Ex-tesoureiro do PT diz que ‘todo mundo doa para todo mundo’

Paulo Ferreira, secretário de Finanças do partido do governo entre 2005 e 2010, confirma pedido de doações a empreiteiro que à Justiça disse que repassou propinas para PT

Redação

18 de março de 2015 | 20h15

Por Julia Affonso, Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, e Fausto Macedo

O ex-tesoureiro do PT Paulo Ferreira disse que a rotina dos secretários de Finanças de todos os partidos é buscar doações nas empresas “que tradicionalmente doam”. “Você abre uma conta e deposita o recurso que vai ser utilizado no gasto de campanha”, disse Ferreira, que teve seu nome citado no depoimento do empreiteiro Gérson de Mello Almada à Justiça Federal na terça feira, 17.

Paulo Ferreira. Foto: TSE

Paulo Ferreira. Foto: TSE

Almada, preso na Operação Lava Jato – histórica investigação sobre desvios e fraudes na Petrobrás – apontou o nome de Ferreira no trecho de seu relato em que abordou o pagamento de propinas ao PT em forma de doação eleitoral. Ele disse que ‘ajustava as doações’ com João Vaccari Neto, atual tesoureiro do partido. “E antes com Paulo Pereira”, declarou o empresário, referindo-se a Paulo Ferreira.

O depoimento de Gérson Almada, gravado em vídeo, está inserido nos autos da Lava Jato. Desde 2003 na Executiva nacional do partido, Paulo Ferreira assumiu a tesouraria do PT em 2005, substituindo Delúbio Soares, condenado no processo do Mensalão por corrupção e quadrilha. Ferreira permaneceu no posto de secretário de Finanças até 2010, quando chegou João Vaccari Neto, agora denunciado pela força tarefa da Lava Jato por corrupção e lavagem de dinheiro.

Em entrevista à reportagem do Estadão, Paulo Ferreira disse que “como a campanha é cara, as pessoas buscam contribuição de pessoa jurídica”. “Não é nada de atípico”, afirma o ex-tesoureiro do PT.

ESTADÃO: Como era sua atividade de tesoureiro do PT?

PAULO FERREIRA: Como todos os secretários de finanças de todos os partidos. Como você acha que entram recursos nos caixas dos partidos? Os secretários vão às empresas que tradicionalmente doam, isso é histórico o Brasil. Você pega aí as eleições desde a década de 90, tem a contribuição formal de pessoa jurídica. Como a campanha é cara, as pessoas buscam aquilo que está na lei: contribuição de pessoa jurídica. Não é nada de atípico, nada de anormal. Acontece em campanha de vereador, em campanha de deputado, em campanha de prefeito, em campanha de senador, de presidente da República. Você abre uma conta e deposita o recurso que vai ser utilizado no gasto de campanha. Cada vez estão mais caros. É isso que houve.

ESTADÃO: O sr. conhece o empresário Gérson Almada, da Engevix? Ele declarou à Justiça Federal que entregava dinheiro para João Vaccari e antes para o sr. O sr. nega isso?

PAULO FERREIRA: (Conheci) Na função de secretario de finanças. como conheci dezenas de outros. Tem que ir lá, marcar com a secretária. Entra no prédio, registra e faz a conversa.

ESTADÃO: Como o sr. acompanha a situação de João Vaccari?

PAULO FERREIRA: Ele tem se defendido e tem tido um comportamento absolutamente correto. As contribuições que o PT recebeu são contribuições formais, estipuladas pela legislação brasileira. O PT recebeu, o PSDB recebeu, o PMDB recebeu, o PSB recebeu, todos os partidos que participam do processo eleitoral receberam. Se essa é a tese, todos eles (partidos) estão criminalizados, que é a tese de parte dos procuradores.

ESTADÃO: O sr. recebeu propinas de empreiteiras em nome do PT?

PAULO FERREIRA: A pergunta está errada. O que passou no vídeo (do depoimento de Gérson Almada)? Ele disse o seguinte: ele pagava propina, pedágio na Petrobrás, e as doações ao PT, ao ser inquirido pelo promotor que estava ali (em audiência na Justiça Federal), não tinha vinculação com obras. Essa é a fala dele. Eu sugeri, inclusive, que a fala dele seja incorporada numa futura defesa do PT. O resto é ilação ou má-fé. Não tem vinculação de doação ao partido. Lá, quando eu era secretário de finanças e, posteriormente, quando entrou João Vaccari. Essa é a frase e essa que vai para os autos. Se alguém quiser colocar no processo, ela está ali para todo mundo ver e olhar.

