Existem heróis na guerra contra a covid-19?

Existem heróis na guerra contra a covid-19?

Fábio Leite Gastal*

23 de agosto de 2021 | 05h15

Fábio Leite Gastal. FOTO: DIVULGAÇÃO

Durante a pandemia, o Brasil tinha tudo para servir de exemplo mundial. Mostrar como um país poderia lidar com uma crise de saúde sem precedentes, por meio de uma estrutura capilar, eficiente e organizada com grande capacidade de atendimento e vacinação, o que resultaria em baixo índice de mortalidade. Mas, faltou apoio político, faltou liderança. E passamos para a história com uma triste marca de mais de 550 mil mortos.

Se existem vencedores na guerra contra a covid-19 são o Sistema Único de Saúde (SUS), o Sistema de Saúde Suplementar, a rede de hospitais públicos e privados e as autoridades locais, como governadores e prefeitos. Juntos, eles enfrentaram o tranco e uma postura totalmente anticientífica por parte das autoridades mais importantes do País.  Não por acaso o professor Pedro Hallal, reitor da Universidade Federal de Pelotas, em carta à renomada revista The Lancet, da Elsevier, atribuiu a morte de mais de 150 mil brasileiros à falta de uma política clara de enfrentamento à crise sanitária.

Embora a pandemia esteja longe de seu fim, já conseguimos tirar algumas lições de seus  momentos mais críticos, quando ainda não tínhamos vacina para proteger a população. Pesquisadores em todo o mundo já estão detectando sinais que os hospitais acreditados conseguiram lidar melhor com a situação. Para quem não sabe, a acreditação é um método de avaliação e certificação que busca, por meio de padrões e requisitos previamente definidos, promover a qualidade e a segurança da assistência no setor de saúde.

Os pesquisadores perceberam que os hospitais com processos estruturados de gestão, qualidade, acreditação e certificação voltada para a segurança do paciente apresentaram melhores resultados assistenciais. Numa situação absolutamente inusitada, a surpresa ficou por conta do vírus, que demandou a criação de processos. Mas os outros processos estavam bem organizados e atenderam às necessidades mais prementes.

Por isso, os hospitais acreditados registraram menores taxas de complicações, sequelas e mortalidade não só em relação aos pacientes com covid-19, mas a pessoas acometidas por outras enfermidades, mesmo porque neste período continuamos a atender casos de Acidente Vascular Cerebral (AVC), infarto e outras doenças. Essas instituições estavam melhor preparadas para fazer frente ao excesso de demanda, porque tinham inclusive comitês de crise – uma das exigências da acreditação. Esse comitê está preparado para acompanhar a evolução dos casos, prontuários e óbitos.

Em todo o mundo, o Brasil vai figurar como um case de país que multiplicou em tempo recorde as unidades de terapia intensiva (UTIs), ampliando a capacidade de atendimento. Só tivemos um momento de quase colapso da rede entre fevereiro e março de 2021, quando houve filas nas clínicas, hospitais e prontos-socorros. De qualquer maneira, a rede não colapsou. Conseguimos dar assistência e não deixar as pessoas fora do hospital. Contudo, a sobrecarga resultou em mais óbitos. Também temos de lembrar a lamentável experiência anticientífica vivida em Manaus, mas que ocorreu por causa da inabilidade do governo federal.

O Brasil foi uma catástrofe? Não, porque ninguém morreu na rua, ninguém morreu na calçada como ocorreu no Equador. Agora estamos enfrentando um outro desafio: a variante delta. Embora seja mais transmissível, esta cepa tem provocado casos mais leves e menos mortes nos países desenvolvidos, onde boa parte da população já tomou as duas doses da vacina. Aqui, temos menos de 40% da população totalmente imunizada. Por isso precisamos intensificar a vacinação e manter as medidas de proteção individual, como o uso de máscara facial, aplicação de álcool em gel, lavagem de mãos e distanciamento social. Se tudo correr bem, esta nova variante vai provocar um novo pico da doença, mas sem tantos casos graves e tantas mortes.

*Fábio Leite Gastal, presidente do Conselho da ONA (Organização Nacional de Acreditação), coordenador científico da 2.ª Digital Journey by Hospitalar, diretor Acadêmico da Faculdade Unimed e superintendente de Novos Negócios da Seguros Unimed

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