Fábrica de ódio

Fábrica de ódio

José Renato Nalini*

29 de agosto de 2020 | 13h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

A conectividade gerada pelo avanço das tecnologias da comunicação e informação é fenômeno irreversível. Uma vez que assumimos os mobiles como extensão de nossos membros e de nosso cérebro, nunca mais nos livraremos deles. Ao contrário, a internet das coisas propiciará situações que a ficção científica não ousou prever.

As vantagens são manifestas. Deslocar-se não é mais necessário para conversar com pessoas que estão em qualquer parte do globo. A pandemia evidenciou que o trabalho à distância não só é perfeitamente possível, como bem mais produtivo do que a prisão do escritório, ou da repartição, ou do gabinete. O Judiciário que o diga: tudo se tornou viável, com ganho em eficiência e qualidade. O milagre seria a aceitação dessa realidade e a liberação das amarras que exigem grandes estruturas, crescimento vegetativo, investimento em edifícios que já não são necessários.

Mas não há bem absoluto, sem que algo a ele se contraponha. As redes sociais mostraram-se perverso instrumento para capturar as consciências. Não são apenas os desprovidos de discernimento que se deixam manipular. Todos somos seres complexos, preconceituosos, com verdades inflexíveis. Nossa vocação primeva é egoísta. Fazemos um diagnóstico da realidade e se ela não coincidir com a verdade, isso não altera a minha convicção. Talvez até intensifique minha teimosa obstinação.

Foi a partir da constatação das vulnerabilidades mentais do ser humano que cérebros atilados construíram esquemas de controle do comportamento. Quem não leu ainda, deve fazê-lo, a instigante análise de uma fatia do que se provoca no mundo, feita por Giuliano Da Empoli, autor de “Os Engenheiros do Caos”. O subtítulo diz menos do que a obra: Como as fake News, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar, ódio, medo e influenciar eleições.

Essas inteligências se valem daquilo que já foi chamado “o mal estar” da humanidade. A descrença nas instituições, a começar pela Democracia Representativa, pois ninguém mais se sente efetivamente representado, abre as portas para uma série de consequências. Desanimados com a política, decepcionados com os governos, desconfiados das elites, as pessoas de repente ganham força e protagonismo com os seus celulares.

Quem era consumidor de notícias, passou a ser produtor delas. Quem não era ouvido, nem podia se manifestar, encontrou um nicho. Exerce o seu direito à livre expressão. Qualquer seja ela.

Ingressar em estruturas eletrônicas disponíveis alimenta a ilusão de ser alguém diferenciado. Fortalece a ideia de pertencimento: dialogo, recebo e emito mensagens. Além disso, colecionar milhares de “amigos” nas redes supre a solidão compartilhada em que tantos vivem, à espera da mais democrática das ocorrências: a morte.

Só que isso não ameniza a raiva. O ressentimento é algo ínsito aos humanos. Eles não conseguem se alegrar com o sucesso alheio. Se alguém se destaca, foi em virtude de uso inadequado de vantagens subtraídas aos demais. Não é difícil encontrar a inveja do mais rico, do mais bonito, do mais poderoso, do mais famoso. A figura do “bom patrão” e do “bom político” é ficção. No fundo, quem não está no pódio gostaria de estar lá. E não aposta na boa-fé daquele que chegou.

Valendo-se dessa fissura de caráter, os experts conseguem que os algoritmos identifiquem as mágoas e estas podem ser solidificadas mediante a inserção de reforços. O resultado é a edificação de uma robusta muralha preconceituosa, que impulsiona a hostilidade contra o diferente.

Quem é o diferente? É quem não pensa da mesma forma. Pode ser a raça, a cor, o sexo, a religião. Já não consigo enxergar a comum identidade entre cada ser humano, na sua singularidade irrepetível, mas gostaria de que todos fossem iguais e pensassem da mesma forma.

Os que não perceberam que o mundo é outro e que todos são porta-vozes de si mesmos, ficaram no ostracismo político. Os que venceram exploraram os filões minoritários e neles investiram, a cada qual endereçando mensagem quase que individualizada. De tanto ouvir aquilo que se quer ouvir, o simpatizante vira fanático. E com o fanático não se consegue mais dialogar. Só existe uma verdade. A dele mesmo.

A tragédia é que o ingrediente utilizado para a obtenção de uma inquebrável fidelidade é o ódio. A indústria do ódio prospera a olhos vistos. Há muitas fábricas em funcionamento. Será que não somos consumidores de seus produtos?

A verdade não tem qualquer compromisso com essa nova maneira de se fazer política. O que é que nos espera?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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