Execrável mundo novo

Execrável mundo novo

José Renato Nalini*

03 de fevereiro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Admirável mundo novo foi o título do livro publicado em 1932, com a forte denúncia da desumanização resultante do progresso científico e material. Foi escrito por Aldous Leonard Huxley (1894), nascido em berço de ouro no condado de Surrey, na Inglaterra. Berço de ouro, porque sua família formava uma elite intelectual. Ele iniciou-se muito cedo na arte literária e foi se tornando um escritor muito lido e respeitado.

Em 1937, quando sua fama atingia todo o planeta, Aldous Huxley mudou-se para a Califórnia. Prenúncios de um segundo grande conflito mundial o deixavam acabrunhado. Entendia que a chave para a solução dos graves problemas mundiais seria a substituição do individualismo ocidental pela sabedoria perene, impregnada do misticismo e centrada na ideia de unidade.

Produz, já com esse espírito, “O tempo deve parar”, de 1944 e “A Ilha”, de 1962, que é uma continuidade do “Admirável Mundo Novo”. Experimentou mescalina e escreveu, em 1954, “As portas da percepção”. O que esse pensador de uma linha precursora, diria dos dias que estamos vivenciando?

Quando redigiu “A Filosofia Perene – Uma interpretação dos grandes místicos do Oriente e do Ocidente”, propunha imersão em algumas áreas: a metafísica que identifica uma Realidade divina substancial para o mundo das coisas e para as vidas e mentes; a psicologia que descobre na alma algo semelhante à, ou mesmo idêntica à, Realidade divina; a ética que coloca o objetivo final do homem no terreno imanente e transcendental de todos os seres. Uma coisa atemporal, imemorial e universal.

Até as lendas tradicionais dos povos primitivos já contêm rudimentos dessa necessidade de transcendência, o que vai se consolidar na formatação das grandes religiões. O ser racional é religioso porque procura refazer o vínculo que o une, substancial e intuitivamente, com uma realidade intangível.

Detectar as mensagens contidas nos ensinamentos seculares é a missão do humano que não se satisfaz com o primarismo e a rusticidade dos costumes que passaram a viger no planeta, principalmente nas últimas décadas. A educação continuada é o remédio para combater a grande pandemia de ignorância. Isso Aldous Huxley tinha muito presente: “O conhecimento é uma função do ser. Quando há uma mudança no ser do conhecedor, há uma mudança correspondente na natureza e na quantidade do conhecer. Por exemplo, o ser de uma criança é transformado pelo crescimento e pela educação naquele de um homem; entre os resultados dessa transformação há uma alteração revolucionária na forma de conhecer e na quantidade e no caráter das coisas conhecidas. À medida que o indivíduo cresce, seu conhecimento se torna mais conceitual e sistemático na forma, e seu conteúdo factual, utilitário, aumenta muitíssimo”.

É o postulado da educação continuada, permanente, incessante. Não há qualquer possibilidade de se concluir que já se aprendeu o suficiente para o enfrentamento das vicissitudes existenciais. O horizonte de quem aprende se alarga à proporção de que se vislumbra o que ainda está por ser descoberto. Mas “não são as mudanças no ser psicológico ou intelectual do conhecedor as únicas que afetam seu conhecimento. O que conhecemos depende também daquilo que, como seres morais, escolhemos para nos construir”.

As escolhas morais representam o nosso norte, o que justifica a nossa trajetória nesta aventura terrestre. Elas não se vinculam ao acúmulo de informações acolhidas em nossa memória. A opção moral não depende de um big data, mas de uma transparente disposição de espírito. Coisa que os simples, os “mansos de coração”, conseguem mais facilmente do que os presunçosos, os arrogantes, os orgulhosos e os dependentes da matéria.

É inacreditável que pessoas tidas por escolarizadas, afeiçoem-se ao primarismo de explicações completamente divorciadas da ciência. Mais grave do que isso, dissociadas do espírito de compreensão amorável, de solidariedade que deve reinar na sociedade civilizada, sob pena de se demolir uma estrutura ética edificada ao longo de milênios.

A ficção de Huxley, como a de Orwell, foi modesta, a se considerar o retrocesso moral que parece ter-se tornado regra em instituições até há pouco insuspeitas e tidas como conquistas solidificadas no estágio civilizatório alcançado.

Para combater o execrável mundo novo, é preciso arregimentar todas as consciências sadias, a lucidez que não se deixa vender, o desapego ao deus-dinheiro, o retorno à singeleza das verdades imutáveis. O ser humano é frágil, efêmero e só vale por aquilo que puder produzir de realmente bom nesta cada vez mais curta aventura terrena. E o “bom” não é mensurável em cifrão, poder ou autoridade. É algo transcendente e incomensurável. Quem não conseguir enxergar, já não integra a parcela ainda hígida de uma sociedade em que os riscos são cada vez mais intensos e a cada instante mais próximos.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.