Sérgio Côrtes tentou acuar delator, diz Lava Jato

Sérgio Côrtes tentou acuar delator, diz Lava Jato

Imagens da Operação Fatura Exposta revelam 'visita' de ex-secretário de Saúde do Governo Cabral no escritório de Cesar Romero

Julia Affonso e Fausto Macedo

11 de abril de 2017 | 09h13

20170411_091155

A Operação Fatura Exposta, desdobramento da Lava Jato no Rio, afirma que o ex-secretário de Saúde Sérgio Côrtes (Governo Sérgio Cabral), preso nesta terça-feira, 11, tentou barrar a delação premiada de seu ex-subordinado Cesar Romero. O acordo de colaboração deu base à deflagração da Fatura Exposta.

Ao juiz federal Marcelo Bretas, a Procuradoria da República, no Rio, afirmou. “Sérgio Côrtes está embaraçando as presentes investigações, atuando para constranger o colaborador César Romero a não celebrar acordo de colaboração premiada. Com efeito, a despeito das tentativas de Sérgio Côrtes, o citado acordo de colaboração premiada com Césae Romero foi firmado no dia 16 de março de 2017 e homologado judicialmente no dia 20 de março de 2017.”

Segundo a Lava Jato, no Rio, ‘antes porém, foi precedido por negociações entre o Ministério Público Federal e o Colaborador que se iniciaram no dia 31 de janeiro de 2017, quando foi assinado Termo de Confidencialidade’.

“Dias antes da efetiva assinatura do acordo de colaboração, o colaborador foi procurado em seu escritório pelo ex-secretário de Saúde do Rio de Janeiro Sérgio Côrtes que embaraçou as investigações e o curso da negociação da colaboração, quando pediu para que Cesar Romero combinasse com ele, Sérgio Côrtes, temas a serem incluídos em possível acordo”, informou o Ministério Público Federal ao juiz Bretas.

“Além da gravação apresentada ao Ministério Público Federal, como prova dos fatos alegados, o Colaborador Cesar Romero entregou imagens do circuito interno de vídeo de seu escritório de advocacia que comprovam que Sérgio Côrtes esteve, de fato, no local para embaraçar o acordo de colaboração que estava sendo entabulado com o Ministério Público Federal.”

A investigação mira em fraudes no fornecimento de próteses ao Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia. A empresa Oscar Iskin, ligada aos empresários Miguel Skin e Gustavo Estellita, alvos de mandado de prisão, teria sido favorecida por Sérgio Côrtes. A propina chegaria a 10% do valor dos contratos.

A PF informou que Sérgio Côrtes e os dois empresários serão indiciados por corrupção passiva e ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A ação da PF foi deflagrada em parceria com o Ministério Público Federal e a Receita. A Fatura Exposta é uma nova fase da Lava Jato no Rio.

Cem policiais federais cumprem 3 mandados de prisão preventiva, 20 mandados de busca e apreensão e 3 mandados de condução coercitiva, na capital fluminense e nos municípios de Mangaratiba/RJ e Rio Bonito/RJ. As ordens judiciais foram expedidas pela 7ª Vara Federal Criminal/RJ.

A conversa entre Sérgio Côrtes e Cesar Romero foi gravada.

LEIA:

SÉRGIO CÔRTES: Essas duas semanas aí, o próprio Marco Antônio [FILHO DE SÉRGIO CABRAL]: “César tá delatando… você tá sabendo disso, né?”. Eu falei: “Tô, tá todo mundo já falou…Cesar tá delatando…”.

CÉSAR ROMERO: Eu não tô delatando…

SÉRGIO CÔRTES: Não, tô te falando, César tá delatando, não sei o que, parara… tá bom… vou fazer o que… eu já tinha decidido fazer, né? Fiz essa decisão quando soube da história do Carlos. Agora, não tem jeito. Vou fazer. E você já estava fazendo…

CÉSAR ROMERO: Mas eu não tô fazendo delação…

SÉRGIO CÔRTES: Peraí, César… você já estava fazendo, aí foi quando eu falei pro Júnior [SERGIO EDUARDO VIANNA JUNIOR – CUNHADO DE SERGIO CORTES E PRIMO DE CÉSAR ROMERO]: “Júnior, o ideal é que pelo menos a gente tenha alguma coisa parecida… porque se ele falar de A,B,C,D e eu falar de C, D, F, G, fudeu, porque A e B eu não falei e F e G ele não falou”…

CÉSAR ROMERO: Olha só… eu fiz uma delação premiada… dessa menina…

SÉRGIO CÔRTES: Você já me contou essa história, eu lembro disso…

CÉSAR ROMERO: Dessa menina. Agora ela foi chamada de novo nessa Força Tarefa do Rio de Janeiro pra prestar mais uns depoimentos sobre aquele Vinícius Claret que é um dos doleiros… eu acompanhei ela nesse depoimento, de forma que o que eu tenho visto, não é minha especialidade, eu conheço o cara de Curitiba que é o bam-bam-bam disso e eu vou conversar com ele, até liguei pra ele… eu acho que uma delação tem que jogar a merda toda no ventilador, porque se você ficar selecionando como o Júnior me disse, que você ia…

