho de 2022 | 11h30

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Enquanto países civilizados conseguem usufruir das tecnologias resultantes da Quarta Revolução Industrial e oferecer nível de vida saudável e próspero a seus cidadãos, o Brasil se especializa em outra área: a fabricação de desertos.

Não bastasse a destruição da Amazônia, a drástica redução do verde que existia na Mata Atlântica, os incêndios no Pantanal e a poluição marítima, a caatinga vai se convertendo rapidamente em deserto. Metade dela já foi desmatada. É o que apuraram pesquisadores das Universidades Federais do Rio Grande do Norte, do ABC e da USP.

A caatinga é um bioma exclusivamente brasileiro, a região conhecida como semiárido. Mais da metade dela já foi desmatada. Cerca de 13% do território da caatinga encontra-se em avançado estágio de desertificação e isso significa risco concreto de extinção de espécies. São cerca de 3.150 vegetais, 548 aves, 371 peixes, 183 mamíferos 98 sapos e 79 lagartos. Das plantas, 702 só são encontradas na caatinga. O que significa extinção total se a desertificação prosseguir nesse ritmo.

Todos sabem o que ocorre e não é novidade para ninguém. Faltam políticas públicas eficientes e consciência ecológica responsável. A caatinga possui cerca de dez mil microbacias, das quais 939 são consideradas de alta prioridade para uma urgente restauração. 86 foram consideradas de prioridade máxima. Ocorre que desse estudo, embora publicado na revista científica Journal of Applied Ecology, o governo não toma conhecimento. Está envolvido em reeleição, em favorecer emendas parlamentares, em sacramentar orçamento secreto, em intensificar a polarização ideológica, pois o que interessa é a manutenção do poder. Não a preservação da natureza. Natureza não vota e não é levada em consideração pelos “representantes” do povo.

Como a vegetação da caatinga não é fechada como a da Floresta Amazônica, é muito fácil adentrar nela e exercer atividades que aprofundam a sua vulnerabilidade. A criação de gado é uma delas. O gado invade as áreas, pisoteia, defeca, tudo isso prejudica a regeneração e manutenção das espécies que, sem a intervenção humana, poderia se tornar uma área de proteção de inúmeras nascentes, essenciais para um território de natural secura.

Inimaginável contar com a ação do governo, em fase na qual o ministro contra o meio ambiente sugeriu “soltar a boiada” da flexibilização de controle e de fiscalização, valendo-se da atenção voltada para a pandemia que mal se iniciava em março/abril de 2020.

Não existe mais tutela ambiental no Brasil, ressalvado em minúsculas áreas mantidas por particulares. Todo o esquema de proteção lentamente edificado ao longo de décadas, foi desmontado. O governo sequer se interessa por programas de restauração que assegurassem a existência da luxuriante biodiversidade natural, mas também os ignorados serviços ecossistêmicos – todos gratuitos – a qualidade da água e do ar, os serviços de polinização e a manutenção de paisagens cuja destruição as tornará definitivamente desaparecidas.

A caatinga estende-se por nove estados do Nordeste e pelo norte de Minas Gerais. Quase trinta milhões de brasileiros vivem nela. Diversamente de outras zonas semiáridas que existem no planeta, a caatinga brasileira é mais biodiversa, tem o maior conjunto de espécies de fauna e flora, inclusive algumas endêmicas, que só existem no Brasil.

A desertificação se propaga. Começa com os incêndios provocados na Amazônia. Em seguida, prepara-se o terreno para pasto. Depois de um tempo, essa área já não serve para a pecuária. É abandonada.

A própria Ministra da Agricultura, que muitos consideram pessoa lúcida, já admitiu que o Brasil não precisaria cortar sequer uma árvore para continuar a ser o “celeiro do mundo” – aliás, celeiro que abastece o gado dos países importadores – e que o replantio das terras devastadas e ociosas garantiria o mínimo de verde necessário à mais saudável qualidade de vida.

O cenário é de um real pessimismo. Se a Amazônia, que chamou a atenção de todo o mundo, continua a ser objeto de extermínio, entregue à criminalidade organizada, com a desenvoltura de grileiros, dendroclastas e garimpeiros ilegais, se índios continuam a ser sacrificados e até jornalista inglês é eliminado quando se propunha a relatar ao mundo o que se passa neste lado dos trópicos, o que se dirá da caatinga? Ela não vota. Portanto, não entra no radar da política partidária profissional desta nação.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-202

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