Ex-senador diz que mudou lei após pressão de SP e de montadora

Argelo (PTB/DF) disse à Polícia Federal que foi relator de projeto de lei que tratava de benefícios fiscais a empresas

Fábio Fabrini, Andreza Matais, Adriano Ceolin / Brasília e Julia Affonso / São Paulo

27 de janeiro de 2016 | 19h08

O ex-senador Gim Argello. Foto: Ed Ferreira/Estadão

O ex-senador Gim Argello. Foto: Ed Ferreira/Estadão

Em depoimento à Polícia Federal, o ex-senador Gim Argello (PTB-DF) disse ter feito alterações num projeto de lei após sofrer pressão do governo do Estado de São Paulo e da montadora CAOA – a empresa, que fabrica veículos Hyundai, ameaçava não abrir fábrica em Piracicaba, no interior paulista. Documentos sob investigação na Operação Zelotes apontam negociação de lobistas do setor automotivo para, supostamente, pagar R$ 15 milhões em propina petebista, cujo mandato se encerrou em 2014. Argello nega ter recebido qualquer vantagem indevida.

À PF, Gim contou que foi relator de um projeto de lei, oriundo da Câmara, que tratava de benefícios fiscais a empresas. O texto fazia restrições à instalação de fábrica de empresa que tivesse “liame societário” com alguma outra firma que fosse devedora do Fisco. A CAOA, que monta veículos Hyundai no Brasil, pretendia instalar uma planta industrial em Piracicaba (SP).

A matriz coreana da multinacional, a Hyundai Motors, havia adquirido participação na Kia Motors. Já a Kia comprara, antes disso, a Asia Motors, empresa que tinha dívidas tributárias com o governo federal. Gim explicou que, por conta da expressão “liame societário”, contida no texto, acabou sofrendo pressões de representantes da embaixada coreana, do governo de São Paulo e do dono da CAOA para suprimi-la. Por conta do trecho, a montadora estaria ameaçando interromper seus planos de erguer a fábrica paulista.

O ex-senador disse que chegou a conversar com Carlos Alberto de Oliveira Andrade, o CAOA, dono da montadora no Brasil, e um de seus assessores, Eduardo Ruiz Garcia, que pediram a retirada da expressão.  Ele contou que, ao final, acabou “acatando as razões” e retirando o trecho. Mas ressaltou que não houve oferta de valores ou vantagem para que o fizesse.

O ex-congressista também negou ter recebido suborno para que propusesse emendas a medidas provisórias. Ele chamou de “inverídicas e delirantes” informações dadas pelo consultor João Batista Gruginski, um dos investigados na Operação Zelotes, à PF. O consultor registrou em diário que participou de reunião com lobistas de montadoras, no qual teria sido mencionada propina para Gim e os atuais senadores Renan Calheiros (PMDB-AL) e Romero Jucá (PMDB-RR) apoiarem emenda a uma MP. O suborno citado alcançaria R$ 45 milhões, R$ 15 milhões para cada um dos políticos.

Gim informou não ter recebido doações eleitorais da CAOA e da MMC, suspeitas de “encomendar” as MPs, e de outras montadoras. Disse que, como senador do Distrito Federal, propôs medidas que beneficiariam em particular as montadoras do Estado de Goiás, tendo em vista os benefícios indiretos que tanto Brasília quanto a região do entorno teriam com a expansão do setor automotivo do Centro-Oeste”.

O advogado José Roberto Batocchio, que defende o dono da CAOA, disse que Carlos Alberto procurou Gim para oferecer uma “legítima explicação” sobre os equívocos do projeto de lei. Segundo ele, a alteração fez muito bem, pois assegurou empregos a milhares de pessoas.

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