Extratos de contas suíças de suposto operador do PSDB chegam ao Brasil

Extratos de contas suíças de suposto operador do PSDB chegam ao Brasil

Documentos bancários que indicam R$ 113 milhões em nome de Paulo Vieira de Souza, ex-diretor da Dersa, foram transmitidos aos investigadores brasileiros pelo Ministério da Justiça do país europeu

Jamil Chade/GENEBRA

24 de outubro de 2018 | 11h23

Paulo Vieira de Souza. Foto: ROBSON FERNANDJES/AE

Os extratos bancários das contas na Suíça do ex-diretor da Dersa, Paulo Vieira de Souza, chegam ao Brasil, depois de quase um ano de trâmites legais e uma novela nos tribunais na Suíça. Nesta quarta-feira, o Escritório Federal de Justiça em Berna – equivalente ao Ministério da Justiça – confirmou que os dados foram transmitidos às autoridades brasileiras.

A coleta de dados é considerada como fundamental para identificar quem se beneficiou e quem pagou por mais de R$ 113 milhões registrados nas contas de Vieira de Souza, considerado como o operador do PSDB. A esperança dos investigadores é de que, com os extratos, o caminho do dinheiro possa ser revelado. Ele é suspeito de ter promovido desvios de verbas.

Num comunicado emitido ainda na semana passada, o Escritório do Procurador Geral da Suíça afirmou que “transferiu os resultados ao Escritório Federal de Justiça”. Isso significa que, na prática, a coleta de dados dos bancos já foi encerrada.

A pasta da Justiça, por meio de um email oficial, explicou à reportagem que recebeu a documentação relativa a Paulo Vieira de Souza na segunda-feira da semana passada e que, cinco dias depois, encaminhou os dados ao Brasil. “Podemos informar que os documentos foram enviados ja na semana passada às autoridades brasileiras”, confirmou Folco Galli, porta-voz do Escritório Federal de Justiça, nesta quarta-feira.

Documentos obtidos pelo Estado nos tribunais suíços ainda revelaram que existiu uma coincidência entre transferências “importantes e regulares” para as contas no exterior e o momento em que o ex-diretor teria realizado supostos desvios.

O dinheiro já não está na Suíça, já que foi transferido em 2017 para contas em Nassau. Mas tão importante que os ativos é a informação sobre os pagamentos, o que será em parte explicado graças aos extratos das movimentações.

Assim como o ex-deputado Eduardo Cunha e mesmo a Odebrecht, Vieira de Souza abriu todos os processos judiciais necessários para impedir que suas informações fossem repassadas ao Brasil. Mas sofreu derrotas em todos os níveis da Justiça da Suíça.

Berna confirma que foram eles quem primeiro repassaram, de forma espontânea, a informação da existência das contas ao Brasil envolvendo Vieira de Souza. Em 2017, as autoridades suíças encontraram R$ 113 milhões (35 milhões de francos suíços) em quatro contas no país europeu em nome do ex-diretor da Dersa. Ele comandou a estatal paulista entre 2007 e 2010, período que compreende o mandato do ex-governador José Serra (2007-2010), do PSDB.

Poucos meses depois do primeiro contato entre os suíços e o Brasil, no entanto, em novembro de 2017, a Procuradoria em Berna indicou que recebeu um pedido de cooperação por parte do Ministério Público Federal para que os dados fossem aprofundados. “O Escritório do Procurador-Geral da Suíça pode confirmar que, nesse contexto, o Departamento de Justiça Federal nos delegou um pedido de assistência legal por parte do Brasil em novembro de 2017”, disse o MP suíço, num email à reportagem.

O trabalho dos suíços foi o de coletar, no Banco Bordier & Cia, todos os extratos e documentos de transações relativas às quatro contas, desde o dia de sua abertura, em 2007, até hoje.

As contas estão vinculadas a uma offshore panamenha chamada Groupe Nantes e, ainda no ano passado, o suspeito teria transferido os ativos para um outro paraíso fiscal, nas Bahamas. A suspeita dos investigadores é de que o dinheiro teria saído da Suíça diante do avanço das apurações do MP suíço contra brasileiros citados em casos da Lava Jato.

As contas, mesmo assim, passaram a ser congeladas e, mesmo que os valores já não estejam mais na Suíça, a esperança dos procuradores é de que os extratos e documentos bancários ajudem a elucidar a origem dos recursos e quem, durante quase uma década, teria sido beneficiário de depósitos com origem nessas contas.

COM A PALAVRA, A DEFESA
Procurada pela reportagem na semana passada, a defesa de Paulo Vieira de Souza indicou que iria esperar o trâmite legal da cooperação entre os suíços e o Brasil para se pronunciar.

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