ESTADÃO: O juiz Sérgio Moro perguntou ao empreiteiro com quem ele ajustava ‘doações’ ao PT. Ele respondeu:’João Vaccari e antes o Paulo Pereira’.

PAULO FERREIRA: Sou eu. Como faz tanto tempo, acho que ele errou. Isso foi em 2008, 2009. São os dois anos que estão sendo investigados. Nesses dois anos, eu falei com o Gérson e pedi contribuição ao PT, que é isso que todo secretário de finanças faz. Para quê? Para ajudar a financiar as atividades partidárias ou para pagar dívida, etc.

ESTADÃO: Por que o sr. deixou a função?

PAULO FERREIRA: O estatuto do PT não permite a permanência por mais de 3 mandatos de uma mesma pessoa em um mesmo cargo.

ESTADÃO: Quanto o sr. conseguiu arrecadar para seu partido?

PAULO FERREIRA: Eu poderia ver para ti. Eu tenho aqui uma informação de quanto a Engevix doou em 2008 e 2009. Em 2008, ela doou fantásticos R$ 100 mil. Em 2009, fantásticos R$ 200 mil. Esse é o resultado do meu trabalho com a Engevix e o Gérson Almada.

ESTADÃO: O sr. mantinha contatos com que tipo de doador?

PAULO FERREIRA: Hoje quem sustenta as campanhas dos candidatos do Acre ao Rio Grande do Sul é a pessoa jurídica, é o banqueiro, o incorporador, é o dono de serviços. São esses que tradicionalmente financiam. Não ha anormalidade alguma em qualquer campanha eleitoral, as doações são absolutamente proporcionais ao tamanho dos partidos. PT, PMDB, PSDB, PSB, PR, todos os partidos recorrem as contribuições de pessoas jurídicas. É assim que a lei manda fazer. Você tem que pagar avião, você tem que pagar papel, equipe, pesquisa, televisão, tem que pagar tudo. E é caro. Todo secretario de Finanças faz abordagens para sustentar e financiar sua campanha.

ESTADÃO: Com quais empreiteiras o sr. conversou?

PAULO FERREIRA: Praticamente com todas as empresas que tradicionalmente doam a todos os partidos.

ESTADÃO: Quais são?

PAULO FERREIRA: Todas elas. Pega ai Andrade Gutierrez, Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa, Mendes Junior, Galvão. Todas as empresas grandes do País no setor de infraestrutura tradicionalmente doam. Como o setor financeiro doa para todo mundo. Itaú, Bradesco, Santander, todo mundo doa para todo mundo. Como a área de serviços, todos doam. Isso aí está tudo registrado no Tribunal Superior Eleitoral. Não tem atipicidade, anormalidade, está tudo dentro da legalidade. É isso que manda a lei e é isso que os partidos fazem.

ESTADÃO: Como o tesoureiro negocia doações?

PAULO FERREIRA: A campanha sai cara, eu tenho que pagar avião, equipe, pesquisa, papel. Se eu quiser colocar um anúncio no Estado de São Paulo, eu tenho que pagar o anúncio. As empresas não colocam de graça. Quanto a sua empresa destinou ao ano para contribuição eleitoral? Nos anos eleitorais, isso ja é tradicional, elas fixam lá, por lei eu tenho 2% do faturamento que eu posso destinar às campanhas eleitorais. As empresas colocam lá, apresentam aos conselhos em janeiro, fevereiro. olha, vou doar R$ 5 milhões, R$ 10 milhões, R$ 100 milhões. E os partidos acessam isso de acordo com a agenda de cada um.

ESTADÃO: O sr. recebeu propinas de empreiteiras em nome do PT?

PAULO FERREIRA: Essa pergunta é ofensiva demais e descaracterizada da sua função. A mesma coisa que eu perguntasse se você recebeu propina para colocar matéria em alguma matéria sua. Tu recebeu para fazer matéria contra alguém? Nesse assunto da Lava Jato os partidos entram secundariamente. Esse assunto de corrupção envolve gestores da Petrobrás e alguns empresários, vide as devoluções que os diretores e ex-diretores da Petrobrás que disseram que receberam propina estão fazendo.

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