Executivos afirmam que empreiteira pagou a doleiro por serviços não realizados

Rogério Oliveira e Angelo Mendes dizem que R$ 8 milhões foram depositados em contas de empresas de fachada de Alberto Youssef

Redação

21 de novembro de 2014 | 20h46

Por Fausto Macedo, Ricardo Brandt e Mateus Coutinho

Dois diretores de áreas estratégicas da Mendes Junior afirmaram à Polícia Federal que a empreiteira realizou pagamentos totalizando R$ 8,028 milhões para empresas de fachada do doleiro Alberto Youssef, a GFD Investimentos e a Empreiteira Rigidez, “por serviços não realizados”.

Os relatos do engenheiro civil Angelo Alves Mendes, diretor vice presidente de Assuntos Corporativos, e do engenheiro eletricista Rogério Cunha de Oliveira, diretor de Área de Óleo e Gás da construtora, confirmam a versão do diretor vice-presidente executivo da Mendes Jr, Sérgio Mendes, preso dia 20 pela Operação Juízo Final, sétima fase da Operação Lava Jato.

Mendes disse à PF que foi “pressionado” a pagar aquele valor para o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, e para o doleiro Alberto Youssef – personagens centrais do esquema de propinas e corrupção na Petrobrás.

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O criminalista Antonio Figueiredo Basto, que defende Youssef, negou a extorsão. Ele atribui a declaração de Sérgio Mendes a “uma estratégia de defesa”.

O diretor de Óleo e Gás da Mendes Jr, Rogério Cunha de Oliveira, depôs nesta quinta feira, 20, na PF em Minas. Ele disse que conhecia o doleiro Youssef pelo apelido de “Primo”. Em maio de 2011, declarou Oliveira, recebeu ligação do vice-presidente Sérgio Mendes “convocando-o para uma reunião em São Paulo”.

Oliveira declarou que Sérgio Mendes informou que havia recebido uma ligação de Paulo Roberto Costa dizendo que o doleiro iria procura-lo no dia seguinte “para tratar de assuntos do interesse da Mendes Jr.”

Ele disse que foi à reunião com Youssef e o próprio Sérgio Mendes.

Nessa reunião, segundo o diretor de Óleo e Gás da empreiteira, o doleiro “informou que se a Mendes Jr não fizesse o pagamento de porcentual sobre o valor de serviços realizados, Paulo Roberto Costa não iria aprovar os pagamentos devidos pela Petrobrás”.

Ainda de acordo com Rogério Cunha de Oliveira, o doleiro ameaçou que o então diretor de Abastecimento da estatal petrolífera “não mais convidaria a Mendes Jr para participar das próximas obras”.

Nessa mesma reunião o doleiro exigiu da Mendes Jr,”a título de propinas um porcentual que variava de 2.2% a 2.4% de três termos aditivos dos contratos referentes à obras do Terminal Aquaviário de Barra do Riacho e um termo aditivo referente à obra da Replan, em Paulínia (SP)”.

Segundo Oliveira, o doleiro “recebeu de propinas em torno de R$ 8,1 milhões”. O pagamento era depositado na conta das empresas de Youssef, que emitia uma nota fiscal em favor da Mendes Jr.

A empreiteira assinou um contrato com a GFD Investimentos e um com a Rigidez. “Os contratos foram entregues na sede da Mendes Jr. no Rio de Janeiro por um emissário de Youssef”, declarou Rogério Oliveira. Ele disse que “desconhece” a identidade do emissário do doleiro.

Afirmou “não saber da existência de cartel de empreiteiras na Petrobrás”. O cartel foi revelado pelo ex-diretor de Abastecimento, Paulo Roberto Costa.

Segundo Oliveira, a Mendes Jr. “teve que ceder ao pedido de pagamento da propina porque poderia não ser mais convocada para a realização de obras da Petrobrás”.

“Nessa época a Petrobrás tinha uma dívida em torno de R$ 250 milhões a a R$ 300 milhões com a Mendes Jr por serviços já concluídos”, declarou o diretor de Óleo e Gás.

Ele reconheceu a existência de três contratos e um aditivo com a GFD nos valores respectivos de R$ 1 milhão, R$ 1,2 milhão, R$ 2,7 milhões e R$ 1.020 milhão. Com a Rigidez foi fechado um contrato de R$ 2,108 milhões.

“Os serviços não foram prestados e os contratos foram formalizados apenas para dar cobertura contábil aos valores exigidos a título de propina por Alberto Youssef”, afirmou, também, que em maio de 2012 foi fechado outro contrato da Mendes Jr com a Rigidez.

O diretor de Assuntos Corporativos Angelo Alves Mendes foi ouvido dia 14 pela PF em Minas, um dia antes da deflagração da Operação Juízo Final, que levou à prisão 24 investigados, entre eles Sérgio Mendes e os principais dirigentes das maiores empreiteiras do País.

Ele entregou cópias dos contratos firmados com a GFD Investimentos e com a Empreiteira Rigidez, ambas controladas pelo doleiro Youssef e usadas como canal para propinas a políticos e agentes públicos.

“Tais serviços contratados com a GFD e a Rigidez não foram efetivamente prestados”, afirmou Angelo Mendes.

Ele disse que “soube depois que tais pagamentos enquadravam-se no sistema de cobrança de comissões de Paulo Roberto Costa”.

Angelo Mendes assinou os contratos, mas afirma que “não participou das negociações”. Reiterou que “não houve a prestação de serviços da GFD e da Rigidez”.

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