Executivo diz que abriu contas em paraísos fiscais para parceiros da Odebrecht

Executivo diz que abriu contas em paraísos fiscais para parceiros da Odebrecht

Marco Pereira Bilinski, um dos mais novos delatores da Lava Jato, relata viagens, entre 2007 e 2008, para a Venezuela, o Panamá e a República Dominicana, países onde a empreiteira já concluiu 32 obras

Mateus Coutinho, Julia Affonso e Fausto Macedo

22 de julho de 2016 | 16h53

Prédio da Odebrecht em São Paulo. Foto: Paulo Whitaker/Reuters

Prédio da Odebrecht em São Paulo. Foto: Paulo Whitaker/Reuters

O executivo Marco Pereira de Souza Bilinski, um dos mais novos delatores da Lava Jato, revelou aos investigadores que viajou em 2007 e 2008 para a Venezuela, Panamá e República Dominicana para abrir contas e empresas offshore – sediadas em paraísos fiscais – para empresários destes países que tinham relação com a empreiteira, e até para um funcionário público panamenho indicado pela Odebrecht ao banco em que Belinski trabalhava.

Segundo informa a própria Odebrecht na internet, nestes três países a empreiteira já concluiu 32 obras de engenharia, desde estradas e linhas de metrô até shoppings e estações de tratamento de esgoto. Além disso, a empreiteira possui atualmente 17 projetos em andamento nestes locais. A Venezuela é o país que mais tem obras em andamento, sendo 10 no total, seguida pelo Panamá, com quatro, e a República Dominicana, com três.

Na época das viagens, o delator trabalhava no Brasil com a captação de clientes para o Antigua Overseas Bank (AOB), instituição financeira utilizada pelo “departamento de propina” da Odebrecht para movimentar dinheiro até 2010, quando foi adquirido o Meinl Bank Antigua por Bilinski e outros executivos, inclusive da Odebrecht, para movimentar recursos ilícitos da empreiteira.

O AOB começou a abrir contas para a Odebrecht ainda em 2006, a pedido de Olívio Rodrigues Júnior, que atuava como intermediador da empreiteira junto ao banco mesmo sem ser funcionário da Odebrecht. Com o tempo, segundo revelaram os delatores do banco, Luiz Eduardo Soadres, do departamento de Operações Estruturadas, nome oficial da central de propinas da Odebrech, também passou a indicar clientes para a instituição financeira.

Dentre os indicados havia, inclusive, empresários de outros países da América Latina onde a empreiteira atuava. Com a mudança da movimentação financeira da Odebrecht para o Meinl Bank, vários dos clientes que Bilinski “atendeu” para a empreiteira nestes países também trocaram de banco.

“Luiz Eduardo dizia que as pessoas que estavam sendo apresentadas tinham relação profissional com a Odebrecht”, diz Bilinski, que afirmou ainda que “ficava claro” que estes novos clientes para o banco ajudariam a empreiteira, sem dar mais detalhes de como seria essa ajuda. Diante disso, em 2007 ele foi à Venezuela onde foi apresentado ao dono da empresa de consultoria Hidro Services que, segundo o delator, prestava serviços à Odebrecht.

Posteriormente, entre 2007 e 2008, Bilinski viajou para a República Dominicana onde um funcionário da Odebrecht naquele país o colocou em contato com um advogado que queria abrir duas contas. Posteriormente, as contas foram passadas para um nome identificado pelo delator como “Leonardo” que seria casado com a filha do ex-ministro de obras daquele país, Victor Diaz Rua.

Belinski abriu ainda duas contas para um empresário do país que alegou ter interesse de movimentar dinheiro para negócios imobiliários. O delator disse que, posteriormente, as contas abertas para este empresário chegaram a receber valores de contas da Odebrecht que ele e seus sócios (também delatores) Vinícius Veiga Borin e Luiz França cuidavam, já no Meinl Bank Antigua.

Em 2008 foi a vez do executivo viajar para o Panamá, onde o presidente da empreiteira no país lhe indicou um cliente que tinha uma empresa de consultoria. Belinski relatou que, inicialmente, o compliance do AOB, que avaliava todos os clientes que ele captava antes de abrir contas, não identificou nenhum problema com o nome cliente panamenho. Posteriormente porém, já no Meinl Bank, o delator conta que eles descobriram que o cliente era um funcionário público de baixo escalão. Bilinski afirmou que a movimentação nesta conta era apenas de cartão de crédito, não sendo de valores muito altos.

Em seu depoimento, ele também afirmou que abriu mais contas para clientes daquele país, mas que não se recordava e se comprometeu a informar os investigadores assim que tiver mais detalhes.

COM A PALAVRA, A ODEBRECHT:

Procurada, a empreiteira informou que não iria se manifestar

 

 

 

 

 

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