“Existia um esquema de ganha-ganha nessa organização criminosa”

“Existia um esquema de ganha-ganha nessa organização criminosa”

Procurador Rodrigo Timóteo, da Operação Unfair Play, que prendeu Carlos Nuzman nesta quinta-feira, 5, diz que ao grupo supostamente liderado pelo ex-governador Sérgio Cabral 'não bastava ganhar as Olimpíada'

Julia Affonso e Fausto Macedo

05 de outubro de 2017 | 16h04

Carlos Arthur Nuzman. Foto: REUTERS/Bruno Kelly

O procurador da República Rodrigo Timóteo, que integra a força-tarefa da Operação Unfair Play – desdobramento da Lava Jato que nesta quinta-feira, 5, prendeu o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman -, disse que era um ‘ganha-ganha’ o esquema de corrupção internacional montado para trazer os Jogos Olímpicos para o Brasil, em 2016.

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“Chamamos de ganha-ganha porque não bastava ganhar as Olimpíadas. A organização criminosa, através ao menos de quatro pessoas diretamente envolvidas na organização criminosa (Sérgio) Cabral recebeu, de alguma forma, benefícios na realização da Olimpíada”, declarou o procurador.

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Sérgio Cabral está preso desde novembro de 2016, condenado por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Ele teria construído um alentado patrimônio com propinas milionárias recebidas de empresários ao longo de seus dois mandatos.

A Unfair Play chegou ao ouro de Carlos Arthur Nuzman, 16 barras do metal precioso estocadas no cofre de um banco na Suíça. Segundo a força-tarefa do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, nos últimos 10 anos dos 22 anos de presidência do COB, Nuzman engordou seu patrimônio em 457%.

Para os investigadores, ‘não há indicação clara de seus rendimentos, além de manter parte de seu patrimônio oculto na Suíça’.

“Sobre esse valor das barras de ouro não tem no imposto de renda o correspondente de origem, ou seja, é um valor que está a descoberto, um total de R$ 2 milhões que não tem uma origem, um lucro, não tem um rendimento que justifique essas barras de ouro”, disse a procuradora Fabiana Schneider. “Enquanto os medalhistas olímpicos buscam a sua tão sonhada medalha de ouro, dirigentes do Comitê Olímpico guardavam o seu ouro na Suíça.”

Rei do ônibus. Ao pedir a prisão de Nuzman, a Procuradoria apontou para o empresário Jacob Barata Filho, o ‘rei do ônibus’ do Rio. Barata Filho foi preso pela Polícia Federal em 2 de julho, na Operação Ponto Final, que pegou a cúpula dos transportes fluminense. Em agosto, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF) colocou o empresário na rua.

Segundo a Procuradoria, ‘empresas de Jacob Barata Filho foram beneficiadas em contratos firmados com o Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos Rio 2016’.

“No esquema ganha-ganha, mais um integrante da organização criminosa, e que pagava propina a Sérgio Cabral, também lucra com a realização dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro”, afirmou o Ministério Público Federal, ao mirar Barata Filho.

A PF apreendeu, na primeira fase da Unfair Play, um contrato ‘em que as empresas que formam o Consórcio Rio de Transportes são contratadas para ‘prestação de serviços de consultoria de transportes para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016’.

O Ministério Público Federal afirma que Nuzman declarou a existência de 16 barras de ouro, 1 kg cada uma, que mantinha no exterior, à Receita Federal, por meio de uma retificação em seu imposto de renda em 20 de setembro, quinze dias após a deflagração da primeira fase da Unfair Play. Na ocasião, Nuzman foi alvo de mandado de busca e apreensão.

A primeira fase da Unfair Play apreendeu uma chave que, segundo a força-tarefa da Lava Jato, ‘pode corresponder a um cofre na Suíça, considerando que estava guardada junto a cartões de visita de agentes que trabalham com serviço de locação’.

“Sabendo dessa apreensão, Nuzman tentou adiantar-se para evitar que as barras de ouro possivelmente depositadas no aludido cofre fossem descobertas pelas investigações”, relatou a força-tarefa no pedido de prisão do presidente do COB.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO NELIO MACHADO, QUE DEFENDE CARLOS ARTHUR NUZMAN

Segundo o advogado Nélio Machado, do escritório Nélio Machado Advogados, que defende o presidente do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) ‘há um habeas corpus já impetrado que não foi julgado lamentavelmente’. O defensor afirmou que irá se inteirar dos fatos e fará um pronunciamento em seguida.

“Vou ver quais são os fundamentos dessa medida dura e que não é usual, pelo menos dentro dos padrões do devido processo legal”.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO RODRIGO ROCA, QUE DEFENDE CABRAL

O advogado Rodrigo Roca, que integra a defesa do ex-governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), criticou a acusação de que seu cliente teria comprado votos para o Rio ser escolhido sede da Olimpíada: “É uma sandice alguém imaginar que o ex-governador teria condições de negociar a realização das Olimpíadas no Rio de Janeiro, por se tratar de algo fora do seu alcance e materialmente impossível de se concretizar. O Rio sagrou-se vencedor com 40 votos de diferença e está foi única razão de ter sediado os Jogos Olímpicos”, afirmou.

COM A PALAVRA, REI ARTHUR

O Estado não conseguiu localizar a defesa de Arthur Menezes, conhecido como Rei Arthur.

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