SÉRGIO CÔRTES: Não, eu pretendo colocar mais coisas…

CÉSAR ROMERO: Quatro fatos. Oi…não sei o quê…

SÉRGIO CÔRTES: Ok, tudo bem, botar no INTO o Cláudio [CLÁUDIO VIANNA – IRMÃO DE CESAR] vai te pagar…

CÉSAR ROMERO: Meu filho, não tem como… você acha que os procuradores vão achar que você fez o que fez na Secretaria e não fez nada no INTO… você não pode ser infantil, Sérgio…

SÉRGIO CÔRTES: Eu sei mas o INTO, cara, é o pós secretaria, porque antes da secretaria, eu tinha uma coisa muito limitada no INTO…

CÉSAR ROMERO: Então tem que entregar essa coisa muito limitada, que que era só uma mesada? Era só uma mesada. Mas tem que ter alguma coisa. Os cara querem uma história verossímil. Não adianta eu contar a história da carochinha pros caras que os caras não acreditam…

SÉRGIO CÔRTES: Sabia que só tem uma notícia boa nessa aí… notícia boa porque eu acho, né? O Júnior me falou que o Cláudio falou: “porra cês tinham que estar com mesmo advogado que não sei o que, parara, parara…” eu tinha entendido quando tive com ele que tava tentando levar o Miguel [MIGUEL ISKIN] para fazer a colaboração… Miguel não quer fazer, disse que não vai fazer, ele se nega, não sei o que parara, parara… não sei que lá…ele falou: “Não posso fazer pra você e pro Miguel, não tem como, não sei o que” mas ele falou, que como nós dois somos delatores, é pra nós dois fazermos juntos, ele disse…

CÉSAR ROMERO: Sinceramente, não sei se isso é factível ou não…

SÉRGIO CÔRTES: Não, ele já falou…

CÉSAR ROMERO: Quem falou?

SÉRGIO CÔRTES: O Mirza [FLÁVIO MIRZA]. Ele falou: “Eu posso advogar pra vocês dois porque vocês não vão contar histórias díspares… entendeu, então… vocês vão delatar a mesma coisa, as mesmas histórias, as mesmas coisas, que é o que a gente vai combinar, entendeu… de grana, não vamos dizer o que a gente recebeu… se não fudeu… porque é o que a gente tem que devolver… ele até falou:
[inaudível]

CÉSAR ROMERO: Vocês estão na fase de negociar benefícios, essas coisas?

SÉRGIO CORTES: Que isso, cara… A primeira vez, a primeira reunião foi hoje…. Eu não fui, foi ele com o procurador… e eu falei que pode dizer pra ele que eu tive contato com o César..

CÉSAR ROMERO: Dizer pra quem?

SÉRGIO CORTES: Pro procurador… “acho besteira você não ir”…

CÉSAR ROMERO: Qual o nome?

SÉRGIO CÔRTES: Leonardo [LEONARDO FREITAS], o chefe, que foi orientado, orientando dele no doutorado…

CÉSAR ROMERO: Eu acho que tem que falar tudo… tudo… porque, pelo seguinte…

SÉRGIO CORTES: Como é que eu vou falar de não sei que… César, a gente não sabe…como é que prova? Isso não é prova.

CÉSAR ROMERO: Tá, aí tem crime, crime da evasão… você, eu, … mas quem se fode sou eu porque eu era o gestor, né… em tese, eu que era o operador… foi feita uma licitação, a empresa pra participar da licitação… empresa nacional vinha e botava 1 milhão e 100…

SÉRGIO CORTES: Aham

CÉSAR ROMERO: Aí a empresa internacional vinha e cotava 1 milhão porque ela tinha que pegar o preço dela que custava 500 e agregar aos impostos… pra participar da licitação… ela ganhou com preço de… 1 milhão… tá….quem importou foi a Secretaria de Estado…

SÉRGIO CÔRTES: Aham

CÉSAR ROMERO: E a secretaria de Estado tinha que pagar a ela sem os impostos e pagou com os impostos… ou pagava ela com os impostos e ela trazia os equipamentos, na entrada do equipamento no país, recolhia os impostos… aqui tem crime fiscal… eu vou dizer que eu não sabia… que eu via, que passava…

SÉRGIO CÔRTES: Não, não. Você vai dizer, você vai falar sobre isso?

CÉSAR ROMERO: Não. Mas você não acha que os caras não vão perguntar?

SÉRGIO CÔRTES: Não vão. Como, César?! César, me explica como é que eles vão saber quais são os processos que o Miguel participou se ele não tava… acho que a gente tinha que pegar os processos sobre os caras que “participou”…

CÉSAR ROMERO: Ele nunca participou na secretaria…

SÉRGIO CÔRTES: Então. Por isso que tô entregando o Miguel [MIGUEL ISKIN] na UPA, não sei o que, parara parara… mas como é que foi feito?… foi feito assim, assim, assado.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: