Executivo diz à PF que ex-diretor da Petrobrás e tesoureiro de Cabral ‘pediram recursos’ em hotel para reeleição

Executivo diz à PF que ex-diretor da Petrobrás e tesoureiro de Cabral ‘pediram recursos’ em hotel para reeleição

Ricardo Ourique Marques confirma que em 2010 reuniu-se em um hotel de luxo no Rio com Wilson Carlos, 'administrador financeiro' do ex-governador Sérgio Cabral, e com Paulo Roberto Costa para tratar de doação para campanha

Redação

27 de junho de 2015 | 19h00

O governador do Rio Luiz Fernando Pezão, à esquerda, e o ex-governador Sérgio Cabral. Foto: Marcos de Paula/Estadão - 4/4/2014

O governador do Rio Luiz Fernando Pezão, à esquerda, e o ex-governador Sérgio Cabral. Foto: Marcos de Paula/Estadão – 4/4/2014

Por Julia Affonso, Fausto Macedo e Ricardo Brandt

O engenheiro Ricardo Ourique Marques declarou à Polícia Federal que em 2010 reuniu-se em hotel de luxo de Ipanema com Wilson Carlos Cordeiro da Silva Carvalho, assessor financeiro do então governador do Rio na campanha à reeleição, Sérgio Cabral (PMDB), e com o diretor de Abastecimento da Petrobrás à época, Paulo Roberto Costa. No encontro, em um apartamento do Caesar Park, em Ipanema, Costa, ao lado de Wilson Carlos, pediu dinheiro para a campanha do peemedebista. O pedido teria ocorrido “entre janeiro e maio” daquele ano.

“Na reunião, Paulo Roberto Costa estava acompanhado de uma pessoa que ele disse ser o representante de Sérgio Cabral, governador do Estado; que Paulo Roberto Costa solicitou que o declarante aportasse recursos na campanha de reeleição de Sergio Cabral”, contou o executivo.

À época, Ourique Marques, que é engenheiro, ocupava o cargo de diretor-geral da Techint Engenharia e Construção. A empresa é alvo da Lava Jato.

O depoimento, dado no dia 4 de maio de 2015, trouxe à cena um novo personagem, Wilson Carlos, que nunca havia sido citado na Lava Jato.

Ourique foi ouvido na sede da PF em São Paulo pelo delegado Milton Fornazari Junior, que preside inquérito do Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre o suposto envolvimento de Cabral e seu sucessor, Luiz Fernando Pezão, também do PMDB, no esquema de propinas montado na estatal petrolífera, período 2004/2014.

Em 2003, Wilson Carlos foi assessor de Cabral no Senado. Depois, entre 2007 e até junho de 2010, ocupou o cargo de secretário de Estado do peemedebista no Executivo fluminense. Em 2010, ele deixou a secretaria e assumiu o posto de ‘administrador financeiro’ da campanha de reeleição de Cabral.

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Inicialmente, a PF tinha informações de que um outro auxiliar do governador, Régis Fichtner, teria participado do encontro no hotel de Ipanema. A PF exibiu a Ourique Marques a foto de Fichtner. O engenheiro não o reconheceu, mas apontou Wilson Carlos – de quem a PF também mostrou uma foto – como o homem que acompanhava Paulo Roberto Costa.

“Mostrada a foto de Regis Velasco Fichtner ao declarante, não o reconheceu como sendo a pessoa que acompanhava Paulo Roberto Costa no hotel; Mostrada a foto de Wilson Carlos Cordeiro da Silva Carvalho, o declarante o reconheceu como sendo a pessoa que acompanhava Paulo Roberto Costa”, registrou a PF.

Propina de R$ 30 milhões. Em delação premiada à Procuradoria-Geral da República, Paulo Roberto Costa afirmou, em abril,  que ‘durante uma reunião, em 2010, na sede do governo do Rio, Sérgio Cabral lhe pediu R$ 30 milhões para a campanha de sua reeleição, juntamente com Pezão, para o Executivo do Estado’.

Nesse encontro, segundo o ex-diretor da Petrobrás, Cabral determinou a Régis Fichtner, então chefe da Casa Civil, que se articulasse com Costa para que ‘ambos, em reuniões a serem realizadas em um hotel, obtivessem os valores oriundos de empresas contratadas’ pela estatal.

Após a reunião com Cabral e seus assessores, na sede do governo do Rio, Costa, então, teria feito contato prévio com empresários, por meio de sua secretária. Segundo ele, foi o ex-governador quem recomendou que a reunião acontecesse em um hotel e que ele ‘pode perceber a intenção do grupo político em receber valores ilícitos’.

