Excelente PIB do 1º trimestre, mas ainda cedo para o arrebatamento bíblico

Excelente PIB do 1º trimestre, mas ainda cedo para o arrebatamento bíblico

Roberto Dumas*

07 de junho de 2021 | 07h30

Roberto Dumas. FOTO: DIVULGAÇÃO

Notícias boas povoam os sentimentos e mexem nos ativos de risco com a publicação do PIB do Brasil do 1 ° trimestre do ano. Ninguém acreditava que algum arcanjo tocaria as trombetas do apocalipse econômico, mas em alguns livros já estava escrito, mas em economia, nada está escrito e tudo pode mudar. No entanto, continuando ainda com a verve bíblica, também não acredito no arrebatamento final para salvar os fiéis e garantir prosperidade eterna.

De fato, se considerarmos o que já passamos com a pandemia no ano passado e o que já gastamos em termos fiscais para fazer frente às intempéries sanitárias e de menor atividade econômica, já era hora das notícias melhorarem. Enquanto o mercado esperava um crescimento no trimestre de 0.8%, logramos crescer 1.0% (comparado o 1° trimestre do ano anterior ou YoY) e 1.2% (comparado com o 4° trimestre de 2020 OU QoQ). Nada mal.

Pelo lado da oferta, kudos para o setor do agronegócio que cresceu 5.7% (QoQ) e 5.2% (YoY). Pelo lado da demanda, os investimentos subiram 4.6% (QoQ) e 17% (YoY). Novamente louvamos o setor do agronegócio, pois os investimentos em bens de capital em especial máquinas e equipamentos ajudaram enormemente esse incremento na rubrica investimentos.

Enfim, ótimas notícias surpreendendo positivamente o mercado e ajudando na percepção e precificação dos ativos de risco como a bolsa e o câmbio que chegou a bater R$5.078. Mas se por um lado, as notícias são surpreendentemente animadoras, o que poderemos esperar de melhor para o segundo semestre?

Sem dúvida a economia brasileira merece destaque de um transatlântico indo em direção correta em sua recuperação, mas ainda terá de entrar no porto afunilando e exigindo manobras mais desafiadoras no futuro próximo. Se levarmos em consideração e compararmos como os lockdowns e índices de mobilidade que testemunhamos nos EUA e no Brasil, constataremos que há de se convir que não ficamos tão confinados, quanto os norte-americanos. Mas o que isso significa? Que em um momento de real e ampla abertura da economia nos EUA, todo aquele confinamento saiu em direção a um consumo extremamente reprimido, aumentando significativamente a atividade econômica impulsionando o preço até de carros usados por famílias sedentas por saírem de suas casas.

Se não ficamos tão confinados ou se nosso índice de mobilidade não chegou a cair tanto no 1° trimestre desse ano, com exceção para o mês de março, mesmo à duras penas, o que esperar quando, muito provavelmente, atingiremos uma imunidade de rebanho de 56% até o final de 2021? Não se discute uma recuperação na atividade econômica, mas é passível de se avaliar que será aquém daquela observada nos EUA, que experimentava um lockdown muito mais restrito, apesar de Trump, e demanda muito mais reprimida e que assim que a vacinação progrediu, suscitou um enorme incremento na atividade econômica.

O ponto aqui é, qual notícia positiva, na margem, tenderia a ser melhor do que o que já estão nos modelos de projeção de PIB? Novamente, na margem, a abertura da economia pós vacinação em massa, poderá não trazer o estouro de uma demanda tão reprimida, como ocorreu nos EUA. Talvez, o nível de consumo das famílias esteja ainda fortemente sendo contaminado por um maior nível de desemprego. Não obstante, mesmo se considerarmos um certo relaxamento no distanciamento social praticado pelo nosso país, a rubrica serviços ainda anda no território negativo e que certamente se encontra ainda reprimida. Setor esse que, mesmo com a possibilidade de reestruturações no mercado de trabalho, dada a incipiência de um novo consumidor / trabalhador pós pandemia, acabarão utilizando mão de obra não tão qualificada, que hoje está desempregada com o avanço dos processos de digitalização e automação, fazendo esse segmento econômico se equacionar nesse novo cenário.

Não. Não me julguem como o arcanjo trombeteiro, apenas receio que surpresas otimistas, na margem, tendem a ser menores daqui para a frente, o que não quer dizer que uma revisão para cima da nossa expectativa de PIB, talvez entre 4.2% e 4.5% não seja meritória. Mas urge avaliarmos que talvez o segundo semestre continue nos surpreendendo positivamente, mas não tanto como agora. Os motivos são vários e deixando de lado um pouco de lado a animação dessa terça-feira, não custa relembrar alguns pontos de atenção, apenas para não cairmos em uma animação exagerada:

a. A crise hídrica muito provavelmente não culminará com um “apagão de energia”, mas muito provavelmente com um “apagão branco”, sendo necessário que as termelétricas sejam despachadas a um custo tarifário de R$1,000/Mwh, levando empresas a diminuírem o ritmo da produção, como ocorreu em 2001, jogando mais lenha no nosso choque de oferta (inflação) e menos na atividade industrial;

b. A tendência da taxa básica de juro (Selic) já começa a atingir 5.75% a 6% no final do ano;

c. Mesmo com uma melhora na relação da dívida pública (% PIB), parte dessa melhora deve-se a um aumento do nível da água que cobriu a nudez das contas públicas: a inflação crescente. Ou seja, em partes acreditamos em uma melhora no cenário fiscal, pois a inflação limita o custo de carregamento Real da dívida pública. Soa estranho isso ser uma notícia boa. Melhor usarmos o argumento de maiores superávits primários, via maior PIB e maior base de tributação.

Novamente, continuo sobriamente animado com a economia brasileira. Cientes que estamos no caminho certo, mas que ainda precisamos passar pelo canal estreito desafiador neste segundo semestre e no ano que vem, quando teremos eleições presidenciais. Cheer up, mas não esqueçamos do nosso caldo de galinha aos domingos à noite. Não custa!

*Roberto Dumas é economista, professor do Insper e consultor de empresas

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