Ex-tesoureiro negociou caixa dois milionário para campanha de Crivella, diz delator

Ex-tesoureiro negociou caixa dois milionário para campanha de Crivella, diz delator

Doações fora do caixa oficial para bispo ocorreram desde 2004, afirma Lélis Teixeira, ex-presidente da Fetranspor; Mauro Macedo, ex-tesoureiro e ex-servidor de Crivella, teria tratado de valores com empresários do transporte público carioca

Paulo Roberto Netto e Pepita Ortega

02 de dezembro de 2019 | 15h06

O ex-tesoureiro de campanha e ex-servidor do gabinete de Marcelo Crivella negociou propina de R$ 2,5 milhões em caixa dois para a campanha do bispo licenciado à Prefeitura do Rio, em 2016. Os acordos, no entanto, ocorrem desde a candidatura de Crivella ao Senado, em 2004, e também teria ocorrido no pleito de 2010.

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, no Palácio Guanabara. Foto: Wilton Júnior / Estadão

Nesta segunda, o Ministério Público do Rio abriu inquérito para investigar o prefeito em outro caso, referente a suposta cobrança de propina pela Prefeitura da capital fluminense em troca da liberação de pagamentos a empresas credoras do município. As informações foram divulgadas pelo jornal O Globo.

As acusações de caixa dois na campanha de Crivella constam em dois anexos da delação premiada de Lélis Teixeira, ex-presidente da Fetranspor. O ‘Estado’ teve acesso à colaboração, que tramita em segredo de justiça e revela a suposta atuação de políticos, servidores da Receita e da Polícia Federal além de membros do judiciário carioca em prol de empresários do transporte público do Rio.

Segundo Lélis, o então tesoureiro de Crivella, Mauro Macedo, solicitou ao presidente da Fetranspor ‘apoio financeiro’ à campanha do então candidato à prefeitura do Rio. A demanda foi encaminhada a David Barata, então presidente do Conselho Superior da Rio-Ônibus, que agendou uma reunião com Macedo.

O delator afirma que se reuniu com Crivella e Macedo no dia 28 de agosto de 2016, acompanhado de David Barata e o ex-deputado federal Rodrigo Bethlem. O encontro ocorreu no apartamento de Marcelo Alves, que participou da reunião, na Barra da Tijuca. Segundo Lélis, na ocasião foram discutidos somente ideias e propostas para o setor de transportes e Crivella não fez nenhum pedido de apoio financeiro.

Uma semana depois, em outra reunião na RioÔnibus, Lélis afirma que foi acertado entre David Barata e Mauro Macedo o o pagamento de R$ 2,5 milhões à campanha de Crivella por meio do caixa dois da corporação oriundos da Guanabara Diesel. O dinheiro foi entregue pelo então vice-presidente da Rio Ônibus, Otacílio Monteiro, ao tesoureiro de campanha do bispo.

‘Sobras’. Após as eleições que colocaram Crivella na Prefeitura, Mauro Macedo voltou a procurar os empresários para devolver R$ 300 mil em espécie que seriam ‘sobras de campanha’. O dinheiro foi entregue pelo tesoureiro na sede da Rio Ônibus e guardados em um cofre da corporação. O dinheiro acabou sendo utilizado como doação ao Hospital Miguel Couto por meio da compra de um equipamento para consultas oftalmológicas.

Lélis corrobora sua acusação de reuniões e apoio a Crivella com mensagens de WhatsApp trocadas com Mauro Macedo entre os dias 27 de agosto de 2016, um dia antes do encontro com os empresários no apartamento de Marcelo Alves, a 26 de setembro de 2016, a poucas semanas do primeiro turno. As conversas foram obtidas pela Polícia Federal no âmbito da Operação Quinto do Ouro.

Leia a transcrição abaixo:

27/08/16, 21:50:16 | Mauro Macedo: Avenida das acácias 410 Royal Green Bloco 01 apto 1101 PENÍNSULA SEGUNDA 8h
27/08/16, 21:51:44 | Mauro Macedo: Amigo por problemas no apartamento do candidato, os receberemos no endereço acima. Perdoe o contra tempo.
27/08/16, 23:38:07 | Lélis Teixeira: ok

30/08/16, 11:09:31 | Mauro Macedo: Bom dia! Meu amigo, Em primeiro lugar agradecer pela reunião, muito proveitosa, conhecer melhor o segmento.
30/08/16, 11:09:40 | Mauro Macedo: Podemos nos ver
30/08/16, 11:14:11 | Lélis Teixeira: Bom dia sem dúvida foi ótimo podemos sim nos ver vamos combinar
30/08/16, 11:23:08 | Mauro Macedo: Estou a disposição
30/08/16, 11:25:55 | Lélis Teixeira: Vou agendar e te retorno durante o dia
30/08/16, 11:28:38 | Mauro Macedo: Obrigado

31/08/16, 19:23:48 | Mauro Macedo: Boa tarde meu amigo.
31/08/16, 19:24:03 | Mauro Macedo: Passei para dar um olá

05/09/16, 11:36:42 | Mauro Macedo: Passarei por volta de 10h, em seu escritório na Zona Oeste, ok?
05/09/16, 11:41:49 | Lélis Teixeira: Pode ser as 11h30?
05/09/16, 12:31:37 | Mauro Macedo: Pode sim.

15/09/16, 12:27:21 | Mauro Macedo: Bom dia meu amigo! Nao sei se tem acompanhado, mas ontem saiu mais uma pesquisa do IBOPE e ele subiu dois pontos, a tendência e de alta
15/09/16, 12:27:40 | Mauro Macedo: Obrigado pelo apoio.
15/09/16, 14:24:41 | Lélis Teixeira: Ótimo.

26/09/16, 23:57:53 | Mauro Macedo: Boa noite meu amigo!
26/09/16, 23:57:58 | Mauro Macedo: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/eleicoes/2016/noticia/2016/09/crivella-tem-35-pedro-paulo-11-e-freixo-9-aponta-ibope-no-rio.html

‘Longa data’. Em delação, Lélis afirma que o relacionamento de Crivella com os empresários do setor de transporte público do Rio, hoje envolvidos e delatores da Operação Lava Jato, vem de ‘longa data’ e cita como exemplo a candidatura do bispo à Prefeitura do Rio pela primeira vez, em 2004. À época, Crivella já era senador.

Lélis afirma que ele e Jacob Barata foram apresentado a Crivella por vereadores da bancada evangélica em um café da manhã na residência do bispo, à época na Rua Monsenhor Ascâneo, na Barra da Tijuca. Participaram o encontro Crivella, sua esposa e seu filho, Marcelo, e Mauro Macedo, além dos vereadores Lilian Sá e Jorge Mauro.

No dia, Crivella teria apresentado Mauro Macedo como seu ‘interlocutor, pessoa de sua extrema confiança’, afirma Lélis. Macedo viria a trabalhar no gabinete de Crivella no Senado entre os anos de 2009 a 2013, exercendo a função de assessor técnico (SF02), um cargo comissionado.

O ex-tesoureiro e ex-assessor técnico de Crivella, Mauro Macedo. Foto: Acervo Pessoal

Em 2008, em sua campanha à Prefeitura do Rio, Crivella escalou Macedo para atuar como tesoureiro da campanha. Até então, ele era diretor financeiro financeiro da Lime Records, gravadora vinculada à Igreja Universal do Reino de Deus.

Quando as primeiras denúncias envolvendo Macedo vieram à tona, Crivella afirmou à imprensa que Macedo nunca foi nomeado para seu gabinete no Senado e nunca exerceu funções em suas campanhas.

Duas semanas depois do café da manhã na casa de Crivella, Macedo procurou Lélis com solicitação de apoio à candidatura de Marcelo Crivella. Lélis disse não se recordar do valor, e que, à época, Otacílio Monteiro, vice-presidente da Fetranspor, seria quem teria intermediado o pagamento ao ‘interlocutor’ de Crivella.

Dívidas. Mauro Macedo também teria procurado os empresários do transporte público em 2010 pedindo ajuda para quitar dívidas de campanha de Crivella ao Senado. A solicitação teria sido feita na sala da Fetranspor e Lélis, à época, disse a Macedo que não tinha poder de decisão sobre o assunto, levando o caso a José Carlos Lavoura, presidente do conselho da Fetranspor, e João Monteiro, da Rio Ônibus.

Na reunião com os empresários, Macedo solicitou R$ 450 mil para pagamento de gastos. O valor foi aprovado por Lavouras, que combinou o repasse por meio do doleiro Álvaro Novis, também delator da Lava Jato, no escritório de Macedo, na rua da Candelária.

O ex-presidente da Fetranspor e hoje delator da Lava Jato, Lélis Teixeira. Foto: Marcos Arcoverde / Estadão

A versão coincide com a apresentada na delação do funcionário de Novis, Edmar Moreira Dantas. Em trechos revelados pelo RJTV em 2017, planilhas entregues por Dantas ao Ministério Público Federal indicam pagamento de quatro doações a Crivella no valor de R$ 100 mil no mesmo endereço informado por Lélis: rua da Candelária.

Após o pagamento, Macedo teria solicitado uma nova reunião para agradecer os empresários. Na ocasião estiveram presentes Marcos Antônio Pereira, então presidente nacional do PRP, e Eduardo Lopes, dirigente da sigla, além de José Carlos Lavouras, o próprio Lélis Teixeira, e Jacob Barata Filho, o ‘Rei dos Ônibus’.

COM A PALAVRA, O PREFEITO DO RIO DE JANEIRO, MARCELO CRIVELLA

“É lamentável ver a imprensa sendo usada como massa de manobra para atender a interesses claramente eleitorais. Ainda mais neste momento, em que o prefeito Marcelo Crivella enfrenta um dos grupos empresariais mais poderosos do país, tentando cessar a sangria de verbas públicas provocadas por um contrato abusivo de exploração do pedágio da Linha Amarela.

