Experts em blá-blá-blá

Experts em blá-blá-blá

José Renato Nalini*

01 de outubro de 2020 | 08h00

José Renato Nalini. FOTO: HELVIO ROMERO/ESTADÃO

Se existe um consenso mínimo neste Brasil do dissenso, é o de que a educação é o maior problema brasileiro. Maior do que o da destruição da biodiversidade? Evidentemente maior. Povo educado não permaneceria inerte, vendo o extermínio do amanhã nesse torpor. Povo educado reagiria. Povo educado é povo comprometido com o destino comum da humanidade.

Ocorre que a educação tem muitos especialistas. Todos são experts no tema. Dão entrevistas, criticam, diagnosticam e receitam. Alguém já se preocupou em arrolar qual a tonelagem de teorias, doutrinas e ensaios que solucionam o problema educacional tupiniquim?

Proliferam as entidades do Terceiro Setor que se devotam à causa do ensino e aprendizado. Cada qual com sua vertente, mas em regra pretendendo especializar-se em avaliações e elaboração de rankings. Poucas atentas ao fato incontornável de que nossos sistemas colapsaram por falta de oxigênio. A velha indagação de Michel de Montaigne em seus Ensaios: trancam-se durante várias horas dezenas de educandos no mesmo espaço, enfileiram-nos em retas paralelas, submetem-nos ao suplício de aulas prelecionais nem sempre interessantes e depois o insólito estranhamento. Menos de uma dezena deles “dá certo”, de acordo com as expectativas de uma sociedade que se perdeu e não sabe encontrar o caminho.

Aquilo que governo boa parcela de educadores ainda não percebeu, a empresa detectou. E não é novidade. A Universidade Corporativa da GM surgiu em 1927. É a resposta da necessidade à insuficiência da escola. Adestrar crianças e jovens para decorar informações é uma falácia dispendiosa. A educação foi atropelada pela Quarta Revolução Industrial e a inteligência artificial mostrou-se muito superior ao embotamento da inteligência humana. Tanto que se prenuncia já não ser necessária outra invenção. A partir de agora, a Inteligência Artificial cuidará de suprir a humanidade de tudo aquilo que ela vier a necessitar.

Não é preciso ser gênio para concluir que a escola, assim como estruturada, não dará conta do recado. Tudo o que era binário passou a ser quântico. A economia já percebeu que precisa ser circular. Assim também, a educação clama a urgência de se tornar sistêmica. Em todos os níveis, sob todas as formas, absorvendo na prática o princípio pluralista, encartado no pacto fundante e nem sempre levado a sério.

Não há mais lugar para homogeneidades e padronizações. Isso poderia servir para estudar formigueiros, colmeias e outras formas gregárias irracionais. O ser humano é heterogêneo, singular, irrepetível. A individualização do ensino deixa de ser utopia, se o docente vocacionado vier a ser estimulado para um acompanhamento particular de cada aluno.

O universo do conhecimento está disponível e acessível a toda criatura curiosa. Em lugar de reprimir a curiosidade, a escola contemporânea precisa incentivar a sua contínua e crescente exploração. O professor orientará o discípulo a filtrar a inflação informativa e a saber manejar os saberes de que vier a necessitar. Sem insistir na memorização, pois encontrar o dado necessário é uma resposta instantânea e propiciada a quem dispuser de um mobile. E o Brasil, dizem as estatísticas, possui cerca de 270 milhões de mobiles para uma população de cerca de 212 milhões de pessoas.

O aprendizado haverá de ser just-in-time em lugar de just-in-case, na linguagem do jornalista Thomas Friedman, um lúcido observador da realidade. Isso significa que, depois de uma certa base em leitura, escrita e aritmética, o mais terá de ser aprendido à medida em que os desafios surjam. Pois as profissões que ainda costumamos indicar às crianças, não existirão dentro em algumas décadas.

O uso do ensino online veio para ficar. Ele deverá complementar e o fará de maneira muito superior à capacidade expositiva, os encontros pessoais. E estes não poderão mais concentrar grande quantidade de aprendizes, com substituição desse método superado por um acompanhamento pessoal e direto.

Os grandes edifícios serão destinados a outras utilidades. A escola ganhará todos os espaços. Não se resumirá à reclusão dos alunos, trancados durante horas, com a frequência e assiduidade controlada. Uma educação menos opressiva cumprirá melhor as finalidades da escola: qualificar para o exercício da cidadania, capacitar para o trabalho – veja bem, não para o emprego, que este se extinguirá… – e, principalmente, fazer desabrochar em plenitude o ser humano.

Há uma potencialidade imensa a se lapidada, mas não é com aulas repetitivas e maçantes que ela florescerá. O professor continua imprescindível, mas o seu design precisará ser outro.

Talvez com isso não concordem os experts, que preferem o blá-blá-blá de suas posturas arrogantes e carcomidas, resistentes a qualquer transformação, enquanto o ensino degringola e a juventude passa a odiar a escola, um lugar que deveria ser de acolhimento e de alegria.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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