Segundo Costa, a reunião posterior ao encontro com Cabral ocorreu entre Fichtner e ele. “Foi combinado que as empresas menores pagariam R$ 5 milhões cada”, afirmou o ex-diretor, citando a Skanska e a Techint. Já as empresas maiores, integrantes do Consórcio Conpar, pagariam o total de R$ 15 milhões. Em seu relato à PF, Marques declarou  que negou o apoio solicitado.

Em seu relato à PF, Ourique Marques declarou que a reunião no apartamento do hotel foi breve. Ele disse que negou o apoio solicitado ‘por ambos’, Costa e Wilson Carlos. Na ocasião, segundo Ourique, o então diretor de Abastecimento da estatal usou como argumento para o pedido ‘retribuição ao esforço do Governo do Estado’ para implantação do Complexo Petroquímico do Rio (Comperj), de interesse da empresa representada pelo engenheiro.

“Paulo Roberto Costa solicitou que o declarante aportasse recursos na campanha de reeleição de Sergio Cabral; que ele lhe pediu os recursos como forma de retribuição ao esforço do Governo do Estado, que auxiliou a Petrobrás na obtenção de Licenças e Autorizações, dentre outras, viabilizando a implantação do Comperj; que negou o apoio solicitado por ambos e se retirou do local, tendo permanecido por no máximo 10 minutos”, afirmou.

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Ele disse que ‘estranhou o fato de (a reunião) ser em um apartamento normal e não uma sala de reuniões do próprio hotel’. O engenheiro contou que foi a secretária de Paulo Roberto Costa quem o procurou e avisou que ele deveria comparecer ao encontro no hotel, ‘no meio da tarde’.

À PF, Ourique Marques contou ainda que se recordava de ter encontrado no lobby do hotel o engenheiro Claudio Lima, que trabalhou para sueca Skanska até novembro de 2014. Lima confirmou, também à PF, que a secretária de Paulo Roberto Costa o convocou para um encontro no hotel Caesar Park.

Mas Lima, que saiu da Skanka em novembro de 2014, tem uma versão diferente. Segundo ele, a reunião não durou nem 5 minutos. “Que na reunião estava apenas Paulo Roberto Costa; que não havia outra pessoa no apartamento; que Paulo Roberto Costa solicitou se a empresa poderia fazer algum tipo de contribuição política, oportunidade na qual o declarante cortou a conversa e esclareceu que isso era coisa vedada pela companhia, inclusive pela matriz sueca”, registrou a PF.

Inquérito Cabral. A Polícia Federal já colheu declarações, rastreou voos e fez buscas no inquérito que investiga o ex-governador do Rio e o atual.

A apuração passa pelo aprofundamento de dados do esquema de cartel e corrupção no Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro), que envolvem a Odebrecht, foco da nova fase da Lava Jato, com a deflagração da 14ª fase, a Erga Omnes. Recentemente, a investigação sobre as obras do Comperj saiu do Rio de Janeiro e foi para o Paraná, base da força-tarefa da Lava Jato.

Em sua delação, Paulo Roberto Costa afirmou. “Dos valores pagos pelas empresas contratadas do Comperj, 1% era destinado ao PP e PMDB, portanto os R$ 30 milhões deixaram de ser repartidos entre PP e PMDB para atender o governador Sérgio Cabral; que Régis telefonou ao declarante e disse ‘Paulo, sobre aquele assunto que falamos com o Governador, vamos fazer uma reunião no hotel Caesar Park, em Ipanema, às 9h da manhã’.”

Procurado, o ex-governador informou via assessoria que tudo que havia para ser dito foi esclarecido em seu depoimento.

COM A PALAVRA, A DEFESA

ODEBRECHT
A Construtora Norberto Odebrecht (CNO) nega qualquer irregularidade e reitera que o contrato no Comperj foi conquistado de forma legítima.
Reitera que realiza doações para campanhas e partidos políticos
respeitando a legislação, as quais são devidamente registradas nos
cartórios eleitorais. A motivação da CNO, ao realizar doações durante
as eleições, é apoiar o processo democrático, dentro do que está
previsto e é permitido pela legislação. Os valores das doações são
públicos e estão disponíveis para consulta nos Tribunais Eleitorais e
no Tribunal Superior Eleitoral, conforme manda a legislação
brasileira.
A empresa nega ainda as alegações caluniosas feitas por doleiro réu
confesso da investigação em curso. É preciso esclarecer que, conforme
prevê a lei e vem sendo reafirmado pelas autoridades judiciárias
envolvidas, a delação exige prova independente de corroboração para
ser usada.

UTC
“A empresa não comenta investigações em andamento.”

MENDES JR
A empresa não se pronuncia sobre inquéritos e processos em andamento.

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