Executivo se escondeu na casa de Odebrecht durante buscas, diz PF

Executivo se escondeu na casa de Odebrecht durante buscas, diz PF

Relatório de interceptações telefônicas reforçam as suspeitas de que o presidente da empreiteira teria atuado para prejudicar as investigações

Redação

14 de agosto de 2015 | 13h42

Qualificação do executivo Rogério Araújo, da Odebrecht, nos autos da Lava Jato / Foto: Reprodução

Qualificação do executivo Rogério Araújo, da Odebrecht, nos autos da Lava Jato / Foto: Reprodução

Por Mateus Coutinho, Julia Affonso e Fausto Macedo

Interceptações telefônicas realizadas pela Polícia Federal revelam que o presidente da Odebrecht, Marcelo Bahia Odebrecht, teria escondido em sua casa um dos executivos do grupo Rogério Santos Araújo. Na ocasião, a força-tarefa da Operação Lava Jato fez buscas na residência de Araújo durante a 7ª fase da Lava Jato, em novembro do ano passado, a Juízo Final. Para os investigadores os novos indícios reforçam as suspeitas sobre as anotações no celular de Odebrecht e indicam que havia uma “estratégia da corporação” para se prevenir das investigações da Lava Jato.

As suspeitas da Polícia Federal se baseiam no telefonema entre a esposa e a filha de Marcelo Odebrecht no dia em que foi deflagrada a 14 ª fase da Lava Jato, em 19 de junho de 2015, quando Marcelo foi preso com outros executivos. Na ocasião, a mãe tenta acalmar a filha e afirma:

“Seu pai, o que foi que seu pai te avisou a vida toda? Que se pegassem alguém dele, ele ia fazer o que?”, diz a mãe para a filha.

“Ia lá”, responde a jovem, que logo em seguida escuta da mãe: “O dia que ele quis esconder ele escondeu aonde? Ele trouxe Rogério pra casa de quem? Aqui não foi?”. Para a PF o nome é uma referência a Rogério Santos Araújo, cuja residência foi alvo de buscas na sétima fase da operação em novembro do ano passado. Na ocasião, os agentes encontraram apenas a esposa de Rogério Araújo em casa.

“Ante o exposto, todas as informações citadas acima, aparentemente, corroboram no sentido de que Marcelo Bahia Odebrecht ajudou a esconder em sua própria residência Rogério Santos de Araújo no dia 14/11/2014”, assinala a PF no relatório.

Qualificação de Marcelo Odebrecht, em inquérito da PF / Foto: Reprodução/PF

Qualificação de Marcelo Odebrecht, em inquérito da PF / Foto: Reprodução/PF

Rogério Araújo foi citado por Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás e primeiro delator da Lava Jato, como sendo o responsável por indicar a abertura de contas na Suíça. Por meio dessa conta, o ex-diretor da estatal confessa ter recebido US$ 23 milhões em propinas da Odebrecht. Rogério Araújo foi preso na 14ª fase da Lava Jato e atualmente é réu na Justiça Federal no Paraná.

Os agentes interceptaram também telefonemas da irmã de Marcelo Odebrecht que mostram que ela teria tratado com o filho de Rogério Araújo sobre “auxílio financeiro”. “Nesse mesmo contato, (irmã de Marcelo) afirma que os advogados iriam concentrar esforços quanto a soltura de Marcelo no âmbito do Superior Tribunal de Justiça”, aponta a PF.

Odebrecht diz ‘não ter motivos’ para esclarecer anotações em celular

Para os investigadores, as interceptações reforçam as suspeitas sobre as anotações do celular de Odebrecht que citam as siglas MF/RA, em referência aos ex-diretores da empreiteira Marcio Faria e Rogério Araújo, e as relacionam às expressões “não movimentar nada e reembolsaremos tudo e asseguraremos a família. Vamos segurar até o fim” e “higienizar apetrechos MP e RA”.

Os investigadores estão convencidos de que a empreiteira tentou prejudicar as investigações. “O que nos leva mais uma vez à conclusão de que os atos praticados pelos executivos do grupo Odebrecht não se tratavam de atos isolados de alguns dirigentes, mas de uma estratégia da própria corporação”, aponta o relatório da Polícia Federal.

Desde o início da Lava Jato, a Odebrecht tem reiterado taxativamente que não participou do cartel das empreiteiras no esquema Petrobrás. A empresa nega que seus executivos tenham repassado propinas. Por meio de habeas corpus, os advogados da Odebrecht sustentam perante os tribunais que seu presidente e os outros investigados do grupo são inocentes.

COM A PALAVRA, A ODEBRECHT:

“A Odebrecht lamenta que as informações sejam colocadas fora de contexto, traçando conclusões equivocadas que confundem a opinião pública. A empresa também lamenta a exposição desnecessária da intimidade de familiares.”

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