Existe uma terceira via?

Existe uma terceira via?

José Renato Nalini*

16 de março de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Todo extremismo parece perigoso. Conduz ao fanatismo. Cega a razão e intensifica a intolerância. É óbvio que existem múltiplas tonalidades para as opções políticas. O progressismo, por exemplo, congrega tanto os liberais modernos e social-democratas, como esquerdistas moderados, socialistas e comunistas. Podem se incluir no grande grupo os libertários e os neoconservadores.

A mentalidade progressista se caracterizaria pela crença em alguns princípios. O primeiro deles é a perfectibilidade do ser humano e a escalada ascensional da sociedade. Educação e direito positivado produziriam uma super-espécie. O segundo é o desprezo pela tradição. A razão, o impulso e o determinismo materialista são os guias mais confiáveis para o progresso, em lugar da sabedoria dos ancestrais. Repudia-se a religião, substituída por algumas ideologias.

Propõe-se o igualitarismo político. Privilégios são abolidos e a democracia total, tão direta quanto possível, é o ideal dos radicais. Em geral, têm aversão pelo parlamentarismo e anseiam por centralização e unificação políticas.

Também acreditam no igualitarismo econômico. A propriedade é algo suspeito para a maioria dos radicais. O coletivismo é o que se propala.

Tais características foram bem exploradas por Russel Kirk (1918-1994), no livro “A mente conservadora: de Burke a Eliot”.

Por sua vez, o próprio Kirk, considerado o “Pai do conservadorismo”, definiu os cânones da mentalidade conservadora. Serviu como catalisador no processo de precipitação contra a hegemonia liberal. Explorou os erros ideológicos do período, sustentando que as modernas sociedades ideologizadas são assombradas pela ansiedade. Sensação resultante da desordem na existência privada, culminando com a desordem na experiência social. A ansiedade cresce na fraqueza, impotência e frustração. É preciso recuperar o propósito da existência do homem.

Para Henry Stuart Hughes (1916-1999), o conservadorismo é a negação da ideologia. Para Russell Kirk, o conservadorismo é uma disposição de caráter que nos move a lutar pela restauração e preservação das verdades da natureza humana e da ordem social, legadas pela tradição, e a rejeitar todos os esquemas racionalistas apresentados pelas diferentes concepções ideológicas.

De acordo com tal perspectiva, a ordem social começa a se desintegrar, ou é suplantada por um controle muito diferente, quando o costume político e a teoria política são completamente dominados pela ideologia. O pensamento de Kirk do caráter ideológico da modernidade alicerça-se nas críticas de Edmund Burke aos “metafísicos abstratos” e aos “reformadores fanáticos”. Mas também se apoia na filosofia de Eric Voegelin, que vê a ideologia como “existência em rebelião contra Deus e o homem”.

Para Russell Kirk, “ideologia não significa teoria política ou princípio, embora muitos jornalistas e alguns professores, comumente, empreguem o termo nesse sentido. Ideologia realmente significa fanatismo político – e, mais precisamente, a crença de que este mundo pode ser convertido num paraíso terrestre pela ação da lei positiva e do planejamento seguro. O ideólogo – comunista, nazista ou de qualquer afiliação – sustenta que a natureza humana e a sociedade devem ser aperfeiçoadas por meios mundanos, seculares, embora tais meios impliquem numa violenta revolução social. O ideólogo imanentiza símbolos religiosos e inverte as doutrinas da religião. O que a religião promete ao fiel numa esfera além do tempo e do espaço, a ideologia promete a todos na sociedade – exceto aos que forem “liquidados” no processo”.

As ideologias são fanáticas doutrinas armadas, que só podem ser confrontadas por um poderoso corpo de princípios sadios, dizia Kirk. Por isso é que a decadência cultural e política de nossa época não é o resultado de “forças inelutáveis, mas a consequência da desobediência à verdade ética”.

A ética desprezada abre espaço para todo tipo de desvario. O Brasil é um exemplo emblemático do resultado da ausência de ética. Mas não é só aqui. A humanidade planetária enfrenta múltiplas crises. Mal percebidas, subvalorizadas, separadas umas das outras, diz Edgar Morin, são crises cognitivas. Nosso sistema de conhecimento implica em erros no autoconhecimento. A terceira via, entre os polos extremos do fanatismo, é o resgate da ética. A começar por nós mesmos.

Não é fácil. Mas é imprescindível.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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