Não é a primeira vez que a oposição usa a imprensa para divulgar denúncias falsas tentando ligar o prefeito do Rio a políticos e empresários corruptos, mas nunca conseguiram provar nada contra ele. Será mesmo que o senhor Lélis Teixeira fez essa acusação? Onde estão as provas? Da última vez que a imprensa tentou fazer tal covardia contra a honra do prefeito levou um desmentido do próprio suposto denunciante, no caso, outro empresário de ônibus, Jacob Barata.

Se existe um político que não poderia ter se beneficiado de algum esquema com os empresários de ônibus, este político é Marcelo Crivella. Porque, desde o início de sua gestão à frente da Prefeitura do Rio, enfrentou o poderoso lobby das empresas de ônibus e proibiu o aumento das tarifas, tradicional benesse de que vinham desfrutando confortavelmente nas gestões anteriores. O embate virou uma disputa judicial, ganha por Crivella. E hoje o município tem uma passagem de R$ 4,05 reais, uma das menores entre as capitais do porte do Rio. Em São Paulo, por exemplo, a tarifa é de R$ 4,30 e o governo já pagou mais de R$ 9 bilhões em subsídios para manter o valor em patamares mais baixos.

Todas as contas de campanha de Crivella foram devidamente aprovadas pelo Tribunal Regional Eleitoral. Eleito para a Prefeitura do Rio, realiza uma gestão austera com os gastos públicos, sem qualquer denúncia de corrupção.

Enfrentar grupos poderosos que usam a imprensa para tentar obter vantagens tem sido a luta de Marcelo Crivella. Mas jamais conseguirão manchar sua honra e sua trajetória. Porque a verdade sempre prevalecerá.”

COM A PALAVRA, A FEDERAÇÃO DAS EMPRESAS DE TRANSPORTE DE PASSAGEIROS DO ESTADO DO RIO, A FETRANSPOR

“A Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Rio (Fetranspor) vem a público esclarecer que:

1) Lélis Teixeira foi presidente-executivo da Fetranspor entre 2010 e 2017. O executivo também presidiu o Rio Ônibus entre 1999 e 2017;

2) A atual administração da Federação – que tomou posse em setembro de 2017 – desconhece a ocorrência de supostos fatos relacionados à gestão anterior, não tendo tomado conhecimento de quaisquer pagamentos realizados com o intuito de obtenção de benefícios para o setor;

3) A Fetranspor tem desenvolvido uma profunda reestruturação interna, com o estabelecimento de uma rígida política de conformidade e integridade, além do fortalecimento de sua administração com uma moderna e ativa governança corporativa;

4) Ao assumir o comando da instituição, o atual presidente executivo – um profissional de mercado sem qualquer ligação com o setor de transporte por ônibus – promoveu uma ampla revisão sobre todos os contratos vigentes, de modo a rescindir aqueles que porventura apresentassem possibilidade de questionamentos internos ou externos;

5) A Federação reafirma seu compromisso com o atual modelo de gestão, que prioriza a transparência de seus atos, a valorização dos controles internos e o respeito às normas que regulam o setor;

6) A Fetranspor está comprometida em colaborar com as investigações em andamento e cumprir as determinações judiciais, permanecendo à disposição das autoridades para todos os esclarecimentos que se façam necessários.”

COM A PALAVRA, DAVID BARATA

“O empresário David Barata nega o conteúdo publicado na matéria, o qual é manifestamente falso. O empresário não vai comentar a suposta delação a cujo conteúdo, de veracidade duvidosa, sequer teve acesso.”

COM A PALAVRA, JACOB BARATA FILHO

“O empresário Jacob Barata Filho não irá se manifestar sobre conteúdo de vazamentos – seletivos e de veracidade questionável – de supostos anexos de colaboração premiada, a cujo teor sequer teve acesso. Além disso, pontua que os supostos anexos, caso existentes, deveriam ser mantidos em sigilo até a apuração dos fatos para garantir a eficiência das investigações e preservação dos citados sem provas.”

COM A PALAVRA, MAURO MACEDO

A reportagem busca contato com Mauro Macedo. O espaço está aberto a manifestações (paulo.netto@estadao.com e pepita.ortega@estadao.com).

COM A PALAVRA, JOSÉ CARLOS LAVOURAS

“A defesa de José Carlos Lavouras reitera que as acusações são irreais, sem provas e baseadas em mentiras de um delator que busca reduzir o peso da lei sobre seus atos. A defesa informa, ainda, que Lavouras está afastado da gestão de suas empresas desde 2017. O empresário vive em Portugal, de onde colabora com a Justiça.”

COM A PALAVRA, OS CITADOS
A reportagem busca contato com todos os citados na delação de Lélis Teixeira. O espaço está aberto a manifestações (paulo.netto@estadao.com).

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