Existe a tal coerência?

Existe a tal coerência?

José Renato Nalini*

01 de dezembro de 2020 | 08h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Cobra-se coerência dos humanos. Será possível manter a coerência nestes tempos? Somos todos alvos dos algoritmos, instrumentos da Inteligência Artificial que nos manipula continuamente. Como reagir à inundação de informações, como distinguir o que é verdade do que é mentira? Principalmente, como separar a meia verdade da meia mentira?

Tão imersos na profunda mutação estrutural, o tsunami disruptivo da quarta Revolução Industrial estamos nós, que é difícil encontrar um norte. Mas o fenômeno é universal. Atinge todos os seres providos de discernimento, que não são muitos, por sinal.

O jovem escritor argentino J.P.Zooey, cujo nome civil é Juan Pablo Ringelheim, criou até um novo movimento literário que chama “confundismo”. Seu livro de estreia é “Sol Artificial”, foi escrito em 2009, e só agora publicado no Brasil pela Editora DBA. Ele optou por pseudônimo, exatamente para fugir da cobrança por coerência: “O mal maior que a superexposição pode trazer é a super-coerência. Nesta época, parece que todos deveríamos ser coerentes com as certezas que acreditamos ter. certezas políticas, sexuais, sobre o outro (amigo ou inimigo), certezas sobre a literatura correta. Diante de cada aparição, a obrigação de levantar a bandeira de uma identidade. Penso que isso é o contrário à liberdade que um escritor deve ter”.

Não é só o escritor que tem de preservar sua liberdade. Todas as pessoas conscientes deveriam zelar pelo direito fundamental de primeiríssima geração: a liberdade. Que liberdade? “A liberdade de se contradizer, de estar confundido, de perder o fim da conversa e a memória, de ser incoerente, a liberdade de não tomar posição”.

Algo difícil neste Brasil que exige automático perfilhamento por um dos antagonismos. Não existe tolerância quanto à neutralidade. Parece pecado mortal não optar por um dos lados em conflito. As ameaças invocam o emocionalismo ético: quem não é parte da solução, é parte do problema! A omissão dos bons aplaina o caminho dos maus! E por aí vai.

Compreende-se, portanto, o movimento de J.P.Zooey, que ele considera “de retaguarda”: o confundismo. Sua definição é esclarecedora: “a humanidade parece ter optado pela divisão em grupos que estabelecem uma relação de oposição com certezas sobre o que é o bem e o que é o mal, o que é o justo e o que é o injusto, quem é amigo e quem é inimigo”.

Ressuscita-se até Carl Schmit, para reforçar a noção adversarial que é o nutriente sustentáculo do fundamentalismo. Ora, contra essa patrulha é que surge o “confundismo”: “estamos sozinhos, agrupados e dispersos ao mesmo tempo, cada um com seu farol, que apenas alcança para iluminar os próprios pés, embora também existam alguns com lanternas modernas e coloridas. Poderíamos, mas não queremos tomar posições. Estamos confundidos”.

Talvez haja mais confundidos do que convencidos de estar do lado certo, ou da vertente verdadeira. Mas o ser humano se retrai, tem vergonha de dizer-se perdido, tamanha a saraivada de ataques desferidos por ambas as hostes. Por constrangimento, adotam uma posição, a qual não apaixona e pela qual não morreriam.

Por que o “confundismo” é de retaguarda? J.P. responde: “Porque somos os que estão muito longe da frente de batalha, e estamos atrás de nada, acampamos onde a tinta não alcança para assinar as cartas públicas a favor ou contra as causas. Ainda que saibamos, também, que o mais apaixonante para um confundista é deixar de sê-lo e abraçar ardentemente uma causa. Fazemos isso de vez em quando, mas a causa se evapora em nossos braços, sobe a uma nuvem e a esquecemos para voltar a acampar longe da frente de batalha”.

Os brasileiros já haviam detectado a dificuldade da absoluta coerência. Seres vulneráveis, frágeis, efêmeros, pressionados por inúmeras circunstâncias e vicissitudes, é demais exigir fidelidade plena e permanente. Raul Seixas traduziu a sensação desconfortável na canção “eu prefiro ser a metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Embora talvez não queiram admitir, os confundistas estão aí. Assim como os alquimistas, estão voltando. E quem são? São os “solitários, ermitões, bêbados, loucos incoerentes, medicados, desertores, caçadores, destruidores de telhados”. Indefesos seres humanos, dos quais se exigem atributos sobre-humanos.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

A fala de J.P.Zooey é extraída de artigo assinado por Sylvia Colombo, no artigo “Argentino defende o ‘confundismo’ como movimento literário, FSP.21.11.2020, p.C4.

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